PARTIE IV : ACTIVITE D’ATTIJARIWAFA BANK
IV.3. Évolution des indicateurs d’exploitation 1. Évolution des crédits
IV.3.4. Réseau de distribution
Como parte de complexas tramas sociais que valorizam certos conhecimentos — e produtores de conhecimentos — em detrimento de outros, estão os próprios conceitos de tecnologia e ciência, seja sua conceituação tanto de tendência mais crítica quanto aquelas oriundas do senso comum. Manifestando-se material e imaterialmente, seus processos, artefatos e redes de interações entre indivíduos e objetos, os significados destes produtos sociais não apenas descrevem de que se trata como também refletem os valores de seu meio.
Buscando um panorama do conceito de tecnologia, Álvaro Vieira Pinto elencou quatro interpretações principais para o termo "tecnologia" (VIEIRA PINTO, 2005. p. 219-225). São elas:
• A tecnologia como modo de produção, como campo de estudo, como ciência da técnica. É a habilidade do fazer, a ars technica.
• A tecnologia como mera técnica palpável, restrita a artefatos e objetos, e à manifestação material da técnica, como "ciência aplicada". É o conceito mais amplamente difundido e utilizado popularmente;
• A tecnologia como o conjunto das técnicas de que dispõe um determinado povo, sociedade, estado ou nação em um determinado período de tempo
e contexto. É a partir desse conceito que sociedades e indivíduos medem forças e competem por poder e influência econômica e militar frente aos demais;
• A tecnologia como ideologia, como processo e constructo social, constituída e constituinte da sociedade.
O segundo conceito, isto é, a tecnologia como artefato, devido à popularidade com que é empregado no dia-a-dia e sua difusão com o significado da pesquisa e da atividade científica, necessita ser posto em paralelo com o conceito de ciência.
Como a tecnologia, o conceito de ciência também não tem uma significação clara, única e bem delimitada, ainda que popularmente as pessoas façam uso do termo com uma imagem bem definida do que a palavra diz respeito. De acordo com o senso comum — não apenas da população leiga como também dos próprios cientistas —, a ciência é vista como a busca pelo conhecimento movida pela pura curiosidade intelectual, com o objetivo de racionalizar e explicar a realidade de acordo com um modelo teórico que se sustente empiricamente. Segundo esta concepção, a ciência faz uso de ferramentas tecnológicas para auxiliar suas pesquisas e, ao mesmo tempo, contribui para o desenvolvimento e contínuo aperfeiçoamento das mesmas, num processo cíclico, contínuo e linear de desenvolvimento. Assim, a tecnologia estaria mais preocupada com a solução de problemas de ordem prática, enquanto que a ciência seria o "espírito" que a move, sua motivação (STAUDENMAIER, 1985. p. 86-94).
Uma vez que é impossível separar o processo intelectual de desenvolvimento de métodos, teorias e artefatos de seu meio e dos valores culturais que os envolvem, a tecnologia não é o artefato "puro", como no primeiro conceito apresentada por Vieira Pinto — isto é, a tecnologia como modo de produção; fora da cultura os artefatos não têm significado atribuído e, portanto, não têm uso nem propósito.
Esta forma de se pensar o conhecimento e sua construção dá a entender que os processos científicos de investigação são os únicos meios válidos de se incrementar o conjunto dos conhecimentos humanos, definindo com seus próprios critérios de exatidão, rigor e fronteiras bem delimitadas o que é, o que não é e o que definitivamente não pode ser classificado e validado como ciência (STAUDENMAIER, 1985. p. 95-103; CHALMERS, 1993).
Assim, pela forma que os conhecimentos e os artefatos estão interrelacionados nas sociedades humanas, opta-se por chamar esta rede complexa no presente trabalho de tecnociência. Apesar disso, as palavras "ciência" e "tecnologia" continuam a ser empregadas de acordo com o contexto e conforme for conveniente para melhor compreensão.
Figura 4: Mulheres e homens, em abstração pictográfica. Fonte: AIGA, sem data.
De tal modo influenciada, estão presentes na produção tecnocientífica alguns dos valores da sociedade que a gera e constrói. Focada em um tipo de indivíduo geralmente imaginário tido como o padrão (figura 4) — ao menos nas sociedades ocidentais; a normatividade se define pela ausência de marcadores de diferença. "A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro" (BEAUVOIR, 1970, p. 10) —, a tecnociência acaba por mimetizar na produção, na pesquisa, e na distribuição dos artefatos e métodos por ela criados discriminações que têm como base gênero, raça e etnia, orientação sexual, diferenças geracionais e de capacidades físicas e mentais que a sociedade como um todo possui. Dessa forma, o acesso e a produção de artefatos e métodos acabam por favorecer e ser restritos a um tipo bem específico de pessoas, desconsiderando necessidades específicas e levando a uma espécie de homogeneização compulsória da população através da negligência de todos os demais.
Por serem instrumentos da dominação humana na transformação do mundo e uma característica que diferencia a espécie humana das demais, os frutos do trabalho humano que são a ciência — vista como o meio através do qual se produz o conhecimento — e a tecnologia — tida como o objetivo, a finalidade da pesquisa científica, onde ela é aplicada — em geral são tratados como possuidores de uma certa neutralidade, estando acima e sendo independentes dos valores que guiaram seu desenvolvimento até então. Esse determinismo tecnológico que enxerga as relações entre a tecnologia e a sociedade de modo unidirecional, unilateral e progressivamente constante acaba por ofuscar as discussões a respeito dos reais efeitos do uso e da produção tecnológica na sociedade, e vice-versa (BIMBER, 1994, p. 80. LUZ e ROCHA, 2011, p. 144).
A produção científica e tecnológica, envolta nessa aura redentora, leva ao cientificismo. Definido por Susan Haack (2012, p. 76) como "um tipo de atitude excessivamente entusiástica e acriticamente reverente para com a ciência", o cientificismo nada mais é que a incapacidade de enxergar a falibilidade da ciência, suas limitações e riscos por conta desta celebração. Assim, o cientificismo é um tipo, uma manifestação do determinismo tecnológico.