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5.4 Pronunciation Modeling
Os escritos d e Leonard o d a Vinci sobre p ersp ectiva encontram -se m aioritariam ente com p ilad os no seu Tratatto della Pittura (edição póstuma, c. 1550183) e d everiam
m esm o constitu ir um cap ítu lo esp ecífico d essa obra, d enom inad o Libro di Prospettiva, d ad o qu e a m atéria em causa ganhava cad a vez m ais p rotagonism o no m und o d a geom etria e fornecia à p intu ra as bases científicas ind isp ensáveis p ara a sua afirm ação com o Arte Liberal. É o p róp rio Leonard o qu e lhe faz referência, nu m a nota revelad a p or Carlo Ped retti184, votando assim ao d escréd ito a tese, d ifund id a p or
Richter e que chega até Vagnetti, d e que Leonard o teria d esistid o d e fazer o referid o “livro” ao ter conhecim ento p or interm éd io d e Luca Pacioli d e que Piero d ella Francesca ultim ava o seu De Prospectiva Pingendi.
Se assim não foi terá verificad o a p osteriori, d ecerto, na sequ ência d as suas investigações, que não consegu ira ir m ais além d o que Piero. Do que nos chegou, p elo m enos, nad a nos p erm ite tirar outra conclusão. Mesm o o contributo tid o com o m ais p ertinente qu e se relaciona com a questão d as aberrações m arginais, exp licação d o fenóm eno d a anam orfose, em articulação com a p roblem ática d a abertura d o ângu lo visual e p osicionam ento d o observad or, não é substancialm ente inovad or, tend o já sid o tratad o p or Piero. Isso é evid ente no teorem a XXX185 d o Libro Primo que
se d ed ica ao estabelecim ento d a abertu ra d o ângu lo visual, qu e Piero ad m ite p od er chegar a 90º m as cu jo valor m ais conveniente será d e 60º, e nos d esenhos corresp ond entes aos teorem as X e XI186 d o Libro Terzo do De Prospectiva Pingendi onde
183 Conform e ind icação d e Lu igi Vagneti este Trattato della pittura resulta da recolha de diversos
m anu scritos ord enad os arbitrariam ente p or iniciativa d e Francesco Melzi. Existe na BN u m exem p lar d a ed ição d e Paris: DA VIN CI, Leonard o – Trattato della pittura. Paris: Giacomo Langlois, 1651. A referid a ed ição inclu i tam bém o Della Pittura e Della Statua de L.B. Alberti. (BN B.A. 250 V).
184 PEDRETTI, Carlo – “Leonard o ‘d iscep olo d ella sp erientia’”. In AAVV – Nel segno di Masaccio.
L’invenzione della prospettiva. Org. por Filippo Camerota. Firenze: Giunti Gruppo Editoriale, 2001,
p . 167-170.
185 DELLA FRAN CESCA, Piero – De Prospectiva Pingendi. Org. por G. Nicco-Fasola. Florença: Casa
Ed itrice Le Lettere, 1984, p . 96-99.
é p ossível reconhecer, d e facto, as p rim eiras anam orfoses oblíquas, d e um a esfera e d e u m cálice [Fig. 56], respectivamente. As célebres anamorfoses de um olho e de u m a cabeça d e criança [Fig. 57] apresentadas como pioneiras por Baltrusaitis187 têm
afinal anteced entes. A qu estão essencial estará naqu ilo qu e p od erá ser classificad o com o um acto d e contrição trad u zid o no reconhecim ento d o qu anto é na realid ad e artificiosa a perspectiva artificialis face à complexidade, validada pela experiência, do fenóm eno visual estu d ad o p ela óp tica ou perspectiva naturalis. Nesse sentido, Leonard o surge no m om ento em qu e era necessário introd u zir algum a sensatez e fazer vacilar, p ositivam ente, a confiança até então inabalável na p ersp ectiva com o m eio absolu to d e cap tação fiel d a realid ad e o que, contrariam ente ao qu e se p od eria p ensar, só contribu iu p ara que d ela fizesse u m a utilização p lena na bu sca d esses m esm os objectivos p orqu e d evid a e sabiam ente controlad a.
Fig. 56 – Anam orfose oblíqu a d e u m cálice. Piero d ella Francesca
Fig. 57 – Olho e cabeça d e criança em anam orfose. Cod ice Atlantico, f. 98r
Talvez d evid o a este conjunto d e factores as suas energias não se d esgastaram d em asiad o na commensuratio, a parte da pintura que Piero identifica com a p ersp ectiva e que Leonard o p assa a cham ar d e prospettiva liniale, mas antes se concentraram na prospettiva dei colori e na prospettiva aerea que tratam, resp ectivam ente, d a d im inu ição e p erd a d a cor d os objectos d evid o ao aum ento da
d istância e d a d ilu ição (perdimento) do seu contorno pelo aumento da “espessura” do ar, send o nesse âm bito qu e m ais se fez sentir a sua originalid ad e no p lano científico. Tribu tárias d e Alberti, e reveland o aind a vestígios d e Cennini, as suas achegas neste d om ínio teórico d em arcam -se d as p reced entes no esm iu çar rigoroso e sistem ático d as razões físicas e consequ ências óp ticas inerentes à p ercep ção visual d os objectos que se reflectem , aliás, com m estria, e d e form a até então inigualável, na sua obra p ictórica. Daí d eriva, exactam ente, u m a d as características d istintivas d a sua p intu ra, o fam oso sfumato.
Em relação à p ersp ectiva linear é igu alm ente d etectável a influ ência d o De Pictura, na sua d erivação d o p rincíp io d a intersegazione della pirramide visiva, bem como no amplo d esenvolvim ento d ad o à teoria d o velo no âmbito da qual Leonardo apresenta, exp licitam ente, a variante d o vid ro (já m encionám os a su a p ossível ligação à 1ª exp eriência brunelleschiana), a p onto d a janela d e Alberti, qu e o p róp rio já ad m itia que fosse um a sup erfície d e vetro tralucente188, ser com um m ente conhecid a com o
finestra leonardesca.
Prospettiva non è altro che vedere uno sito dirieto uno vetro piano e ben’ transparēte, sulla superfitie del quale siano segniate tutte le cose che sono da esso vetro īdirieto: le quali si possono cōdurre per piramidi al pūto dell’occhio e esse piramidi si tagliano su detto vetro189.
O conceito d e finestra tem tradução literal na proposta de um perspectógrafo, conform e se p od e observar no d esenho d o Codice Atlantico – Pittore che usa il vetro per
disegnare una sfera armillare [Fig. 58] – a que, seguidamente, Dürer dará continuidade,
criand o u m a versão p ortátil m ais sofisticad a e d e grand e versatilid ad e [Fig. 59].
188 E sappiano che <quando> con sue linee circuiscono la superficie, e quando empiono di colori e' luoghi
descritti, niun'altra cosa cercarsi se non che in questa superficia si representino le forme delle cose vedute, non altrimenti che se essa fusse di vetro tralucente tale che la pirramide visiva indi trapassasse, posto una certa distanza, con certi lumi e certa posizione di centro in aere e ne' suoi luoghi altrove. In ALBERTI, L.B.
– Della Pittura. I, 12. Disponível na Web no endereço: http://www.liberliber.it/biblioteca/a/ alberti/d e_p ictu ra/htm l/d ellap it.htm
189 DA VIN CI, Leonard o – The notebooks of Leonardo da Vinci. Org. por J.P. Richter. New York: Dover
Im p orta referir, no entanto, que a escolha d e Leonard o relativam ente ao objecto não é inocente tend o a p articularid ad e d e p erm itir levantar um a vez m ais o véu sobre a estreita ligação d a p ersp ectiva linear com a cartografia e, neste caso concreto, com o 3º m étod o d e p rojecção d escrito na Geographia de Ptolomeu.
Mas, p ara Leonardo, a p ersp ectiva linear constitu i u nicam ente a p arte objectiva d a p intu ra, o lugar exacto d a sua articu lação com a ciência, cabend o às ou tras com p onentes d a p ersp ectiva, tam bém p assíveis d e u m a abord agem rigorosa enqu anto tal (qu e, aliás, não d escura), o lu gar p ara a subjectivid ad e, no fund o o esp aço p rop ício à m anifestação d o génio d o p intor.
A p ersp ectiva linear qu and o, p or d efinição, se restringe ao d elineam ento estrito do contorno d os objectos arrastand o consigo, im p licitam ente, o conceito d e linha, encontra corresp ond ência com o circumscriptio (De Pictura) e o lineamenta (De Re
Aedificatoria) albertianos e com o disegno de Piero della Francesca mas, sendo mais do
que isso, p or im p licar a observância d e um a regra geom étrica qu e p erm ite controlar a d isp osição d os corp os no esp aço trid im ensional, é globalm ente com p arável, como referim os, à prospectiva de Piero.
Fig. 58 – A finestra leonardesca.
De qualquer m od o, o p róp rio Leonard o, ao p rom over a sep aração d e águas abre a p orta ao secular conflito entre o d esenho d e contorno e o d esenho d e m ancha, qu e nos finais d o séc. XVIII e no início d a centú ria seguinte, aind a d ivid ia os p intores neoclássicos d os m ais p u ram ente rom ânticos. Com efeito, citand o Lino Cabezas, enqu anto Reynold s (1723-1792) afirm ava que un contorno firme y definido es una de las
características del gran estilo de la pintura Goya (1746-1828), no extremo oposto,
id entificava os d efensores d esse estilo com o maestros amanerados que siempre ven lyneas
y jamás cuerpos. E questionava-se, para os colocar em cheque: pero, ¿dónde encuentran líneas en la naturaleza? Yo no distingo nada más que cuerpos luminosos y cuerpos obscuros190.
A rad icalização d estas p osições acabou p or ter consequências, inclusivam ente, na sep aração forçad a e algo esquem ática entre d esenho linear, que logo se qualificou d e técnico, e d esenho artístico, com trad ução na cisão entre ensino p olitécnico e artístico.
Leonard o, ap esar d e ser exím io em qu alqu er tip o d e d esenho, acaba p or d esvalorizar o p rim eiro em coerência com os asp ectos qu e consid erava m ais im p ortantes na sua p intu ra, com o argu m ento d e qu e o traçad o d o p erfil d os objectos é p assível d e ser obtid o m ecanicam ente através d e d isp ositivos com o o velo ou o vidro o que, de algu m m od o, não d eixou d e ser tam bém u m a contribu ição p ara a criação do p reconceito face à u tilização d e ap aratos m ecânicos na p rática d a arte que, m ais d as vezes, só teve como resu ltad o m anter o secretism o d e p roced im entos.
Mucha mayor sabiduría y dificultad hay en la sombra da las pinturas que en sus perfiles. Y pruébase esto porque los perfiles pueden ser resueltos por medio de velos o vidrios planos, dispuestos entre el ojo y el cuerpo que se ha de dibujar. Mas tal procedimiento no puede ser
190 LIN O CABEZAS, G. – “Las m áqu inas d e d ibu jar. Entre el m ito d e la visión objetiva y la ciencia d e
la rep resentación”. In AAVV – Máquinas y Herramientas de Dibujo. Coord. de Juan José Gómez Molina. Mad rid : Ed iciones Cáted ra, 2002, p . 125-126.
empleado para las sombras por culpa de la naturaleza indistinta de sus límites, los cuales son generalmente confusos, tal como ya demostramos en el libro de las luces y las sombras191.
N ote-se p orém que, em bora sob o ponto d e vista d os resultad os, p ossa não haver d istinção entre u m a p ersp ectiva obtid a com estas “p róteses” e a qu e resulta d e um a constru ção m atem ática regrad a, Leonard o não as coloca no m esm o p lano, já que só a segu nd a situação p erm ite d istingu ir a verd ad eira p intura d a p rática artesanal ao p ressup or a p révia aqu isição e o d om ínio d o conhecim ento científico, fu nd ad o na geom etria e na m atem ática, su scep tível d e arm ar o p intor d e cap acid ad es esp eculativas consequ entes com a p ossibilid ad e d e fazer d a p intura um a p erfeita ciência d a rep resentação. É nesse sentid o que se p od e entender u m a d as suas p rim eiras d eclarações d o Libro di Pittura – nō mi legga, chi non è matemático, nella mia
prīcipi192 – qu e constitu i u m a actu alização d a ad vertência qu e cond icionava o acesso à
Acad em ia p latónica.
N ão tard ará, no entanto, a assum p ção p ú blica d o recurso a p ersp ectógrafos, d issem inad os com a ajud a d a im p rensa, licenciand o o recurso a u m a p rática qu e Cigoli no início d e seiscentos veio a ap elid ar d e la terza regola, ou seja, a regra que com eçava ond e term inavam as d u as qu e Vignola id entificou no âm bito esp ecífico d a p ersp ectiva m atem ática nas suas Due regole…, precisamente. O próprio Vignola, aliás, tam bém não se coibiu d e fom entar esta terceira via com a invenção e d ivulgação d os seus p róp rios p ersp ectógrafos. Com o é lógico, concom itantem ente com a p roliferação d esta p rática, foi-se d esenvolvendo e ganhand o substância teórica o d iscurso antagónico que a via com o inibid ora d a liberd ad e e d a cap acid ad e criativa d o artista. São críticas que se circunscrevem obviam ente ao âm bito d a p intu ra e cujo início coincid e tem p oralm ente com as id eias d efend id as p ela estética m aneirista, com evid entes ressonâncias neop latónicas. São visíveis, p or exem p lo em Lom azzo, que se
191 DA VIN CI, L. – Tratado de Pintura. Org. por Angel González Garcia. Madrid: Ediciones Akal, 1993,
p . 365-366.
192 DA VIN CI, L., The notebooks of Leonardo da Vinci. Org. por J.P. Richter. New York: Dover
insurge contra o costum e corrente d e realizar m od elos d e cera p ara segu id am ente os rep resentar com m eios m ecânicos. De acord o com Lino Cabezas esta p osição se
justifica desde su defensa de los dibujos realizados con rapidez y de memoria, de modelos ideales, como expresión más fiel de la capacidad creadora y la genialidad del artista dotado de unos dones innatos y no como el resultado automático de la aplicación de una técnica mecánica193. Voltam os, p ortanto, à intenção d e fazer p revalecer a id eia e o conceito, ou
d e tu d o fazer p ara a atingir, e, não será p or acaso que Francisco d e H oland a, d ando p rovas d o seu p ioneirism o no âm bito d esta corrente d e p ensam ento, p ouco antes d efend era: como neste ponto ele se tiver, porá velocíssima execução à sua ideia e conceito,
antes que com alguma perturbação se lhe perca e diminua; e se ser pudesse pôr-se com o estilo na mão e fazê-la com os olhos tapados, melhor seria, para não perder, aquele divino furor e imagem que na fantasia leva194.
Mas a classificação d a p ersp ectiva com o linear foi p rem onitória, com o tantas outras intu ições d e Leonard o, acaband o p or se afirm ar com a p ublicação d o tratado d e Brook Taylor, intitu lad o p recisam ente d e Linear Perspective, surgido em 1715, seguido d os New Principles of Linear Perspective, de 1719, obras que consagram definitivamente a p ersp ectiva com o sistem a d escritivo. Eis a d efinição d e Taylor:
Linear Perspective is the Art of describing exactly, on a Plane Surface, the Representations of any given Objects195.
N a send a d a trad ição já d escrita, ond e Leonard o tem tam bém o seu lu gar, Taylor d istingue a Arte d a Pintura em três p artes – Drawing, Colouring and the Art of Light
and Shadow, which the ‘Italians’ call the ‘Chiaroscuro’ – e, quanto ao desenho (drawing),
ind ica com p recisão a cond ição que o p erm ite qu alificar com o p ersp ectiva linear – a obed iência a regras m atem áticas:
193 LIN O CABEZAS, G., op. cit., p. 135. Esta tese é desenvolvida por Lomazzo no seu Trattato dell'arte
de la pittura, scoltura et architettura de 1584.
194 H OLAN DA, Francisco d e – Da Pintura Antigua (1548). Org. José da Felicidade Alves. Obra
com p leta d e Francisco d e H oland a. Lisboa: Livros H orizonte, 1984, p .13.
195 AN DERSEN , Kirsti – Brook Taylor’s work on Linear Perspective. New York: Springer-Verlag, 1992,
Drawing (…) relates wholly to the Position, and consequently to the Shapes of the Figures on the Picture; and which when it is done exactly by Mathematical Rules, and not by an acquired Habit of the Hand and Eye, is Perspective, the Subject of the present Discourse196.
Se consid erarm os aind a qu e no século segu inte quand o se tornar p ossível encarar a geom etria com o um tod o, com a entrad a em cena d as geom etrias não euclid ianas, e se p roced er à sua classificação e sistem atização com base nos conceitos unificad ores d e grup o e d e grup os d e transform ações, essencialm ente p or obra d e Felix Klein197,
verem os qu e u m a d as invariantes d a geom etria p rojectiva, ond e a p ersp ectiva p assa a ter o tratam ento m ais abstracto d e hom ologia (ou transform ação hom ológica), será p recisam ente o d e ser um a transform ação linear, ou seja, u m a transform ação geom étrica ond e as rectas se m antém com o rectas quand o sujeitas a p rojecção. Crem os que fica clara a fortu na d o qualificativo d e “linear”, associad o à p ersp ectiva, em bora inicialm ente a sua ad op ção estivesse m uito d istante d estas im p licações e se circu nscrevesse à questão d e d elinear nu m ‘vid ro’ (p lano d e p rojecção) o contorno d as sup erfícies e d os corp os em função d a su a d istância ao observad or.
Quanto à regra p ersp éctica p rop riam ente d ita, em ap ontam entos e d esenhos d e algu ns fólios d o Manuscrito A (Paris, Institut de France, c. 1492), verifica-se que Leonard o não u ltrap assa os lim ites d a construção albertiana. A interp retação que d ela faz ajusta-se à d e Piero d ella Francesca m as fica-se, no entanto, ao nível a qu e chegara Filarete, ou seja, tal com o este não envered a p elos cam inhos d a d em onstração m atem ática.
Segu ind o o exem p lo d os seus antecessores, ao p ersp ectivar um quad rad o, rep resentativo d o p lano, recorre à sobrep osição d o p erfil com a im agem p ersp éctica, fazend o u so d o punto centrico albertiano como ponto de convergência das ortogonais e d a vista d e p erfil p ara controlar a profund id ad e d o quad rad o (Ms A. fol. 39r) [Fig. 60].
196 Idem, p. 162.
197 O Program a Erlangen foi ap resentad o p or Felix em 1872 na resp ectiva u niversid ad e em Bavaria,
Fig. 60 – Constru ção p ersp éctica albertiana segu nd o Leonard o (Ms. A, fol. 39r, c. 1492)
Qu and o o p lano é o clássico qu ad riculad o recorre igualm ente à d iagonal com o m eio d e certificação (ripruova) do rigor do desenho perspéctico seguindo à risca as ind icações d e Alberti (Ms. A, fol 41r)198 [Fig. 61].
Fig. 61 – A d iagonal ad como instrumento de ripruova (Ms. A, fol 41r)
H á, no entanto, u m d esenho d e Leonard o (Ms. A, fol. 36v) ond e o p onto rep resentativo d o observad or visto d e p erfil e o punto centrico se substituem pelo d esenho d e d ois olhos, o olho f e o olho t, que merece particular atenção, quanto mais não seja p orqu e fará escola. Dürer, p or exem p lo, retom ará literalm ente esta subd ivisão fazend o corresp ond er o olho f ao ander aug e o olho t ao nahet aug.
Convém esclarecer qu e, ap esar d esta su bd ivisão, Leonard o tem o cu id ad o d e estabelecer correctam ente a sua interd ep end ência referind o exp ressam ente a função
198 Ver VELTMAN , Kim H . – Linear Perspective and the Visual Dimensions of Science and Art. Studies on
Leonardo da Vinci. Colab. de Kenneth D. Keele. Munique: Deutscher Kunstverlag, 1986, p. 60.
m n m n
d
d e f e de t que, na verdade, representam um único olho que se desdobra em duas p rojecções sobrep ostas – u m a vista d e p erfil e a p ersp ectiva:
L’ochio f e l’ochio t sono una medesima cosa: ma l’ochio f denota la distātia, cioè quanto tu stai lontano a vedere la cosa e l’ochio t ti dimostra la dirittura cioè se tu sei nel mezzo o da lato: o da cāto della cosa che tu riguardi; e recordoti che sēpre l’ochio f e l’ochio t sieno situati a vna medesima altezza l’uno che l’altro, verbi gratia se abasserai o alzerai l’ochio della distātia f che tu facci quel medesimo dell’ochio della dirittura t199.
Fig. 62 – O olho t e o olho f de Leonardo (Ms. A, fol. 36v)
O d esenho corresp ond e na íntegra à construção p ersp éctica d o Ms. A fol. 39r em bora não esteja rep resentad a a transversal m ais d istante d o quad rad o. Tod avia, na d escrição é exp ressam ente referid o qu e o segm ento ns nos dá, na linha rs (Quadro), a p rofu nd id ad e d o qu ad rad o/p lano. Significativam ente ad m ite-se qu e a pariete rs – que rep resenta, d e p erfil, o p lano d e p rojecção – seja u m a haste (una aste o altra cosa diritta
come appare in r.s200) tal com o faz Giorgio, conectand o, u m a vez mais, o p roblem a
p ersp éctico à p rática concreta d e d eterm inação d e d istâncias. Assim , tal com o o p lano d e p rojecção é tom ad o com o um a haste tam bém a p resença física efectiva d o observad or é sim bolizad a p elo d esenho d o olho que no p erfil se d esigna p or f. Nesta sequência é fácil im aginar o recurso a fios transform ad os em raios visuais, com o aliás Giorgio tam bém sugeria.
199 DA VINCI, L., op cit., vol. I, p. 34.
A qu estão m ais interessante refere-se, no entanto, ao olho t que se coloca no lugar do
punto centrico albertiano.
Antes d e m ais d enota a d ificu ld ad e d e red u zir o vértice d a p irâm id e visu al a um a entid ad e abstracta com o tend encialm ente visa ser com Piero d ella Francesca. Com efeito, no tratad o d e Piero, aind a que o p onto tenha que ser ap reensível p ela vista e, p or conseguinte, não seja rigorosam ente um p onto m atem ático, não encontram os qualqu er ilustração qu e figu re o olho em substitu ição d o Ponto d e Vista. Já Leonard o, que tam bém cu ra d a questão d a rep resentação d o p onto m atem ático qu e resolve com a d efinição d o conceito d e p onto natu ral com o quantid ad e contínu a201, ap esar d e
insistir e d e ensaiar a d em onstração d e qu e os raios visuais concorrem no vértice d e u m a p irâm id e situ ad o no interior d o olho202 não consegu e d eixar d e se p reocup ar