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No século I, a aproximação entre Roma e Egito foi intensificada, pois os problemas dinásticos se acentuaram e o governo romano começou a intervir progressivamente no comando egípcio. Quando o rei Ptolomeu IX Lathyrus morreu (80), Sila apoiou seu sobrinho (mencionado acima) que foi proclamado como Ptolomeu XI Alexandre II, mas foi logo linchado pelos alexandrinos. Instalou, então, o filho ilegítimo de Latyrus no trono, Ptolomeu XII Aulete. Sua pretensão ao reino se tornou ainda mais ilegítima quando a declaração de um testamento de Ptolomeu X ou XI foi publicada em Roma, no qual legava o Egito a Roma, talvez como recompensa por todas as ajudas anteriores nos impasses dinásticos (SCHULLARD, 1982, p. 106-107). Livia Capponi (1975, p. 5) argumenta que com a divulgação do testamento a tomada do Egito

se tornou questão de debate público, tanto em Roma quanto em Alexandria. Para a autora a anexação só não ocorreu nessa época, pois não se chegava a um acordo em Roma a respeito de quem era o candidato mais adequado para o comando egípcio.

O reinado de Ptolomeu XII Aulete é o mais tratado pela documentação. Cícero é a fonte principal, mas Estrabão, Plutarco, Suetônio, Apiano, Dion Cássio e Ateneu também versam sobre o contexto. O rei Aulete foi expulso (ou fugiu) de Alexandria, buscou refúgio em Roma, e depois retornou sob amparo e proteção romanas. A partir do seu governo as intromissões romanas nas crises da realeza se tornaram incisivas, evidenciando o crescimento de seu poder. Tratou-se também de um momento de conscientização em relação ao papel vital do Egito para Roma, pois ao mesmo tempo em que a República ampliava seu poder político, conscientizou-se da vitalidade da riqueza egípcia.

A narrativa de Cícero é a mais ilustrativa da importância da tomada do Egito nesse contexto, algo que em vida ele não viu acontecer efetivamente. Cícero é uma fonte riquíssima para o contexto de problemas diplomáticos e políticos entre a classe dirigente de Roma e a realeza ptolomaica no século I a.C.. Deste modo, o depoimento sobre o reinado de Aulete e seus problemas com os alexandrinos é central em sua narrativa. O relato de Cícero é o mais minucioso para analisar o contexto de saída do rei e para medir a sua repercussão em Roma. Repetidas vezes ele menciona a expulsão do rei, a restituição por Gabínio e a embaixada que foi a Roma protestar contra o retorno e acabou massacrada. Os escritos denunciam que os problemas da dinastia ptolomaica não envolviam apenas o Egito, em virtude da importância da riqueza do território naquele mundo. Justifica, portanto, que interferências mais incisivas por parte do comando romano eram necessárias.

Depois das reformas de Sila em Roma, a facção democrática tentou estabelecer uma série de medidas para favorecer o povo, pois estava ocorrendo uma grande concentração de terra pública nas mãos de poucos. No final de 64 a.C. P. Servilio Rullo ocupou o cargo de tribuno e propôs uma lei agrária em benefício popular, que estabelecia que durante cinco anos dez decúviros teriam o poder para agir em seu nome. Eles deveriam alocar terras, estabelecer colônias, na Itália e nas províncias. Para a compra dessas terras os comissionários podiam usar recursos públicos e butins de guerra. Cícero, cônsul da época, foi ferozmente contra a possibilidade da venda de terras públicas, pois acreditava que o poder sobre a terra na mão de poucos poderia fugir ao

controle do Estado. Seu discurso foi vencedor, e fez Rullo retirar a proposta. Nesse momento, Cícero faz uma digressão sobre Alexandria, apontando como seria perigoso se poucos homens resolvessem se apoderar de um território tão caro aos romanos (e assim, controlar sua produtividade), tornando privadas, terras públicas do povo romano. O autor deixa claro que a possibilidade da posse de terras egípcias era uma de suas maiores preocupações, que o levou a se posicionar contra a proposta. O seguinte trecho (parte do discurso pronunciado diante da assembléia popular) ilustra suas preocupações:

E a respeito de Alexandria e de todo o Egito (Alexandrea cunctaque Aegyptus), quão secretamente é negociado! Como é mantido fora do caminho! Quão secretamente é entregue totalmente aos decúnviros! Quem de vós ignora que é dito que, por virtude do rei Alexas, vosso reino não se tornou propriedade do povo romano? Aqui eu, cônsul do povo romano, não apenas não pronuncio nenhum julgamento sobre esse ponto, nem digo o que penso; pois a questão me parece não apenas difícil de decidir, como até difícil de discutir! E vejo alguém que alega que o testamento foi feito; Eu estou ciente que existe um decreto do Senado alegando que entrou na herança da época quando, após a morte de Alexas, mandamos comissários a Tyre para recuperar para o nosso povo uma quantia em dinheiro depositado lá por mim. Eu me lembro que Lúcio Philippo frequentemente contava esses fatos no Senado, realçando que quase todos concordam que ele que ocupa o trono hoje nem por nascimento, nem por espírito é como um rei (neque genere neque animo régio esse)18. Pelo outro lado, dizem que

não existe testamento, que o povo romano não deve se mostrar tão ansioso por cercar todos os reinos; que nossos cidadãos estão propensos a deixar Roma e emigrar para aquele país, atraídos pela fertilidade da terra e pela abundância de todos os tipos de suprimentos (agrorum bonitatem et omnium rerum copiam). Essa questão tão importante pode assim ser decidia por Rullo com seus colegas e decúnviros, e de que forma ele vai se decidir? (De Lege Agraria 2.16.41-43)

Cícero cita o já mencionado testamento, redigido alguns anos antes, em que Ptolomeu decretava o povo romano como herdeiro do Egito. Cícero deixa claro que o rei seguinte não tinha legitimidade, portanto já se podia considerar o Egito propriedade de Roma (mesmo que ainda existisse um rei no comando). Portanto, tornando-se terra pública, ele questiona se poderia um reino assim tão rico ser negociado por decúnviros. Dessa forma, demonstra sua preocupação sobre o que aconteceria se poucos homens se responsabilizassem pelo seu controle, deixando claro que o Egito era um dos objetivos dos decúnviros ao estabelecerem a medida.

O trecho acima demonstra que na sua concepção, a atratividade do Egito também era alvo de preocupação, pois seu “inchaço” poderia torná-lo mais dinâmico. Ou seja, o aumento da multidão era motivo de atenção. Era algo também que podia alterar a distribuição de terra, o que não interessava a Roma. Cícero declara que ele mesmo gostaria de fazer uma viagem ao Egito, algo que não chegou a realizar: “Eu estou há muito tempo ansioso de fazer uma visita a Alexandria e ao resto do Egito (Alexandream reliquamque Aegyptum), e também para fugir daqui, onde as pessoas estão cansadas de me ver, e só voltar quando elas sentirem um pouco a minha falta. (Epistulae ad Atticum 2.5.1.)”. Empereur (1998, p. 12-13) acredita que a concepção de Cícero ilustra o surgimento de uma obsessão por parte dos líderes romanos pela ameaça representada por Alexandria.

Cícero faz referência ao testamento talvez com o objetivo de justificar e legitimar a conquista que estava sendo arquitetada. Como homem público e de influência no poder romano, seu relato é ilustrativo como a expressão de uma parcela significativa da elite romana. Em seguida, o autor demonstra novamente a atratividade do Egito aos romanos, e sua produtividade. Aqui deixa claro, que apesar do testamento, o reino ainda não era de Roma, embora isso fosse apenas uma questão de tempo, como o próprio testamento confirmava:

Pois cada alternativa é de tamanha importância que você não deve de forma alguma deixar o caminho para ele ou apoiar sua decisão. Se Rullo desejar ser amigo do povo, ele vai conceder o reino ao povo romano. E também, pela virtude de sua lei, vai vender Alexandria, vai vender o Egito, e nós vamos descobrir que ele é o juiz, o árbitro, o dono de uma cidade riquíssima e da terra mais bonita (urbis copiosissimae pulcherrimorumque agrorum), em resumo, o rei do país mais próspero (opulentissimi regni). Mas ele não vai tomar tudo para si, ele não vai ser avarento: ele vai decidir que Alexandria é do rei, que não é do povo romano. (De Lege Agraria 2.2.16.43)

Cícero considerava a possível tomada de Alexandria e do Egito como um prêmio a todos os romanos e justificava a riqueza como o principal motivo de interesse no Egito. Na sequência, Cícero continua reforçando o argumento, de que os decúnviros não poderiam decidir sobre isso, pois se tratava de um assunto de estado, e caso o Egito fosse incorporado, deveria ser abertamente. Usa o exemplo do consulado de 65, ano em que Crasso tentou tornar o Egito tributário e não conseguiu, mas ao menos fez isso de forma aberta e sob o conhecimento de todos:

Em primeiro lugar, por que há dez na comissão para decidir sobre a herança do povo romano, quando vocês apontaram cem para decidir disputas sobre heranças de questões privadas? Quem vai apresentar a causa do povo romano? E onde? Quem são os decúnviros que estão propensos a doar o reino de Alexandria a Ptolomeu por nada? Mas se Alexandria fosse o objetivo, por que não seguir o mesmo rumo tomado no consulado de Lúcio Cota e Lúcio Torquato (65 a.C.)? Por que não abertamente como antes? Por que não fazer por aquele país, como então, franco e honrosamente? Ou fizeram aqueles homens, romanos, que foram incapazes de alcançar o reino por um curso direto, agora imagine que eles pudessem chegar a Alexandria através de estratégias mistas e obscuras (nunc caecis tenebris et caligine se Alexandream perventuros arbitrati sunt) (De Lege Agraria Contra Rullum 2.17.1).

Em 65, Crasso encarregou um tribuno de propor a anexação do Egito, provavelmente sua intenção era cercá-lo como uma base militar contra Pompeu. O triúnviro acreditava que abrir os tesouros e o trigo do Egito seria um forte apelo para o povo e para os Equites e assim, ele conquistaria popularidade. Mas os Optimates, liderados por Catulo foram contra a proposta, e Crasso foi derrotado (SCHULLARD, 1982, p. 106).

Sob o governo de Ptolomeu XII Aulete começou a ficar mais evidente que a perda da independência egípcia era apenas uma questão de tempo. O rei foi oficialmente coroado em 76, mas já iniciara seu reino cinco anos antes. As atitudes de Aulete desde o princípio do mandado demonstram que ele estava consciente do papel de Roma na definição dos reinos de seus antecessores imediatos e também do crescente envolvimento romano em questões egípcias. Sabia também da importância de se tomar o partido certo, pois o equilíbrio de poder em Roma estava frágil e passando por constantes mudanças (HEKSTER, 2012, p. 9-10). Provavelmente Pompeu tinha ido ao Egito em 67, e o rei Aulete se associou ao romano, ciente de que se tratava de um dos homens mais poderosos do Mediterrâneo (HEKSTER, 2012, p. 10). O rei ofereceu a Pompeu presentes e um massivo apoio militar, que este aceitou. Desde o início de seu reino Aulete ambicionava uma aliança com Roma, e para isso demonstrou considerável conhecimento da sua política, jogando em grupos diferentes quando necessário (HEKSTER, 2012, p. 11). Até que em 59 comprou o reconhecimento romano do seu trono por seis mil talentos. Para pagar a sua conta, endividou o Egito, pedindo empréstimos a Roma, resultando na elevação dos impostos no reino. Tudo isso o tornou extremamente impopular, até que em 58 foi banido do trono e buscou refúgio em Roma.

Aulete só foi restaurado ao reino em 55 pelo pró-cônsul da Síria, o general Aulo Gabínio, depois de um empréstimo romano. Enquanto isso, sua filha Berenice IV ficou no seu lugar.

Primeiramente, o Senado decretou que o rei deveria ser reinstalado pelo pró- cônsul da Cilícia, Lentulo Spinther. No entanto, Pompeu queria fazer parte da empreitada ao lado do governador, o que Cícero foi contra, pois poderia assim estabelecer uma base no Egito. O Senado também se opôs, e oportunamente, Catão divulgou (ou inventou) um oráculo dizendo que a expedição representava um mau presságio, reforçando a oposição de todos.

Nas Cartas a Ático (59 a.C), Cícero menciona a motivação de Pompeu em resolver a situação do rei, independente dos presságios divulgados (Epistularum Ad

Atticum II.16.2.7). Contudo, depois de toda a oposição do Senado, Pompeu acatou as ordens e abandonou completamente as negociações. O caso ficou parado em virtude do oráculo (57 a.C). Cícero aconselhou Lentulo a persistir no seu plano de ir substituindo Pompeu, lhe garantindo que quando o rei percebesse que sua restauração por Pompeu seria impraticável, apoiaria Lentulo, pois não teria outra escolha e aprovaria a medida (Epistularum Ad Familiares I.vb.1-2). Nas Cartas a Lentulo Spinther, Cícero aconselha o pró-consul sobre como proceder diante de um Senado ferozmente contra o plano, caso decidisse restaurar o rei ao trono:

Como não existe nenhum decreto do Senado que tenha tirado de suas mãos a restauração do trono do rei de Alexandria, a resolução que foi redigida, e, você sabe que foi vetada, contra a restauração do rei por quem quer que fosse, deve ser considerada como uma ebulição de raiva de alguns homens (magis iratorum hominum studium), mais do que uma posição firme do Senado, e sua autoridade deve ser medida de acordo. Nesse caso você, que tem controle da Cilícia e Chipre, está na posição de julgar o que pode atingir e obter. E se as circunstâncias forem favoráveis de te dar a oportunidade de tomar (tenere possis) Alexandria e o Egito, sua honra e a do império serão preservadas se você proceder a Alexandria com uma força naval e militar, depois de fixar o rei em Ptolemais ou qualquer outro lugar para que quando você tiver pacificado e cercado aquela cidade, Ptolomeu possa retomar o seu reino, para que fique claro que ele foi reinstalado pelo seu apoio, como o Senado originalmente havia decidido, e que ele será reinstalado sem uma multidão19 (sine multitudine reducatur) como era

a intenção de acordo com o partido religioso da Sibila.

Mas Pompeu e eu aprovamos essa decisão com a justificativa de que percebemos que sua política será julgada de acordo com os resultados. Se tudo sair como desejamos e rezamos, haverá consenso universal de

que julgou bem e com coragem, mas se houver qualquer obstáculo, as mesmas pessoas vão dizer que agiu com avareza e imprudência. Então não é tão fácil para nós julgar como deve agir, pois é você que tem o Egito diante dos seus olhos (cuius prope in conspectu Aegyptus est). O que nós sentimos é isso, que se achar satisfatório, você pode tomar posse daquele reino e não deve hesitar em fazer isso, mas se há alguma dúvida sobre isso, não deve tentar. Sobre isso eu posso te garantir, que se realizar a empreitada para sua própria satisfação, será aplaudido antes da sua volta por muitos, e depois de sua volta por todos, mas eu posso entender que qualquer acontecimento inesperado vai ser encarado como perigo (periculosam), pela decisão contrária do Senado e da questão religiosa. Mas pela minha parte, enquanto eu te pressiono a realizar o que não pode deixar de te trazer glória (laudem), eu te aviso sobre a possibilidade de resultar em conflito (dimicatione deterreo), e eu volto para o que eu falei no início da carta, que homens vão basear o julgamento de toda a sua empreitada não tanto na sua política, mas no resultado dela.

Mas se essa maneira de proceder te parece arriscada (periculosa), outra possibilidade te é apresentada, que se o rei continuar fiel aos seus amigos que lhe emprestaram dinheiro na sua província e esfera de comando, você deve ampará-lo com tropas e suprimentos, sabendo que a natureza e posição geográfica (naturam et regionem) da província te permitem tanto assegurar o seu retorno lhe prestando assistência, ou impedir por ignorá-lo. Então o cálculo da situação (In hac ratione quid res), em que oportunidade, e que tempo, ninguém vai julgar tão facilmente como você mesmo, mas qual era nossa opinião, eu achei que eu, de todos os homens, era a pessoa adequada para te falar. (Epistularum Ad Familiares. 1.7.4-5)

Para Cícero a questão religiosa era o motivo usado pelo Senado para a proibição da ida ao Egito, o que ele considerava uma tolice. O trecho demonstra o controle romano sobre o reino desde a expulsão do monarca, e a ansiedade representada pela oportunidade de restaurar o rei ao trono sob amparo romano. Cícero enfatiza que mesmo que a monarquia fosse restabelecida, teria que ficar claro que era pela boa ação dos romanos. Suas palavras denotam que a situação em Alexandria não era tranqüila durante a ausência do rei. Ou seja, o autor temia pelo aumento da revolta na cidade caso o exército romano não estivesse lá presente para garantir a ordem no momento de retorno do rei. Assinala assim, certa apreensão diante das multidões, além de apontar a boa posição defensiva do Egito.

Nas Cartas ao seu irmão (56 a.C.), Cícero explica o rumo dos acontecimentos a Quinto Túlio Cícero e demonstra sua indignação pela resolução do caso ter sido tirada de Lentulo, declarando também a sua posição contra a participação de Pompeu. Cícero provavelmente temia que Pompeu pudesse tomar posse do reino caso executasse a ação. Indica assim, a cautela com relação ao poder que seria estruturado no Egito.

Com relação à questão do rei alexandrino (de Rege Alexandrino), um decreto do Senado foi passado ressaltando o seu perigo para o bem comum, de ele ser restaurado com uma multidão (cum multitudine eum reduci periculosum reipublicae videri). E com relação ao que foi discutido no Senado - sobre se o rei devia ser restaurado por Pompeu ou por Lentulo - parecia que Lentulo estava predominando nessa questão. Nesse momento eu me coloquei tanto a serviço de Lentulo, mas sem desagradar Pompeu, mas seu caso foi enfraquecido pela obstrução dos detratores de Lentulo. Então seguiram dias em que o Senado não pôde se encontrar. O que vai ser decidido pelos tribunos eu não posso adivinhar, mas suspeito que Canínio vai executar seu plano com violência. Eu não posso atender aos desejos de Pompeu nessa questão; mas todos vêem o que seus amigos querem; e aqueles que estão financiando o rei não fazem segredo da grande quantidade de dinheiro que estão empregando para brigar contra Lentulo. É um grande motivo de ressentimento para mim terem tirado o caso das mãos de Lentulo e não é convincente para mim os motivos pelos quais fizeram isso. (Epistularum Ad Quintum Fratrem 2.2.1-3)

Nota-se em Cícero a expectativa com relação à tomada de Alexandria, algo que segundo ele, todos os romanos queriam. Porém o autor demonstra que as negociações da cidade já eram responsabilidade romana, e teria que ficar claro aos alexandrinos que a monarquia só seria restaurada pela boa ação daqueles.

Na mesma época, a anexação de Chipre pelo Senado também enfureceu os alexandrinos (HUZAR, 1988, p. 347). Ptolomeu Aulete tinha concedido a ilha a Roma, mas o local ainda não havia sido formalmente anexado, e estava sendo governado pelo irmão de Ptolomeu. Enquanto César estava na Gália, deixou Clódio no comando da cidade e este deu ordens a Catão, para tomar Chipre e remover o rei, que cometeu suicídio em sua chegada. Cícero condena Clódio pela atitude que resultou na morte do monarca, pelo ato ter colocado em risco as boas relações até então estabelecidas com o Egito (De Domo Sua 8.20.5). Nesse discurso, Cícero demonstra certo respeito pelo reino e um cuidado para não arruinar as relações amistosas com os Ptolomeus.

No Pro Caelio, Cícero detalha sobre a embaixada de cem alexandrinos que foi a Roma protestar contra o retorno de Aulete e acabou massacrada. Os assassinatos resultantes desse massacre foram extremamente condenados por ele (De Haruspicum

Responsis 16.34.11 e Pro Caelio 9.23.10). A situação ocorreu quando Pompeu estava tentando restaurar o rei, mas alguns alexandrinos liderados por Dio, um importante estudioso da cidade, se dirigiram ao Senado para justificar a sua expulsão do reino. Os

alexandrinos foram derrotados e mortos por ordens de Pompeu, e Caelio20 era acusado de envolvimento no massacre. Cícero pronuncia nesse discurso sua defesa a Caelio, visto como uma inocente ferramenta de Ptolomeu e Pompeu (Pro Caelio 10.23-24). Cícero retrata a morte de Dio como uma lástima, por ser um homem tão devoto da educação e dos princípios da conduta humana (qui cum doctrinae studio atque

humanitatis) (Pro Caelio 10.24.11). No De Haruspicum Responsis, Cícero fala dos atos brutais cometidos contra os enviados alexandrinos. O autor considerava o ocorrido um erro dos romanos, “um ato vergonhoso aos olhos dos deuses imortais” (quod non minus

quam de Alexandrinis indignum dis immortalibus esse visum certo scio) (De

Haruspicum Responsis 16.34.11).

O plano da restauração de Aulete só foi executado posteriormente por Gabínio, que recebeu dez mil talentos e o colocou de volta no trono. A maior parte da soma emprestada ao rei foi concedida por C. Rabírio Póstumo, um publicano, usurário e