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No desenvolvimento dos jogos cooperativos, foi possível identificar que alguns participantes acabaram se desentendendo no jogar com determinados colegas, gerando conflitos entre si. Essas situações-problemas provocaram uma certa dificuldade na aplicação do jogo e, muitas vezes, prejudicaram o andamento de algumas ações realizadas pelo outro. Seguem os discursos dos alunos que retratam essa questão:

Aluno J: Era o Guilherme que começou a brigar (jogo “Quebra-cabeça cooperativo”).

Aluna ME: A gente tava brigando porque não tinha lugar para ficar. Não tinha espaço para montar (jogo “Quebra-cabeça cooperativo”).

Aluno A: Teve confusão no jogo. O Juscelino e o Marcos E. estavam irritando o Marcos M. (jogo “Cor”).

Aluna A: Algumas crianças não se comportaram no jogo do Max porque nem todo mundo tava ajudando a brincar (jogo “Max”).

Aluna NO: Ninguém cuidou dos bichinhos, só eu. Não os meninos não se comportaram, porque... o Kaio... ele tava brigando e tava deixando o gato comer o esquilo (jogo “Max”).

Aluno J: [...] Tem gente que atrapalhou. Foi a Amanda porque deixou o gato comer o ratinho no jogo (jogo “Max”).

Aluna NA: [...] porque o Marcos e o Fernando estavam atrapalhando (jogo “Passeio do bambolê”).

Aluna E: [...] porque o Marcos toda hora ele tava puxando o bambolê e os dois tavam puxando também (jogo “Passeio do bambolê”).

Aluna L: Teve alguma confusão, alguém empurrou a Amanda. Foi o Marcos M. que eu vi ele empurrando. Ele não pede desculpas (jogo “Passeio do bambolê”).

Aluno P: Eu achei triste. Porque... todo mundo e o Marcos M. e o Fernando empurrando todo mundo (jogo “Alfabeto vivo”).

Aluna NO: Teve gente que atrapalhou (jogo “Alfabeto vivo”).

Aluna NA: Teve gente que atrapalhou no jogo (jogo “Alfabeto vivo”). Aluno J: Todo mundo atrapalhou (jogo “Alfabeto vivo”).

Diante do exposto, é fácil perceber que essas situações provocaram um sentimento de desconforto entre os jogadores conforme mencionado na categoria anterior e podem ser corroboradas no aspecto de limitação, já que esses desentendimentos interromperam o andamento de alguns jogos, sendo que os participantes não conseguiram aproveitar o máximo do momento lúdico em virtude da ação de alguns que não estavam sabendo solucionar adequadamente algumas situações-problemas e que, muitas vezes, não pediam auxílio de alguém mais velho para fazer a mediação.

Observou-se que em um jogo, em especial, chamado “Abraço musical”, houve desentendimentos sérios, que acabaram ocasionando um ferimento em um participante e sentimentos de desgosto em vários outros jogadores, precisando ser encerrado na metade da aplicação. Logo, alguns educandos começaram a se empurrar para ficar mais perto do outro no momento do abraço coletivo. Assim, uma menina acabou sendo derrubada pelo colega e bateu o rosto na cadeira. Essa queda provocou um corte no rosto, necessitando do auxílio da pesquisadora e da professora para a limpeza e cuidados com o ferimento. Veja as porções textuais abaixo que abordam esse assunto:

Aluno G: Teve confusão. O Marcos M. tava machucando eu e o Kauan. Nós não estávamos fazendo nada. Eu tava bem ali, depois ele foi lá e machucou nós...e depois ele voltou e fez assim me apertando (jogo “Abraço musical”). Aluna L: Teve uma confusão. Todo mundo tava gritando, ela e também ele (jogo “Abraço musical”).

Aluna ME: Teve alguma confusão. O Kauan, o Guilherme e o Paulo tava pegando a blusa de frio da... Manoela. Tava levantando para o alto e rodando (jogo “Abraço musical”).

Aluno P: Nem todo mundo ajudou por causa que os meninos estavam empurrando (jogo “Abraço musical”).

Aluna NO: [...] Teve confusão, porque elas três estavam machucando ele (jogo “Abraço musical”).

Aluno M. E: Teve confusão. A Manoela, o Marcos M. e a Laura tavam empurrando (jogo “Abraço musical”).

Pelos relatos dos alunos, torna-se importante destacar que os jogadores souberam expressar pelo diálogo suas inquietações no jogo cooperativo. Entretanto, alguns não conseguiriam resolver seus incômodos pelo diálogo e utilizaram a força física. Dessa maneira, é importante oportunizar desafios para que as crianças consigam elaborar estratégias para a resolução de problemas e que haja a mediação de um adulto quando for necessário para que o

diálogo prevaleça. E isso é um dos conteúdos a serem trabalhados na educação infantil de acordo com o RCNEI (BRASIL, 2002b) e está em conformidade com os princípios das DCNEI (BRASIL, 2010). Portanto, o jogo cooperativo pode oportunizar a abordagem dessa questão.

Durante a aplicação dos jogos, também foi recorrente o aparecimento de desentendimentos nos jogos da “dança das cadeiras cooperativas” em que alguns colegas não deixavam os outros sentarem perto um do outro conforme relatado na categoria anterior e no jogo da “amarelinha cooperativa” que os jogadores pegavam a fita para não deixar o colega jogar ou trocavam-na de lugar no espaço dos números. Além do mais, apareceu no jogo “Alfabeto vivo”, aplicado no dia 03/07/2015, na sala de aula, cujo objetivo era que cada integrante pegasse uma letra do alfabeto, dançasse e, ao final, formasse uma palavra com a letra escolhida. Na hora da montagem, cada participante tentava formar o nome da figura colocada em cima das mesas. Contudo, alguns colegas empurravam os outros na hora da dança e também no instante da formação da palavra, gerando desentendimentos entre eles, como pode ser visualizado nas Figuras 29 e 30:

Figuras 29 e 30 – Momentos do jogo “Alfabeto vivo”

Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Diante dos fatos, não se pode deixar de falar que as mediações foram realizadas pela pesquisadora ou por alguns colegas. Entretanto, em determinados momentos não foi possível evitar alguns conflitos que existiram no jogo cooperativo. Logo, era importante não atrapalhar o modo como o ato de jogar estava sendo encaminhado, porque a dimensão do jogo é das crianças; os processos, as ações envolvidas e as relações estabelecidas entre o grupo também se constituem experiências delas, que podem ser lúdicas ou não. Nesse sentido, vale lembrar que o jogador é que garante e relata o aspecto lúdico ou não da atividade e não aquele que oferece e desenvolve o jogo (MUNIZ, no prelo).

Segundo Corsaro (2011), as crianças pequenas empurram, brigam, desentendem-se e até mordem, mas esses conflitos verbais e brigas fazem parte das culturas infantis. Além disso, os estudos sobre amizade na infância documentam que os conflitos aparecem com frequência nas relações de amizade. Isso significa que o conflito faz parte das interações sociais e não representa algo horrível e ruim, entretanto precisa ser resolvido e mediado para um bom relacionamento interpessoal.

É imprescindível dizer também que, na conversa após o jogo (metajogo), os educandos davam um feedback do que tinha acontecido no jogo. Acabava se trabalhando a questão da autoavaliação de ações realizadas e até mesmo a questão da autonomia. Assim, os próprios colegas aprovavam ou reprovavam algumas atitudes e a seguinte frase retrata bem esse fato de um desses participantes: “Se bater não resolve a confusão”. Em consequência disso, eles próprios davam soluções mais amenas para as situações-problemas, e o papel do mediador nesse processo é de grande relevância para uma boa condução do processo. Portanto, essas ações possibilitam o exercício de uma educação para a cultura de paz que, segundo Velasquéz (2004), objetiva a aprendizagem de se enfrentar os conflitos para solucioná-los de forma adequada e são estimulados o entendimento e a compreensão entre as pessoas.

Após os desentendimentos relatados, será mencionado o aspecto do individualismo presente nas crianças ao longo dos jogos praticados.