Contrapondo-se a psicologia social psicológica desenvolvida nos Estados Unidos – que se organiza como uma ciência natural e empírica, com forte influência do beheviorismo e centrada na análise do indivíduo – à psicologia social sociológica – que surge primeiro nos Estados Unidos e depois na Europa –, preocupamo-nos em dar relevo às questões de estrutura social por meio de estudos de temas como as relações grupais, a identidade social e a influência social. Destacam-se entre os seus teóricos, especificamente quanto à psicologia social sociológica europeia, autores como Serge Moscovici e Henri Tajfel (FERREIRA, 2011).
Tajfel propõe uma teoria da identidade social, na qual defende uma dimensão social do comportamento individual e grupal, afirmando que o indivíduo é formado pelo meio social e pela cultura. Para ele, “as relações intergrupais estão intimamente relacionadas a processos de identificação grupal e de comparação social” (FERREIRA, 2011, p. 25). Quanto à Moscovici, além dos estudos no campo das representações sociais, também se dedicou ao tema da influência social, introduzindo o conceito de influência das minorias22.
No que se refere ao tema da identidade, especificamente, concordamos com Sá (2009), quando afirma que na atualidade é a obra A identidade em psicologia social: dos processos
identitários às representações sociais de Jean-Claude Deschamps e Pascal Moliner que traz
uma circunscrição ampla e detalhada do tema da identidade nesse campo específico do saber. Por isso, esse livro será nossa principal referência na discussão que se segue sobre o tema da identidade na perspectiva da psicologia social.
No entanto, antes de apresentarmos uma noção de identidade, três considerações precisam ser feitas para um melhor entendimento dessa temática no contexto da psicologia social.
Em primeiro lugar, é necessário destacar que, conforme Sá (2009, p. 9), “a noção de identidade ocupa um lugar central na psicologia social, porque se insere numa das preocupações principais da disciplina, qual seja, a relação entre o individual e o coletivo”.
21 Para aprofundar o estudo das oito fases de desenvolvimento que Erickon propõem, ler ERIKSON, E. H.
Infância e Sociedade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1987.
Dito isso, é preciso enfatizar que, mesmo existindo uma multiplicidade de significações sobre o tema, uma invariante comum a todas elas, conforme nos orienta o autor citado acima, refere-se ao postulado de uma dicotomia e, ao mesmo tempo, complementaridade entre as identidades pessoal e coletiva. Afora isso, em todas as leituras realizadas sobre a temática da identidade na perspectiva da psicologia social, a questão da fluidez, da dinâmica e da importância do outro aparecem como fundamento para o sentimento de identidade.
Em segundo lugar, o questionamento feito por Deschamps e Moliner (2009) sobre a natureza das cognições, nas quais o sentimento de identidade se apoia, é imprescindível para a compreensão dessa temática na perspectiva da psicologia social.
Será que se trata de simples reflexos do mundo, ou de realidades subjetivas? Veremos então que a noção de representação permite trazer respostas a esta questão, sugerindo a existência de estruturas cognitivas relativamente estáveis, subjacentes ao sentimento de identidade, ao mesmo tempo em que elas o cristalizam. [...] em outros termos esta obra dá lugar essencial às representações na problemática da identidade (DESCHAMPS; MOLINER, 2009, p. 15).
Embora os autores também discutam as noções de representações coletivas e representações do social, neste capítulo, como seu título já aponta, o enfoque será a dinâmica entre o sentimento de identidade e as representações sociais, partindo do pressuposto de que vários processos, inclusive o de representação social, podem ajudar a explicar e a entender a identidade.
Por fim, em terceiro lugar, embora seja recorrente entre os autores da psicologia social a utilização da expressão identidade social para se referir a uma identidade mais ou menos comum compartilhada por um grupo, acreditamos ser mais adequado o uso da expressão identidade coletiva, pois entendemos que a identidade social pode englobar também a identidade pessoal, visto que essa última só pode ser forjada no contexto social e, por isso, também é identidade social. Dizendo de outro modo, a identidade sempre será um processo de construção social (identidade social), que podemos subdividi-la em identidade social coletiva e identidade social pessoal. Por isso, a expressão identidade coletiva será utilizada adiante no texto.
A identidade coletiva e a identidade pessoal, ou, mais especificamente, a relação dicotômica e ao mesmo tempo de complementaridade entre elas, serve de ponto de partida para a compreensão de uma noção de identidade. Segundo Dechamps e Moliner (2009), a identidade coletiva refere-se ao sentimento de semelhança com outros, e a identidade pessoal refere-se ao sentimento de diferença em relação a esses mesmos outros. Para esses autores, a
indiferenciação a um certo nível (identidade coletiva) e as diferenciações (a identidade pessoal) são concebidas como dois polos em relação, entre os quais oscilam sem cessar os comportamentos. Por isso, podemos dizer que a identidade, na psicologia social, é um “fenômeno subjetivo e dinâmico resultante de uma dupla constatação de semelhança
[identidade coletiva] e de diferenças [identidade pessoal] entre si mesmo, os outros e alguns
outros” (DESCHAMPS; MOLINER, 2009, p. 14, grifos nosso). A Figura 3 apresenta a relação entre identidade coletiva e pessoal.
Figura 3 – A relação entre identidade coletiva e pessoal
Fonte: Elaborado pela autora com base em Deschamps e Moliner (2009).
Em resumo, em um processo dinâmico e fluido, ao mesmo tempo em que me aproximo do(s) outro(s) – sou semelhante a ele(s) – também me diferencio desse(s) mesmo(s) outro(s) – sou singular.
Com base na noção de identidade até aqui discutida, ainda é preciso aprofundar a discussão sobre a relação entre a temática da identidade e as representações sociais. Contudo, retomaremos essa questão no último subitem deste capítulo (da noção de identidade às representações sociais), visto que agora nos deteremos no tema da identidade profissional e da identidade profissional docente – discussão necessária neste estudo devido à categoria identitária do grupo pesquisado, ou seja, o grupo profissional professores.
Relação dicotômica/ complementar