Vários são os estudos que nos relatam que o burnout influencia a prática clínica. Os sintomas são múltiplos e diferem de pessoa para pessoa. Ocorre, por norma, um ano após a entrada no trabalho. Contudo, há sinais que com facilidade se detetam, como: exaustão e fadiga, dores de cabeça e distúrbios gastrointestinais, respostas de irritação e frustração. Além disso, o burnout assume-se como o chorar com muita facilidade e a menor pressão faz com que o indivíduo se sinta sobrecarregado. A raiva pode também acontecer. E a vítima começa a sentir que todos (incluindo a equipa) a querem tramar (Freudenberger, 1974).
Segundo Bodenheimer e Sinsky (2014), o stress afeta a capacidade de o sistema de saúde atingir os seus objetivos (redução de custos, satisfação dos doentes, melhorar a saúde da população), daí que pensar nos profissionais de saúde, nos prestadores de cuidados, também deve fazer parte dos objetivos. Com o burnout, os custos
aumentam e a satisfação dos doentes tende a diminuir, uma vez que se observa uma perda de entusiasmo pelo trabalho.
Os profissionais que sofrem de burnout estão mais propensos a desenvolver depressão, ansiedade, abuso de substâncias e pensamentos suicidas (Chung et al., 2018; Freudenberger, 1974).
No estudo de Fernández-Sánchez, Pérez-Mármol, Santos-Ruiz, Pérez-García M e Peralta-Ramírez (2018) - estudo observacional transversal, com o intuito de avaliar o nível de burnoute de perceber se este está relacionado com alteração da inibição, memória de trabalho, tomada de decisão e flexibilidade cognitiva em profissionais de saúde em cuidados paliativos -fizeram parte 77 profissionais de unidades de cuidados paliativos do hospital universidade de San Rafael (Granada). Com predomínio do sexo feminino (85,7%) ea média de idades de 29,4 anos (18 a 55 anos), a experiência profissional variou de 1 a 384 meses e a experiência na unidade de 0 a 280 meses; a duração do sono, entre 5 e 12h. Fizeram parte dos critérios de inclusão: ter mais de dezoito anos, ser profissional de saúde de cuidados paliativos, trabalhar no turno da manhã fixo ou turno manhã- tarde. Por seu lado, os critérios de exclusão foram: dormir menos do que cinco horas diárias, turnos da noite de trabalho e ter um distúrbio cognitivo ou sensorial. Os testes foram executados durante o horário de trabalho, e no começo do dia. Destacamos como instrumento de avaliação o questionário Maslach Burnout Inventory- HSS dirigido para avaliar burnout, abrangendo vinte e dois itens e três subescalas: exaustão emocional, despersonalização e realização pessoal. Deste estudo, concluiu-se que os profissionais de saúde de cuidados paliativos com maior nível de burnout apresentam alteração da inibição de resposta, da memória no trabalho e na tomada de decisão. Ou seja, mostram pontuações mais fracas no desempenho executivo quando comparados com profissionais com níveis de burnout mais baixos. Sendo que estas funções podem ser cruciais no âmbito clínico, dado que podem estar relacionadas com o pensamento cognitivo necessário para o correto raciocínio clínico dos profissionais de saúde (Fernández-Sánchez, Pérez-Mármol, Santos-Ruiz, Pérez-García M, & Peralta- Ramírez, 2018).
Do mesmo modo, Boyle e Bush (2018), na revisão de literatura, examinam as sequelas emocionais do trabalho das enfermeiras oncológicas pediátricas, tendo como objetivo traçar sequelas emocionais e sugerir intervenções para apoiar o bem-estar à luz do cuidado prolongado. Práticas clínicas que influenciam o cuidado, os riscos de
burnout, fadiga por compaixão, angústia moral e sofrimento; intervenções para
neutralizar esses fenómenos. Estes chamam a atenção para as características típicas do
burnout como: fadiga por compaixão, sofrimento moral e luto, angústia moral e dor,
bem como para as três grandes categorias que incluem os aspetos da prática clínica que influenciam o cuidado, os riscos de esgotamento, a fadiga por compaixão, a angústia moral e o sofrimento e as intervenções para neutralizar esses fenómenos. Assim:
Etiologia - reacional, relacional, ética (Boyle & Bush, 2018):
Reacional- resposta defensiva, ou seja, incapacidade de lidar com o stress no trabalhoou stressores ambientais que levam à exaustão emocional;
Relacional - consequência de testemunhar a tragédia, cuidar daqueles que estão traumatizados ou a sofrer, efeito do trauma indireto, agravado pela perda não resolvida (pessoal e profissional); evolui do luto pelas mortes de pacientes com quem o enfermeiro teve uma forte “ligação” emocional;
Ética- questionar a natureza das lutas do paciente e da família;
Stress no trabalho- manifestações: emocional, físico, social, no trabalho (Boyle &
Bush, 2018):
Emocional - raiva, frustração, cinismo, depressão, culpa;
Físico - cansaço cognitivo, distúrbios do sono, fadiga crónica, dores de cabeça, angústia gastrointestinal, oscilações de peso;
Social - desapego, evitamento;
Trabalho - diminuição da realização, indiferença, alienação interpessoal, diminuição das interações com o paciente.
Tal como os resultados reforçam e ampliam a gravidade e potenciais ramificações de
emocionais do burnout foram frequentemente descritos como sentimentos de exaustão emocional, tédio, ansiedade ou irritabilidade, enquanto os aspetos somáticos de
burnout foram refletidos nas experiências físicas dos participantes (ex: fadiga ou
insónias) (Freudenberger, 1974; Kavalieratos et al., 2017).
Os profissionais expressam surpresa ao experienciar o burnout antes do esperado. Os participantes usam termos que transmitem medo ou remorso em relação às suas experiências de burnoute os seus efeitos residuais. Para muitos, o burnout é um fenómeno que, mesmo quando temporariamente resolvido, nunca é totalmente “It Is Like Heart Failure. It Is Chronic … and It Will Kill You”. No estudo observa-se uma ambivalência geral (entre os grupos) em relação ao facto de o burnout ser um fenómeno natural e esperado entre os clínicos de CP que irá diminuir e fluir com o tempo, ou sendo uma doença, exija intervenção agressiva. Os participantes médicos do sexo masculino mais velhos descrevem de forma desapaixonada o burnout como esperado da prática de CP, enquanto os participantes de outro grupo discutem o
burnout como um desfecho não natural (Kavalieratos et al., 2017).
Os profissionais de saúde que comportam elevados níveis de burnout em, pelo menos, uma dimensão do burnout apresentam níveis mais altos de sensibilidade interpessoal, depressão, hostilidade quando comparados aos grupos sem burnout (Fernández- Sánchez, Pérez-Mármol, Blásquez, Santos-Ruiz, & Peralta-Ramírez, 2017).
De facto, o burnout é percebido pelos profissionais como prejudicando, de forma generalizada, a vida dos participantes a nível pessoal e profissional, tendo efeitos a nível individual sobre o desempenho físico, psíquico e clínico. Segundo os profissionais, o burnout prejudica os cuidados com o paciente de várias maneiras, incluindo empatia, diminuição do envolvimento com pacientes e familiares, diminuição da qualidade do atendimento. O burnout também tem implicações para a comunicação interpessoal com os colegas, incluindo interações antipáticas com os estagiários (Kavalieratos et al., 2017). Os profissionais descrevem o burnout como um sentimento invasivo. Estes sentem que o burnout lhes rouba a sua capacidade de fornecer o atendimento ao paciente que eles estavam habituados a fornecer. O burnout dá origem a sentimentos de apatia e desapego. Os efeitos crónicos de burnout na capacidade das organizações fornecer CP de qualidade são comentados por todos,
dado que o burnout não é simplesmente um fenómeno de nível individual; se não for abordado, o burnout afeta toda a organização (Kavalieratos et al., 2017).
Na mesma linha, os resultados da pesquisa de Raphael et al. (2019), internacional online (estudo de coorte) a 1.115 médicos prescritores de quimioterapia de 42 países diferentes (na qual os estagiários foram excluídos) visou avaliar a satisfação no trabalho de oncologistas/ satisfação no trabalho do médico oncologista e os fatores associados à baixa satisfação, concluindo-se que: os profissionais com baixa satisfação no trabalho têm menor probabilidade de discutir o diagnóstico com os seus doentes; 1 em cada 5 oncologistas relata baixa satisfação no trabalho, associada às pressões a nível do sistema, resultando em menos tempo para atendimento de qualidade ao paciente e resiliência pessoal. Acrescente-se que a satisfação no local de trabalho não varia por sexo. Os profissionais com baixa satisfação no trabalho são os mais jovens e com menos experiência (menos anos de prática clínica). Por outro lado, os médicos oncologistas que trabalham em hospitais menores e dentro de grupos clínicos menores eram mais propensos a ter alta satisfação no trabalho, assim como os médicos que trabalham no setor privado apresentam maior satisfação no trabalho do que aqueles que trabalham exclusivamente no setor público. Segundo os mesmos estudiosos, os fatores associados com a baixa satisfação no trabalho são: aumento das horas de trabalho por semana; diminuição das semanas anuais de férias; estar de plantão todas as noites; aumento dos volumes clínicos; falta de CP; falta de acesso a radioterapia no local; falta de fármacos de quimioterapia. Outras barreiras relatadas por esses médicos com baixa satisfação no trabalho incluem: tempo insuficiente para leitura, escassez de oncologistas, acesso limitado a tratamentos e falta de enfermeiros (Raphael et al., 2019).
Pelo contrário, o número anual de novas consultas não está associado à menor satisfação no trabalho. No entanto, o mesmo não se verifica em relação a volumes clínicos diários, pois oncologistas médicos que consultavam mais de 40 pacientes por dia tinham menor probabilidade de ter alta satisfação no trabalho em comparação com aqueles que viam menos de 20 pacientes por dia. A visão geral da satisfação no trabalho oncológico (20% dos prestadores de oncologia expressam baixa satisfação no trabalho) está relacionada com as medidas de carga de trabalho clínico. Os oncologistas que expressam baixa satisfação no trabalho, trabalhavam mais horas por
semana, viam mais pacientes clínicos por dia e tinham menos férias pagas anualmente. Além disso, os oncologistas valorizam o trabalho num ambiente multidisciplinar com recursos e tempo para cuidar adequadamente dos seus pacientes e de si mesmos: bem-estar do médico (Raphael et al., 2019).
Para se compreender o burnout temos que perceber o stress. E para Pereira (2002), o
stress refere-se a um processo temporário de adaptação que compreende mudanças
físicas e/ou psíquicas. Por norma, é sentido como um termo negativo.No estudo de Dougherty E et al. (2009) a 60 enfermeiros de oncologia (Toronto, Canadá), numa unidade de internamento e numa unidade de cuidados paliativos, maioritariamente do sexo feminino, com trabalho a tempo inteiro, 63% dos profissionais expôs que já experienciou um elevado nível de stresse no trabalho, devido a fatores como: maior carga de trabalho, tempo insuficiente para chorar a morte dos pacientes (55%), falta de apoio institucional, falta de recursos e a evidente falta de controlo sobre a escolha do local de trabalho. Em conclusão: o nível de stress no trabalho é em geral alto (63%), apresentando como sintomas:
- emocionalmente esgotado(56%);
- alterações negativas nos hábitos alimentares(42%) ; - sentimentos de inutilidade ou desamparo(28%);
- carga de trabalho que afeta negativamente o atendimento ao paciente (52%);
- carga de trabalho que afeta a capacidade de fornecer a nível emocional suporte a pacientes e compaixão na fase final de vida (mais de 80%);
- insuficiência de recursos relacionada com o stress no trabalho (mais de 30%). Por outro lado, os entrevistados referem:
- vontade de vir para o trabalho (85%);