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Première condition : L’implication des travailleurs dans le processus d’audit

O uso de portfólios no colégio teve início no ano de 2005 a partir de uma necessidade do grupo de professoras, e, principalmente, da orientadora- pesquisadora, em busca de alternativas para tornarem mais visível o processo de aprendizagem das crianças.

Como está inserido no contexto da “vida que se vive”, o uso de portfólios passou por várias mudanças no período de 2005 a 2010, que serão elencadas a seguir. A primeira delas refere-se ao tamanho dos portfólios, pois, ao serem criados, suas dimensões eram de 40 cm X 40 cm. Chegou-se a essa dimensão a partir de discussões com as professoras sobre o espaço de cada folha, principalmente, para a disposição das fotos, que, assim, não precisariam ser recortadas, constituindo também um espaço maior para expor os trabalhos das crianças.

Ao serem manuseados e circularem nas casas das famílias, entretanto, percebeu-se que seu peso e suas dimensões dificultavam sua movimentação, sobretudo, porque as crianças queriam carregá-los sozinhas. Ou seja, ao ser projetado não se levou em consideração o manuseio do portfólio pelas crianças, ele era um objeto do adulto.

Em virtude disso, pensou-se em um formato mais confortável, mas que, ao mesmo tempo, atendesse à necessidade de espaço adequado para a publicação dos trabalhos das crianças. Nesse período, também houve uma mudança em relação ao uso de equipamentos. As fotografias, antes tiradas com máquinas analógicas, passaram a ser feitas com máquinas digitais, ou seja, as professoras passaram a ter maior controle sobre a qualidade das imagens, inclusive decidindo formatos e tratamento das imagens com efeitos artísticos disponíveis nos computadores.

Em 2007, a partir dessas mudanças e, novamente, depois de uma discussão com o grupo de professoras, foi decidido que o novo formato dos portfólios ficaria em 30 cm x 30 cm, porque assim facilitaria o manuseio das crianças, sua circulação e a diminuição do espaço não interferiria na publicação de seus trabalhos, uma vez que seria possível tratar as imagens e redimensioná-las a partir da tecnologia digital.

O fato de se levar em conta a participação da criança pelo acesso ao portfólio traz a ideia de que ele passa a ser um objeto pensado para a criança, mas ainda não com ela, ou seja, ela ainda ocupa um papel secundário no processo de produção dos portfólios.

Da mesma forma, nesse período, em consonância com os debates e a preocupação tanto no Brasil, como no mundo com as questões ambientais e a preservação dos recursos naturais do planeta, o colégio passou a adotar como filosofia de trabalho o uso de materiais recicláveis e o consumo consciente dos

recursos naturais. A partir de então, todos os materiais produzidos pelo colégio (agendas, atividades, provas, simulados, circulares, comunicados, cadernos, entre outros) passaram a ser produzidos em papel reciclado, pautados na ideia de colaborar com a preservação do meio ambiente.

Em seguida, dando continuidade a essas mudanças, o colégio filiou-se à rede de escolas conveniadas à UNESCO. Fundado em 1953, esse programa congrega 8000 escolas de 177 países na busca de uma educação que preconize o respeito à diversidade e ao meio ambiente, bem como a construção de uma cultura de paz.

Os portfólios produzidos em 2010, portanto, materializam algumas mudanças de paradigma do colégio: primeiramente, em relação à concepção de criança, pois, ao ser criado, pensou-se apenas do ponto de vista dos professores, mas, a partir de seu uso pelas crianças, precisou ser repensado enquanto objeto que seria manuseado por elas, sendo algo relevante para o desenvolvimento do trabalho; em segundo lugar, na sua imagem, como escola publicamente preocupada com o meio ambiente e com a propagação da paz, de acordo com o vínculo firmado com a UNESCO; em terceiro lugar, a partir do trabalho realizado com os portfólios, as famílias passaram a respeitar mais a educação infantil e a valorizá-la como espaço importante no contexto escolar (isso foi percebido a partir do crescimento do número de crianças matriculadas nesse segmento); e, em quarto lugar, pelo prestígio alcançado socialmente, sobretudo, nos últimos anos, pelos resultados alcançados nos vestibulares e no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), ao ser avaliada como uma das dez melhores escolas da cidade de São Paulo.

Relacionando esses fatos e pensando na noção de ethos, como aquela que permite refletir sobre o processo mais geral da adesão dos sujeitos a certa posição discursiva e retomando a ideia aristotélica de que o ethos é construído na instância do discurso, podemos defini-lo como “os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório, para causar boa impressão: é o seu jeito [...]. O orador enuncia uma informação e ao mesmo tempo diz: sou isto, não sou aquilo” (...); o ethos projetado está vinculado ao discurso de autoridade da UNESCO e ao fato da instituição estar ligada às questões ambientais e à cultura de paz, temas atuais e valorizados socialmente.

Com isso, a partir de 2008, houve uma reestruturação no setor de marketing da instituição e, desde então, passou-se a usar como estratégia a contratação de

agências publicitárias, para a criação de uma logomarca anual. Em 2009, decide-se que a capa dos portfólios não será criada especificamente para esse fim, mas usará o tema criado para o ano. Dessa maneira, no ano de 2010, a agência escolhida foi a

Brother Cast e o logo criado se refere a um dos assuntos sugeridos pela UNESCO,

para o desenvolvimento de projetos na escola, e a um tema escolhido pela equipe pedagógica, pensando particularmente nos alunos da instituição.

As mudanças históricas que ocorreram durante esses cinco anos trazem uma modificação na visão de criança criada pela escola. Ao ser criado, o portfólio era um objeto dos adultos, professores e pais, depois passou a ser pensado para as crianças e não apenas para suas famílias, elas assumem outro papel enquanto sujeitos que podem e devem participar do processo de ensino e aprendizagem.

Os portfólios pensados para as crianças inserem uma mudança de olhar, que, apesar de ainda pequena, começa a considerar a criança como participante do processo de construção desses discursos, no entanto, o fato de as capas com o passar do tempo, passarem a ser escolhidas e determinadas pela equipe diretiva do colégio, a partir da visão de uma agência de publicidade, demonstra uma contradição nesse percurso, pois o discurso publicitário, de marketing, passa a ser privilegiado em detrimento do discurso pedagógico.

Considerando que essa é uma instituição particular de ensino, sabe-se que algumas estratégias de mercado são levadas em consideração e acabam se caracterizando também como coercitivas. Assim, a pesquisa se faz a partir da compreensão da realidade como um produto das ações humanas no mundo, permeada de sentidos construídos coletivamente, renovados na relação com o outro.