DANS L’AFFAIRE :
III. EN CE QUI CONCERNE L’AFFAIRE PROPREMENT DITE 1. Introduction
Para discutir o tema da identidade profissional, nos apoiamos principalmente nas considerações do sociólogo francês Claude Dubar – que propõe uma teoria sociológica da identidade, com ênfase na construção das identidades sociais (coletivas) e profissionais – articulando suas ideias com as de Santos (2011) e Blin (1997).
A escolha específica por Dubar se justifica, em primeiro lugar, pela noção de identidade que defende estar em consonância com noção de identidade na qual se apoia este estudo – a da psicologia social; em segundo lugar, pela importância que dá à formação na relação com o trabalho/emprego para a construção das identidades profissionais: “a formação se tornou uma componente cada vez mais valorizada [...]. Se o emprego é cada vez mais fundamental para os processos identitários, a formação está ligada a ele de maneira cada vez mais estreita” (DUBAR, 2005, p. 146), e no contexto deste estudo, a formação ocupa um lugar central.
Adiante, dissertaremos sobre a teoria sociológica da identidade proposta por Dubar e, para isso, esclareceremos primeiramente o conceito de socialização que o autor defende. Em seguida, discutiremos a questão da identidade profissional como dimensão da identidade coletiva, situando o conceito de profissão que acreditamos adequado a este estudo.
4.2.1. A teoria sociológica da identidade segundo Claude Dubar
Para entender o que Dubar (2005) propõe como identidade profissional é essencial compreender primeiramente o lugar significativo que o conceito de socialização ocupa em sua teoria, visto que, para o autor, a identidade é produto de sucessivas socializações. Mas o que definiria o processo de socialização? Ao longo da história das ciências sociais, o termo socialização foi definido de diversas maneiras: “inculcação das crianças, doutrinamento dos indivíduos, imposição das normas sociais, coerção exercidas por poderes tão ameaçadores quanto anônimos” (DUBAR, 2005, p. XXVI).
Devido à polissemia do termo, Dubar (2005) apresenta algumas definições do processo de socialização a partir de diferentes perspectivas: da psicologia genética (Piaget), para a qual a socialização é definida como um processo descontínuo de construção individual e coletivo de condutas sociais, que inclui complementariamente os aspectos cognitivos, afetivos e expressivos; da antropologia cultural (Benedict, Kardiner, Linton), para a qual a socialização é definida como um processo de incorporação progressiva das características
gerais da cultura de seu grupo de origem; da antropologia funcionalista (Parsons), para a qual a socialização é o processo por meio do qual todo indivíduo se torna portador de seu sistema social e, por isso, torna-se semelhante aos outros membros de seu grupo; do conceito de
habitus (Bourdieu), para o qual a socialização é uma incorporação duradoura dos modos de
sentir, de pensar e de agir; da construção social da realidade (Habermas, Mead, Weber, etc.), para a qual a socialização não é apenas um processo de interiorização do mundo, mas de interação do sujeito como o meio.
Consoante a essa última definição do processo de socialização – enquanto construção social da realidade – Dubar (2005) propõe uma teoria sociológica da identidade. Para ele, a identidade é o que a pessoa tem de mais valioso e sua perda suscita alienação, sofrimento angústia e morte. “A identidade nada mais é que o resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições” (DUBAR, 2005, p. 136).
Para que ocorra a construção da(s) identidade(s), dois processos heterogêneos são elencados por Dubar (2005): a atribuição da identidade (identidade para o outro, também chamada de identidade virtual), pelas instituições ou pelos indivíduos – ou seja, o outro que me define; a incorporação ativa da identidade anteriormente atribuída (identidade para si, também chamada de identidade real), pelo próprio indivíduo.
Faz-se necessário destacar que os processos de atribuição e de incorporação não são necessariamente coincidentes, ou seja, existe a possibilidade de um desacordo entre a identidade atribuída e a identidade incorporada. Quando isso ocorre, Dubar (2005) afirma que são utilizadas estratégias identitárias que visam à redução da distância entre as identidades virtual e real. Essas estratégias identitárias podem assumir duas formas: uma forma objetiva, também chamada de transação externa, que objetiva ajustar a identidade para si à identidade para o outro; uma forma subjetiva, também chamada de transação interna, que objetiva salvaguardar parte das identidades herdadas pelo indivíduo ao mesmo tempo em que desenvolve o desejo de construir novas identidades no futuro.
Uma última questão quanto aos processos de atribuição e de incorporação diz respeito ao mecanismo de tipificação que lhes são comuns. A tipificação23 nada mais é do que os “tipos identitários” – no campo escolar, por exemplo, quanto ao aluno, podemos tipificá-lo
como bom aluno, mau aluno, etc. – que servem para identificar os outros ou a si próprio (DUBAR, 2005; ERIKSON, 1976).
Ainda quanto à identidade, Dubar (2005, p. 156) destaca outros dois processos necessários para a sua construção: o biográfico e o relacional. O primeiro resulta da dualidade entre a identidade para o outro conferida e da identidade para si construída, bem como da identidade herdada e a identidade visada. O segundo refere-se “às identidades associadas aos saberes, competências e imagens de si propostos e expressos pelos outros nos sistemas de ação”.
Em resumo, podemos dizer que, para Dubar (2005), a identidade é um produto de contínuas socializações, ao mesmo tempo marcada pela dualidade do processo biográfico, que resulta na construção de uma identidade para si, e do processo relacional, que resulta na construção de uma identidade para o outro. Deste modo, podemos concluir que, segundo o autor, a identidade coletiva não é algo que pode ser “transmitida” por uma geração à outra, mas cada geração a constrói, com base no processo de tipificação (ou categorias) e nas posições que herdaram das gerações precedentes, bem como também através das estratégias identitárias que desenvolvem nas instituições pelas quais os indivíduos passam.
4.2.2 A identidade profissional como uma dimensão da identidade coletiva
O subtítulo desta seção já destaca a afirmativa de Dubar (2005) em relação à identidade profissional como uma dimensão da identidade coletiva. No entanto, antes de adentrarmos nessa questão, é preciso primeiramente esclarecer o que o autor defende como sendo uma profissão, pois esse conceito ocupa lugar importante em sua teoria da identidade profissional e, além disso, é necessário também o seu esclarecimento devido à falta de consenso entres os autores sobre o que é uma profissão.
Desde já, enfatizamos que o propósito não será o de apresentar uma longa sistematização de como diversos autores – funcionalistas ou interacionistas – conceituam ou percebem o fenômeno profissão24. Mas, o que propomos é apresentar a concepção de profissão, com base na teoria sociológica de construção da identidade defendida por Dubar e o porquê .
Para Santos (2011, p. 31), estudar o termo profissão envolve se deparar com dificuldades conceituais e ambiguidades terminológicas, bem como na dificuldade de precisar
com exatidão um conceito de profissão com todas as suas características e atributos funcionais: “para alguns autores, a profissão é um meio de controle das dificuldades inerentes à interação social, enquanto para outros, trata-se de uma espécie de corporativismo”. Outros autores ainda, como Durkheim, entendem a profissão como uma atividade laboral realizada por um conjunto de atores específicos que deve adaptar-se e dar respostas às necessidades econômicas e sociais das sociedades modernas.
No entanto, a definição de profissão que melhor dá conta dos aspectos formais e informais relacionados a ela, é apresentada por Dubar e Tripier (apud SANTOS, 2011, p. 35), visto que não pretende apresentar um perfil-tipo de profissão, mas analisar os elementos que a constituem, “que se jogam nos seus aspectos exógenos relacionados com a análise das teias de negociação, jogos sociais e questões de estatuto e poder que se apresentam como essenciais na abordagem da sociologia das profissões”.
Diante disso, os autores citados apresentam um conjunto de características pelas quais as profissões não podem ser entendidas: não há uma profissão “separada” – para conhecer uma profissão é preciso se colocar no sistema profissional no qual ela pertence, pois cada grupo profissional conhece os seus problemas e as questões como estatuto social, competição, etc.; não há uma profissão “unificada” – o que existem são segmentos profissionais, que de acordo com os vários contextos pode assumir contornos diferenciados; não há uma profissão “estabelecida” – o que existe são processos de (des)estruturação profissionais, pois as formas culturais, jurídicas e as configurações políticas, por exemplo, são variáveis que interferem na dinâmica dos processos de estruturação de uma profissão; não há profissão “objetiva” – o que existem são relações entre instituições de formação, de gestão, de trabalho e de trajetórias biográficas individuais na qual se (des)constroem as identidade profissionais (DUBAR; TRIPIER, 1998 apud SANTOS, 2011).
Com base nisso, podemos concluir que não há uma concepção ou modelo único de profissão. Concordamos com Santos (2011) quando afirma que as quatro premissas acima colocadas permitem uma aproximação dos indicadores que podem identificar uma profissão. Em resumo, pode-se dizer que esse conceito de profissão permite a compreensão de um grupo profissional no seu contexto histórico, cultural, econômico e social.
A partir desse entendimento do que é uma profissão, refletiremos sobre a identidade profissional, segundo Dubar (2005), como uma dimensão da identidade coletiva. Para esse autor, uma criança nasce em um mundo preestabelecido no qual herda várias identidades: sexual, de classe, étnica, entre outras. Desse modo, podemos dizer que as primeiras identidades da criança são construídas por meio do processo de socialização na relação com
seus responsáveis mais próximos. Todavia, é a entrada na escola onde a criança vivenciará, com mais ênfase, por meio da relação com os colegas e com os professores, a construção de uma identidade coletiva.
Quanto à construção da identidade coletiva profissional especificamente, Dubar (2005) afirma que é a saída da escola e o confronto com o mercado de trabalho que constituem, na atualidade, o momento mais importante na construção de uma identidade autônoma. Para o autor, é o conjunto das escolhas de orientação escolar que representa uma antecipação importante do status social do futuro. “A entrada em uma “especialidade” disciplinar ou técnica constitui um ato significativo da identidade virtual. Mas, hoje em dia, é na confrontação com o mercado de trabalho que certamente, se situa a implicação identitária mais importante dos indivíduos da geração da crise” (DUBAR, 2005, p. 148).
No entendimento de Blin (1997), é por meio do sistema de ação profissional, que diz respeito a um referencial comum do campo profissional, ou seja, das representações compartilhadas no/pelo grupo profissional, das informações e dos saberes da profissão, que é possível orientar a atividade profissional e garantir o processo de construção das identidades profissionais.
A respeito desse referencial comum do sistema de ação profissional, Blin (1997) destaca três características: a existência de uma linguagem específica a situações concretas do campo profissional e que só tem sentido naquele contexto; o referencial comum que às vezes não coincide com o referencial de cada indivíduo, ou seja, havendo dissonância entre a identidade atribuída, o referencial comum servirá de modelo de conduta profissional, funcionando como um guia para conduzir a conduta individual; o referencial comum diz respeito ao conjunto de regras oficiais, visto que integra o conjunto de conhecimentos e procedimentos coletivos adquiridos ao longo da experiência.
Mediante isso, Santos (2011) afirma que o reconhecimento social se dá na comunicação profissional, nos contextos de intervenção, pelos atores e pelos objetos da prática social. Isso significa dizer que uma parte importante da identidade profissional é construída pela experiência, “isto é, no exercício concreto da prática profissional em interação permanente com os outros profissionais e forjada na diversidade de acordos e desacordos entre a identidade virtual [conferida pelo outro] e a identidade real [interiorizada pelo
sujeito]” (SANTOS, 2011, p. 55, grifos nossos).
Por esse motivo, defendemos que a formação continuada didático-pedagógica sistemática, especificamente aquelas concretizadas no coletivo servem como espaço para (re)construção de identidades profissionais, visto que possibilitam a interação com os pares.
Uma outra questão que destacamos como importante à (re)construção da identidade profissional está na existência de um saber específico que sirva de referência ao grupo profissional. De acordo com Blin (1997), é preciso a existência de um conjunto estruturado de competências para o exercício de uma atividade. No caso da profissão docente, defendemos a existência dos saberes pedagógicos como essenciais ao desenvolvimento da identidade profissional.
Por fim, corroboramos com Santos (2011) quando diz que a construção da identidade profissional é um processo complexo, socialmente construído e que é operatoriamente inacabado, fundamentando-se no reconhecimento e na visibilidade social, que permite a apropriação da identidade dentro de um mesmo grupo profissional, bem como daqueles outros grupos profissionais que dele se distingue.
4.3 IDENTIDADE PROFISSIONAL DOCENTE E O CONTEXTO DA DOCÊNCIA