Estas são as peças que, em conjunto, integram o dispositivo cênico no qual se institui o Universo Cênico. Há possibilidades infinitas de ampliação e aprofundamento em cada uma destas peças, num movimento vertical tanto para cima quanto para baixo – como quem sai dos átomos e se desloca em velocidade em direção às galáxias que constituem o universo, e vice-versa. Entretanto, o olhar restritivo proposto por Wehbi nos ajuda a ter um panorama mais amplo e, simultaneamente, específico de cada parte e de como esta interfere (de forma não combinatória) no processo. Possibilita, por exemplo, que um diretor se debruce sobre uma obra que se inicia e gere alguns planos para estas peças aqui descritas antes de o processo se iniciar, não na tentativa de capturá-lo em algo anterior, mas sim de gerar diálogo com os acidentes, transformações e diversidades que ocorrem entre o que se espera/planeja, e o que a obra é/vai se tornar.
Isto se dá, em especial, pela divisão que atravessa boa parte das categorias, e que tem início na percepção que Wehbi empresta de Castelucci frente à matéria: real x ficcional. Ao revelar a materialidade das coisas, Wehbi debruça-se também sobre a ficcionalização, a metáfora e a representação, e o embate combinatório das duas coisas na obra. O que acontece é que, ainda que na estrutura morfológica apresentada anteriormente, a Realidade e a Ficção (ou Realidade Primária e Realidade Secundária) sejam analisadas separadamente em alguns dos verbetes, ambas são percebidas pelo espectador de forma simultânea: ao assistir um espetáculo, tem-se a vista toda a sorte de elementos, sua própria materialidade, e simultaneamente os signos representativos aplicados pela equipe de criação por sobre a matéria. Este dado, inclusive, contribui para a dinâmica concomitante dos espaços potenciais em atrito com a realidade, e o entendimento de que mesmo isso é parte do dispositivo cênico pode contribuir para a gestação do Universo Cênico e sua manutenção.
Este embate entre Realidade e Ficção, presente no teatro de modo geral e pensado esteticamente nas obras de Wehbi, é parte fundamental do Universo Cênico, e creio eu que, ainda que não seja de forma consciente até este momento, está presente também no meu trabalho. Ao reconhecer a unidade
88 sistêmica de meus espetáculos, o público sugere um olhar que transpassa a obra e atinge suas partes: elas tornam-se algo único, se conectam e se revelam, fazem funcionar. É um ponto de vista que se dispõe sobre as coisas em si, de forma semelhante à materialidade de Castelucci a qual Wehbi se debruça, e isso talvez também seja o motivo de espectadores falarem sobre a plasticidade do meu trabalho, o cuidado com os detalhes.
Não é incomum, em espetáculos que dirijo, atritar cenas extremamente imersivas, que tenham grande poder de jogo, com quebras e aberturas para o público, e em seguida voltar a afundá-los na obra. Este jogo de aproximação e afastamento pode dar-se inclusive em microações, tons e movimentos que não parecem orgânicos, saídas inesperadas do ritmo, elementos estranhos ao conjunto proposto... talvez, por um tempo, isto fosse apenas uma espécie de estilismo, um simples jogar com as formas para produzir efeitos e capturar a percepção do expectador. Entretanto, nos últimos tempos, passei a investigar estas possibilidades como elemento estético: lembrar o espectador que o que ele vê é, antes de tudo, teatro.
Em O Acidente, espetáculo da Falsa Cia. dirigido por mim em 2018 em Uberlândia/MG, utilizo esta ideia de revelar o teatro nas microações justamente pela temática ampla da montagem. Reconheci no texto de Bosco Brasil questões a respeito da imagem que temos de nós mesmos e dos outros, e de como inventamos a nós e aos outros – e a própria realidade. Apoiado nessa perspectiva, me debrucei sobre uma encenação e interpretação que, em primeira instância, soa realista, mas sempre com certa nota errada, uma pequena dissonância perceptível, que vai aumentando até tomar o espetáculo como um todo. Conforme o espetáculo avança, os jogos cênicos vão aumentando, tornando a peça cada vez mais estilizada, cada vez menos realista, até manter-se apenas o tom da interpretação como uma coluna vertebral móvel. Isso tudo, cercado por uma palheta de cores restrita e uma estrutura sonora apoiada nos elementos textuais e numa escolha temporal – sons automotivos e músicas dos anos 90. Assim, constitui-se o Universo Cênico do espetáculo, que gira os motores quando os intérpretes Thiago Di Guerra e Juliana Nazar encontram-se com os espectadores participantes.
90 A escolha por encerrar o segundo capítulo abordando um espetáculo dirigido por mim permite que adentremos, por fim, o momento prévio à existência do Universo Cênico. Já que o Universo Cênico se constitui quando o ator age na presença dos espectadores dentro de um dispositivo criado pelas partes anteriormente discutidas na morfologia da cena, como se dá a criação deste dispositivo? Como se montam as partes numa coesão única que seria a própria obra? Este é, claramente, o momento do processo criativo, anterior à presença do espectador, o qual jamais terá dimensão completa do que levou à obra.
É por esses motivos que começo a me afastar da obra de Emílio Garcia Wehbi e dou início à análise de um de meus processos criativos. Não havendo a possibilidade de análise de um processo criativo de Wehbi durante esta pesquisa, e também por que este texto se dispõe a olhar para a obra do diretor argentino buscando uma reflexão sobre o meu próprio fazer, acredito que seja um excelente momento para mudar um pouco o ponto de vista e lançar mão de uma descrição de um processo criativo próprio. A obra de Wehbi segue sendo parte das considerações, mas agora divide espaço também com meu próprio trabalho, em um esforço de análise e reflexão sobre meu fazer que é característico da criação desta pesquisa – afinal, não era exatamente sobre as palavras usadas para descrever meu trabalho que me debrucei antes de dar início à este material?
A partir daqui, desbravaremos a criação deste dispositivo criativo que virá a tomar forma no momento da cena, transportando o espectador para um universo outro, e também abordaremos o papel do diretor dentro desta construção.