O termo "sustentabilidade" aparece com maior intensidade nos debates mundiais, em 1987 com o Relatório Brundtland e na Agenda 21 elaborada na conferência Rio-92, já citadas anteriormente. Atualmente, o que se percebe, é a banalização do termo através da venda de produtos com uma espécie de selo sustentável, onde ou a embalagem é produzida de uma forma supostamente menos agressiva ao meio ambiente ou até mesmo os resíduos que seriam gerados pelas substâncias do produto, não afetariam bruscamente o planeta.
Porém, o termo sustentabilidade é complexo e segundo Sachs (1993), possui cinco dimensões: social, econômica, cultural, espacial/ geográfica e ecológica. A dimensão social tem como objetivo a redução das desigualdades sociais; a econômica, o aumento da produção e da riqueza social, sem dependência externa; a ecológica, a melhoria da
qualidade do meio ambiente e preservação das fontes de recursos energéticos e naturais para as próximas gerações; a espacial/geográfica, evitar o excesso de aglomerações e a cultural, evitar conflitos culturais com potencial regressivo. Montibeller-Filho (2001) levanta essa problemática e coloca o desenvolvimento sustentável como um campo de disputas ideológicas, utópicas, políticas, econômicas e técnicas.
A palavra "sustentabilidade" vem sendo utilizada, muitas vezes, de forma precipitada pelos publicitários e marketeiros, associando a uma ideia simplista de ecologia. Mas, de uma forma geral, esse marketing massivo e a necessidade generalizada de um comprometimento maior com as questões ambientais está possibilitando o surgimento de novas idéias inclusive na área do planejamento urbano.
Já no início do século XX, se pensava numa cidade com maior aproximação com a natureza e surgiu a idéia de cidades jardins com Ebenezer Howard na Inglaterra.
A visão utópica de Howard foi uma tentativa de resolver os problemas de insalubridade, pobreza e poluição nas cidades por meio de desenho de novas cidades que tivessem uma estreita relação com o campo. Ele apostava nesse casamento cidade-campo como forma de assegurar uma combinação perfeita com todas as vantagens de uma vida urbana cheia de oportunidades e entretenimento juntamente com a beleza e os prazeres do campo. (ANDRADE, 2003, p.1) As ideias de Howard possuíam certa coerência com os preceitos de sustentabilidade e a preocupação com a ecologia. Porém tinha falhas e gerou certas problemáticas.
Uma das grandes críticas ao modelo de Cidade- Jardim sob o ponto de vista da sustentabilidade é o efeito da suburbanização que este causou, ou seja, a expansão urbana com baixas densidades que ocupam terras agricultáveis. Este efeito é melhor percebido nos EUA, e hoje no Brasil é representado pela expansão de condomínios
irregulares sem infraestrutura econômica e preocupações ecológicas.(ANDRADE,2003, p.1) Também com a idéia de buscar uma relação entre os avanços tecnológicos e os recursos naturais disponíveis, surge em 1935 com Frank Lloyd Wright, o modelo de planejamento "Broadacre city". Segundo Choay (2000), esse modelo possuía a intenção de fazer a arquitetura ser uma resultante da topografia, as autoestradas fariam as conexões entre unidades diversificadas, as classes trabalhadoras teriam acesso a compra de unidades de alojamento, as necessidades de comércio mais básicas estariam próximas às residências e os locais de diversão distribuir-se-iam ao longo das estradas e os mercados receberiam o caráter de local de troca.
Wright propunha não somente uma melhor relação com a natureza, mas a melhora das relações interpessoais e principalmente a busca pelo que havia de potencial na cidade e no campo e a junção dessas qualidades em um modelo. Porém, só seria possível em um sistema de democracia e liberdade total, senão o indivíduo estaria sempre preso a regras que reprimem sua individualidade.
Mais recentemente, surgem as críticas às cidades dispersas e a valorização de modelos de cidades mais compactas. Palenzuela (2002) faz uma crítica a cidade difusa e sua dispersão no território e coloca que uma cidade mais sustentável deve ser mais compacta e com sistemas mais complexos. Um modelo compacto possibilitaria proximidade entre os componentes que conformam a cidade, facilidade no contato e intercambio da comunicação (essência da cidade), aumentaria as probabilidades de encontros e possibilidades e o desenvolvimento da criatividade. Para uma eficiência do metabolismo urbano deve se estabelecer a máxima eficiência no uso dos recursos com a mínima perturbação dos ecossistemas (PALENZUELA , 2002).
Leite (2012) também defende que cidades sustentáveis são compactas e densas.
Se neste modelo de cidade compacta promovem- se densidades qualificadas - com uso misto do solo e multicentralidade ligadas por uma eficiente rede de mobilidade (transportes públicos eficientes, ciclovias e áreas adequadas ao pedestre) -,têm-se os ingredientes básicos para uma cidade sustentável. (LEITE,2012, p. 136)
No caso do município de Itajaí- SC, se tivesse sido adotado um modelo de cidade mais compacta onde não houvesse uma sobreposição das áreas alagáveis, possivelmente, os riscos de inundação seriam diminuídos já que a enchente é um processo natural e a inundação é decorrente da ocupação, como será explanado mais detalhadamente no item "A problemática das Inundações".
No caso das inundações, alguns exemplos surgem como forma de propiciar maior repertório no planejamento de cidades que enfrentam esse tipo de "catástrofes" e com isso buscar uma maior aproximação dos quesitos atrelados ao termo sustentabilidade.
O programa do governo "cidades sustentáveis", por exemplo, traz alguns casos nacionais e internacionais que visam amenizar ou recuperar cidades que passaram por desastres ambientais. Como por exemplo a cidade de Upton na Inglaterra que usa o sistema de drenagem urbana para evitar inundações. O objetivo é a utilização de telhados verdes, valas e lagoas conectadas , além de pisos permeáveis que limitam o escoamento das águas pluviais pela rede pública de esgoto. (CIDADES SUSTENTÁVEIS, 2013b)
Gorski (2010) em seu livro "Rios e cidades: ruptura e reconciliação" traz alguns estudos de caso, e entre eles, há um de revitalização de rio que tem como objetivo gerar novas áreas públicas.
Exemplos como esses são importantes e precisam ser implementados como medidas de pequeno e médio prazo, mas é preciso repensar as cidades e buscar soluções a longo prazo. Através do planejamento urbano, utilizando os instrumentos do Estatuto da Cidade por exemplo, seria possível prever quais setores da cidade teriam maiores adensamentos e quais poderiam ter outros usos, que fossem menos impactados em caso de inundação.
Outro aspecto que pode colaborar com estas reflexões é notar que em países desenvolvidos vem ocorrendo um processo que se chama Shrinking Cities ou encolhimento de cidades.
O que se vê em Cleveland e Detroit, nos Estados Unidos, para citar os dois maiores casos, não é um fenômeno isolado: devido à queda de natalidade, à decadência dos setores que eram o esteio da sua economia e à depressão financeira, diversas cidades estão encolhendo no planeta, que nunca foi tão urbano. (LEITE, 2012, p.26)
Com isso, é iniciado um movimento de planejamento de áreas verdes para setores da cidade que foram abandonados. Nesses casos, o encolhimento das cidades é um processo decorrente de causas, prioritariamente, econômicas e as áreas verdes são consequencia desse esvaziamento. Mas é possível pensar em induzir esse encolhimento, a longo prazo, e planejar de forma que haja uma compactação populacional em certas áreas, disponibilizando outras para parques de contenção de cheias, por exemplo.
Ou seja, atualmente existem vários exemplos práticos no desenvolvimento de projetos para áreas urbanas suscetíveis a inundações. É necessário o bom senso por parte dos planejadores além de levantamentos das dinâmicas do local e o suporte teórico para que haja uma coerência no desenvolvimento de propostas para esses casos.