Em confronto diário com a morte e o sofrimento, os profissionais de saúde que trabalham com pacientes paliativos estão sobrisco de exaustão emocional. Desta forma, vários têm sido os estudos que realçam a necessidade de “implementar” programas de prevenção / tratamento do burnout.
Vargas et al. (2016), no estudo qualitativo, recorrem a entrevistas individuais semi- estruturadas. Assim, 10 profissionais de cuidados paliativos da Extremadura (Espanha) participam no estudo. Estes chamam a atenção para o facto dos profissionais de cuidados paliativos estarem expostos diariamente a elevados níveis de sofrimento, tornando-os particularmente vulneráveis a sofrer destress, o que, consequentemente, os pode levar ao burnout e / ou à fadiga por compaixão. Este estudo analisa o percurso dos profissionais de cuidados paliativos ao longo do tempo e os fatores que interferem nesse percurso profissional. A análise mostrou que o percurso usual seguido pelos profissionais assenta em cuidados pré-paliativos / lua- de-mel / frustração / maturação. Os profissionais de cuidados paliativos passam por uma sequência de fases, dependendo da relação entre o custo. Sendo que o cuidado e a satisfação do mesmo podem influenciar tanto o cuidado prestado aos pacientes e famílias, quanto as suas próprias circunstâncias pessoais. Salienta-se a importância da implementação de estratégias de autocuidado, capacitando-os, de modo a que os profissionais possam ser protegidos. Um dos exemplos é o estudo (longitudinal) de
Popa-Velea, Trutescu e Diaconescu (2019) que tem como intuito avaliar a eficácia do treino de balint, de forma a prevenir os sintomas de alexitimia (incapacidade de encontrar palavras para descrever os sentimentos), stress elevado, baixo suporte social percebido e o risco de burnout. Fizeram parte do estudo 69 médicos (33 homens e 36 mulheres) que trabalham com pacientes paliativos de cinco hospitais municipais da Roménia. Desses, 31 participaram sistematicamente num grupo local de balint. Os resultados deste estudo (Popa-Velea, Trutescu, & Diaconescu, 2019) apontam que o treino em balint tem potencial, dado que melhora o nível de burnout (exaustão emocional e despersonalização), assim como a alexitimia e o suporte social percebido. No que concerne aos níveis de stress percebido e à baixa realização pessoal, não se observam melhorias. Quando comparado entre géneros, o treino balint tem um impacto superior no género masculino- uma maior diminuição da alexitimia e um aumento do suporte social percebido. Este estudo longitudinal, no âmbito do burnout e da alexitimia evidencia que o treino em balint (uma série de reuniões periódicas, com um orientador, com o intuito de sensibilizar os participantes para os aspetos emocionais e psicológicos da prática clínica) tem potencial para prevenir e tratar o
burnout em profissionais que trabalham em CP (Popa-Velea, Trutescu, & Diaconescu,
2019). Do mesmo modo, os resultados do estudo de Fernández-Sánchez, Pérez- Mármol, Santos-Ruiz, Pérez-García e Peralta-Ramírez (2018) evidenciaram que os profissionais de saúde de cuidados paliativos com maior nível de burnout apresentam alteração da inibição de resposta, da memória no trabalho e na tomada de decisão, surgindo daí a necessidade de incluir programas de prevenção e tratamento de
burnout nestes profissionais de saúde de CP. Como já se viu, o estudo de Fernández
Sánchez, Pérez Mármol e Peralta Ramírez (2017), apresenta-nos alguns fatores que parecem aumentar o risco de desenvolver níveis mais elevados de burnout nestes profissionais, como: ser mais jovem, ter menos antiguidade na unidade, ter menos horas de sono, praticar menos atividade física. E assim sendo, defendem que estes fatores devem ser tidos em conta, de forma que se possa aperfeiçoar as estratégias de prevenção e intervenção (implementação de programas de treino / informação) desta síndrome. Do mesmo modo, os resultados do estudo de Martins Pereira, Teixeira, Carvalho e Hernández-Marrero (2016) destacam a necessidade de fomentar condições/ estratégias de capacitação no local de trabalho, como trabalho em equipa
interdisciplinar, capacitar as equipas a gerir conflitos, uma vez que experienciar conflitos é determinante para o burnout.
Efetivamente, se queremos qualidade no serviço prestado aos doentes e bem-estar dos profissionais, temos que proceder a intervenções para melhorar as condições de trabalho, não esquecendo a importância da formação inicial dos profissionais de saúde (Marôco J et al., 2016). Pois, muitos são os profissionais que identificam necessidades de treino contínuo, de orientação e de apoio para aumentar a confiança nos diferentes aspetos do trabalho (Taylor J & Aldridge J, 2017). Ou seja, os inquiridos do estudo de Taylor J e Aldridge J (2017) apontam que há necessidade de mais treino sobre o stress relacionado com o trabalho. Para além disso, alguns profissionais falam da necessidade das organizações adotarem políticas que possam reduzir o burnout, como a promoção de CP primários (Kavalieratos et al., 2017).
Neste sentido, os resultados de Slocum-Gori, Hemsworth, Chan, Carson e Kazanjian (2013) indicam que os sistemas de saúde podem, para apoiar os profissionais de CP, aumentar a satisfação da compaixão e minimizar a fadiga da compaixão e de burnout, através de programas a nível político e institucional, de modo a que haja desenvolvimento da educação e de programas de treino para estes profissionais. Se, por um lado, a exaustão emocional e a despersonalização estão associadas a estratégias de superação, por outro, a solução de problemas e a atitude positiva foram negativamente associadas à exaustão emocional e positivamente à realização pessoal. Além disso, o uso de estratégias de prevenção está relacionado com uma pior condição psicológica e física. Isto é, os resultados mostram a necessidade de programas de treino no âmbito das habilidades de superação e comunicação, adaptados às necessidades dos profissionais, de acordo com a sua experiência de trabalho em cuidados paliativos e com o intuito de melhorar a abordagem de pacientes e familiares (Ercolani et al., 2019).
Também Ellifritt, Nelson e Walsh (2003) realçam a importância das organizações desenvolverem estratégias de superação. No seu estudo, desenvolvido nos Estados Unidos [a Califórnia foi o estado que mais contribuiu (N = 64)]. Este estudopermite- nos perceber que existe necessidade de atuar no âmbito organizacional, através de programas de prevenção/ preparação precoce, uma vez que os fatores de risco mais
apontados foram a falta percebida de apoio social e mais habilidades de enfrentamento. E prever estes problemas é a nível económico vantajoso, na medida em que se impede o aumento do uso de recursos de saúde.
O estudo de Freitas, Carneseca, Paiva. C e Paiva. B, S (2014) consiste numa intervenção aplicada a 21 membros de uma equipa de enfermagem (19 auxiliares / técnicos e 2 enfermeiros) de UCP (Barretos): um programa de atividade física no local de trabalho. O programa foi realizado durante três meses consecutivos, cinco vezes por semana, com duração de dez minutos. No início da intervenção, oito profissionais foram descritos como ansiosos e, após a intervenção, cinco permaneceram na mesma. Quanto à depressão, houve diminuição no número de casos, mas a diferença não atingiu relevância estatística. No início, sete dos profissionais apresentaram altos níveis de "exaustão emocional" e dez mostraram níveis de "despersonalização". Por outro lado, apenas três evidenciaram baixa "realização profissional" no trabalho. A nível estatístico, nas dimensões do burnout, em relação ao pré e ao pós- intervenção, não se verificaram alterações significativas. Devemos enfatizar no estudo de Freitas, Carneseca, Paiva.C, e Paiva. B, S (2014) os elevados níveis de "despersonalização", quer antes, quer depois da intervenção.Após a intervenção, não foram presenciadas alterações significativas nas variáveis de stresse ocupacional, mas salienta-se o "baixo controlo" apresentado antes e depois da intervenção. O programade atividade física (Freitas, Carneseca, Paiva C e Paiva BS, 2014) não originou resultados expressivos nos níveis de ansiedade, depressão,
burnout ou do stress ocupacional. Apesar da intervenção não ter sido estatisticamente
significativa, não deve ser descurada, pois o programa foi bem aceite. Aliás, após a intervenção do mesmo, os profissionais de enfermagem relataram melhoras na dor corporal e na sensação de fadiga no trabalho, ou seja, melhoras na sua qualidade de vida relacionada com o trabalho; 18 dos profissionais de enfermagem referiram melhoria na qualidade de vida geral; 17 relataram maior preocupação quanto à sua própria saúde; 15 contaram sentirem-se com mais vontade de trabalhar e 12 notaram maior disposição para se envolver noutras atividades. Dos 17 profissionais que sentiam fadiga antes da intervenção, dez referiram que após a intervenção se sentiam melhor. Quanto à dor corporal, 20 relataram melhoras.
Enfim, este programa não foi capaz de melhorar o burnout, na medida em que a diferença não atingiu significado ao nível da estatística. No entanto, os profissionais relataram melhorias em vários aspetos: capacidade de trabalho, qualidade de vida geral e em alguns sintomas físicos, como a dor, o que confirmaa importância de se investir cada vez mais em programas de prevenção / tratamento do burnout.