Os caminhos da história da argumentação têm suas raízes na própria trajetória humana de constituição da vida social, mas é na Grécia do século V a. C. que ela aparece no quadro da democracia ateniense, como componente da retórica que descreve e afirma os valores da polis.
A arte de bem falar e argumentar com as pessoas, nesse momento, torna-se imprescindível para os cidadãos que participavam das assembleias populares e dos tribunais. Nesse mesmo período, surgem os sofistas, mestres itinerantes que ensinavam essa arte e se autodenominavam sábios, aqueles que professam a sabedoria e, como se deslocavam de lugar em lugar levaram para Atenas a Teoria Retórica de Córax e Tísias.
Segundo Fonseca (1997), a Retórica para os sofistas é vista como a arte de bem falar e argumentar com pessoas, para persuadi-las, mesmo utilizando de argumentos ilusórios e enganosos ou ostentando uma concepção sem fundamentos adequados.
A Retórica clássica se baseava na diversidade de pontos de vista, no verossímil, e não em verdades absolutas. Foi, sobretudo, contra essa ideia que se opôs Platão, que passa a questionar que a retórica apenas visava resultados,
enquanto a filosofia buscava sempre o verdadeiro. Assim, acredita-se que, a partir desse episódio, o prestígio da Retórica decaiu perante a opinião pública (ABREU, 2005).
Aristóteles, discípulo de Platão, foi o primeiro a propor uma teoria da argumentação, nos Tópicos e na Retórica, procurando um meio caminho entre Platão e os Sofistas, encarando a Retórica como uma arte que visava descobrir os meios de persuasão possíveis para os vários argumentos. Para ele a Retórica é a arte que persuade, raciocina sobre verossimilhanças e opiniões, tratando do necessário e do verdadeiro e que, por sua vez, se distingue da Ciência, que está mais focada na demonstração.
O emprego da Retórica estava ligado às formas do discurso público, mais precisamente à oratória, sendo dividida em três gêneros: deliberativo, judiciário e o demonstrativo. O gênero deliberativo estava mais voltado ao futuro, procurava dissuadir ou persuadir em relação a algo a fazer; o gênero judiciário, voltado ao passado, procurava ações para acusar ou defender, a partir do que é justo ou injusto; por fim, o gênero demonstrativo, que direcionado ao presente, procurava elogiar ou censurar o que é belo ou feio, por meio de um raciocínio comparativo. Desse modo, o auditório passa a ser um elemento fundamental de cada gênero, pois dependendo dele, outros elementos são tomados para a formação do gênero retórico.
A partir desses gêneros, o orador, a fim de persuadir o seu auditório, organiza seus argumentos, utilizando dois processos de raciocínio: um psicológico (o comover) e o outro lógico (o convencer). O comover é um apelo moral para atingir o destinatário e está ligado ao ethos e ao pathos. O ethos é o caráter moral que o orador deve assumir para impressionar o seu auditório, causando confiança e credibilidade, já o pathos é o conjunto de ações e emoções que o orador deve suscitar no auditório com seu discurso. O convencer está relacionado ao logos, pois depende do poder do orador de transformar e manipular o material que dispõe para persuadir os ouvintes.
Dessa maneira, o auditório assume uma característica que o orador não pode esquecer: a de que se deve pensar naqueles que procura persuadir e que constituem o auditório ao qual se dirige o discurso, ou seja, a relação entre os interlocutores e a situação em que ocorrerá o discurso.
Os estudos em torno da Retórica, entretanto, não se limitaram ao período de Aristóteles. No século XX, Chaïm Perelman e sua colaboradora Lucie Olbrechts- Tyteca retomaram a Dialética e a Retórica de Aristóteles, propondo uma nova discussão e a recuperação dos estudos teóricos, dos quais foi prestigiado apenas o modo analítico de raciocinar.
Em 1958, os estudos de Perelman e Olbrechts-Tyteca em torno da Retórica resultam na obra Tratado da Argumentação, na qual postulam, a partir da releitura de Aristóteles, que a argumentação tem sempre por objetivo desencadear a adesão dos ouvintes e seria eficaz se, além disso, também desencadeasse neles a ação pretendida. Ou seja, a argumentação é entendida como um diálogo em que um sujeito age sobre outro sujeito discursivo com vistas à adesão do interlocutor.
A obra se divide em três partes: a primeira traz a conceituação de argumentação, distinguindo-a da demonstração, analisa a diferença entre persuadir e convencer, e a relação do orador com o auditório; na segunda parte, sobre os pontos de partida da argumentação, subdividida em três capítulos, trabalha a questão dos acordos, da escolha de dados e sua adaptação com vistas à argumentação, finalizando com a apresentação dos dados e a forma do discurso; na terceira parte sobre as técnicas argumentativas, os autores tratam, em cinco capítulos, dos argumentos quase lógicos, dos argumentos baseados na estrutura do real, das ligações que fundamentam a estrutura do real, da dissociação das noções e da interação dos argumentos.
Dessa forma, os objetivos da argumentação para esses autores decorreriam dos gêneros em que fosse empregada e se manifestariam em diversos conceitos, por exemplo, na questão de orador/auditório, defesa/acusação, pensando muitas vezes apenas no persuadir e convencer.
Após essa breve discussão histórica sobre os estudos da retórica e argumentação, será apresentado, na próxima seção, o que se considera como processo argumentativo, já que, nesta pesquisa, se parte do princípio de que argumentar é uma Atividade discursiva e social especialmente relevante, que permeia a vida dos indivíduos em todas as esferas da sociedade, pois a defesa de pontos de vista é fundamental para que se conquiste espaço social e autonomia (LIBERALI, 2009).