Neste capítulo faremos o detalhamento da pesquisa. Descreveremos os caminhos que foram percorridos para chegar aos objetivos propostos, como foi selecionada a amostra e o percentual em relação à população estudada, o instrumento de pesquisa utilizado e como os dados foram tratados e analisados.
Acreditando numa provável relação entre os índices de absenteísmo e de acidentes de trânsito com a situação de trabalho do motorista e considerando que poderia se tratar de uma realidade comum às empresas de transporte urbano da cidade de Natal, já que todas operam em ambiente semelhante ou comum, decidimos procurar uma empresa e propor a realização desta pesquisa. Nosso pedido foi aceito pela empresa e o projeto da pesquisa foi submetido e aceito com parecer favorável pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFRN número 313/2008.
O presente estudo compreende uma abordagem descritiva e exploratória, que buscou correlacionar fatos ou fenômenos sem manipulá-los, através de um estudo de caso. Para tanto, estudamos de forma amostral em uma das sete empresas de ônibus urbano da cidade de Natal/RN a situação de trabalho do motorista para identificarmos junto a eles quais os problemas em sua atividade durante sua execução.
O estudo de caso é um estudo de natureza empírica que investiga um determinado fenômeno, geralmente contemporâneo, dentro de um contexto real de vida, quando as fronteiras entre o fenômeno e o contexto em que ele se insere não são claramente definidas. Trata-se de uma análise aprofundada de um ou mais objetos (casos), para que permita seu amplo e detalhado conhecimento (GIL, 1996).
O modelo de pesquisa foi pesquisa-ação, que de acordo com Bendassolli e Soboll (2011, p. 5) “visa a produção de conhecimento–ação vinculados às situações reais de trabalho e as vivências do sujeito pesquisado”. Segundo Barbier (1985, p. 136 apud OLIVEIRA, M., 2007, p. 74), a pesquisa ação “é uma atividade de compreensão e de explicação da práxis dos grupos sociais por eles mesmos, com ou sem especialistas em ciências humanas e sociais práticas, com fim de melhorar essa práxis”.
A pesquisa ação para LHUILIER (2006 apud BENDASSOLLI; SOBOLL, 2011), permite o desenvolvimento do conhecimento e possibilita a conscientização e o “empoderamento” dos sujeitos, objeto da pesquisa, na situação de trabalho.
Para Wisner (1987) todas as atividades que não se desenvolvem de maneira satisfatória devem ser objeto de uma verdadeira análise do trabalho. A análise do trabalho é entendida como a descrição do trabalho tal como acontece realmente e é feita com a finalidade de se conhecerem as razões da diferença entre as tarefas prescritas e as tarefas reais e aplicar as melhorias. A análise do trabalho é realizada através da análise da atividade que pode ser feita pelo dispositivo técnico e pelas instruções escritas e orais destinadas ao trabalhador, pela observação cuidadosa da atividade e pela descrição do seu trabalho pelo operador, de preferência no posto de trabalho.
Quanto a forma de obter as informações sobre o trabalho o referido autor diz que não se pode analisar o trabalho sem ir para o campo e analisar in loco o que os trabalhadores fazem. Que devemos dar importância ás condições de trabalho, tudo que influencia o próprio trabalho, e a participação dos trabalhadores no estudo das condições de trabalho.
Também de acordo com Wisner (1987), ao longo da história do trabalho os trabalhadores não são solicitados a contribuir para a própria observação, se não de maneira passiva, eles são objeto e não sujeito de seu próprio estudo. Cabe aos outros, médicos, gerentes, psicólogos, etc., dizer o que é que vai mal. Na verdade, o autor enfatiza que o que o operador diz sobre seu trabalho é de importância considerável na análise da atividade e que ele, o trabalhador, ao descrever seu trabalho pode contribuir na descrição dos efeitos negativos do trabalho.
A definição e escolha da amostra foi não-probalística, intencional e por acessibilidade. A quantidade da amostra foi de 40% da população de motoristas da empresa pesquisada que correspondeu a 50 dos 124 motoristas em atividade. Iniciamos a coleta de informações e dados em janeiro de 2010 através de entrevistas com gerentes e funcionários administrativos no escritório da empresa. Estas entrevistas foram realizadas com base em roteiros de perguntas pré-estabelecidas pelo pesquisador as quais os entrevistados respondiam, o pesquisador anotava as respostas e solicitava aos mesmos documentos que continham as informações em referência, quando era pertinente.
Para calcular o índice de absenteísmo e identificar os tipos de doença que causaram os afastamentos dos motoristas do trabalho foram analisados os relatórios com a quantidade de atestados apresentado pelos motoristas durante os anos de 2009 e 2010, o número de dias de afastamento e o CID – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, informado pelo médico que deu o
diagnóstico e emitiu o atestado. A análise dos acidentes de trânsito foi feita pelos dados dos laudos periciais emitidos quando ocorreram os acidentes. A rotatividade foi calculada a partir das guias da CAGED – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do ano em referência na qual são informadas pela empresa ao Ministério do Trabalho e Emprego as entradas e saídas de funcionários.
Após haver tomado conhecimento do quadro de linhas e horários da empresa e com uma autorização por escrito da direção de empresa para a realização da pesquisa fomos aos quatro terminais de linha onde a empresa opera e fizemos as observações, registros e a aplicação de uma entrevista com os motoristas. Os motoristas responderam as entrevistas em seu horário de descanso que tinha a duração aproximada de 1:00 h. A preferência por realizar a entrevista durante o intervalo de trabalho e não antes ou depois da jornada se deu em função da imprecisão do tempo de duração da entrevista interferir no horário de início da jornada ou dificultar a volta do motorista para casa. Todas as entrevistas foram realizadas no período de dezembro de 2010 a fevereiro de 2011
Optamos por entrevistar motoristas de todas as linhas que a empresa opera, conforme demonstrado no Quadro 4. Para compor a amostra foi feita uma estratificação proporcional onde seriam entrevistados pelo menos 20% dos motoristas das linhas maiores e 50% dos motoristas das linhas menores, de modo que no total obtivéssemos uma amostra de 40% dos motoristas.
Quadro 4 - Número de motoristas entrevistados por linha
Nº da Linha
Terminal Nº de motorista Nº de motorista entrevistado 50 Serrambi 24 7 51 Rocas 20 9 52 Rocas 16 8 7461/7462 Cidade Verde 4 2 65 Serrambi 14 3 85 Soledade 4 2 104/105 Cidade Verde 21 11 739 Cidade Verde 15 6 106/107 Cidade Verde 6 2 TOTAL 124 50
Fonte - Elaborado pelo autor.
Os motoristas que responderam a entrevista foram escolhidos pela ordem de chegada ao terminal no seu horário de intervalo e que ao ser abordado e esclarecido pelo
termo de consentimento livre esclarecido - Apêndice A, da finalidade da entrevista concordasse em responder as perguntas. Houve os que disseram que gostariam de participar da entrevista, porém, ficaram impossibilitados por ter se atrasado durante a última viagem e tiveram seu tempo de intervalo reduzido. Outros se recusaram a responder alegando receio das consequências de suas respostas, mesmo lhe tendo sido apresentado a autorização da empresa e a finalidade da entrevista.
As entrevistas foram realizadas nos quatro terminais de ônibus onde a empresa opera com suas linhas, em lugar reservado, porém aberto, de modo que algumas vezes havia outros motoristas ou despachantes que passavam e podiam escutar parte da conversa.
Quanto a aplicação da entrevista, as perguntas eram feitas pelo pesquisador que anotava as respostas ao mesmo tempo em que eram gravadas, considerando que se tratava de um ambiente com ruído causado pelo barulho dos ônibus que chegavam e saíam. Diariamente, as entrevistas realizadas eram transcritas e impressas.
Para elaborar o instrumento de coleta de dados, a entrevista, primeiro tomamos conhecimento das tarefas do cargo do motorista de acordo com a empresa, posteriormente observamos o seu ambiente de trabalho e levantamos os itens que estão presentes na atividade do motorista. O instrumento inicia com perguntas relacionadas a questões pessoais do motorista como: estado civil, forma de moradia, quantidade de filhos, uso de bebida alcoólica, tempo de permanência no emprego atual e tempo de deslocamento de casa para o trabalho. As demais perguntas foram elaboradas em relação a cada item avaliado por nós como presente na atividade do motorista: o tempo de viagem planejado pela empresa, a interferência do passageiro, a supervisão direta, a manutenção do veículo, o trânsito, as condições da via, o posto de trabalho, as condições do ambiente de trabalho (terminal) para descanso, alimentação e necessidades fisiológicas. A fim de cobrirmos outros itens não previstos por nós na elaboração das perguntas do questionário, finalizamos o mesmo com duas perguntas abertas sobre fatores considerados satisfatórios ou insatisfatórios para o motorista.
Na realização das entrevistas o pesquisador se embasou nas orientações fornecidas por Bauer e Gaskell (2002), que sugere: testar o gravador antes do início de cada entrevista, garantir a confidencialidade das informações, realizar um comentário sobre a pesquisa, fazer o pedido para gravar justificando uma ajuda a memória e o agradecer por ter concordado falar, manter o foco da atenção na escuta e entendimento do que está sendo dito e não na escrita ou no roteiro da entrevista, dar ao entrevistado
tempo para pensar e por isso as pausas das respostas não devem ser preenchidas com outras perguntas, procurar terminar a entrevista com uma nota positiva e agradecer ao entrevistado.
O roteiro da entrevista – Apêndice B foi elaborado com uma sequência de perguntas com uma finalidade, neste caso a de ouvir o motorista sobre a sua atividade de trabalho, de modo que as respostas, mesmo as subjetivas, pudessem ter um tratamento de classificação quantitativa.
De posse das entrevistas transcritas e impressas, foi montada uma tabela no Excel onde as linhas, numeradas de 1 a 50, referiam-se aos 50 motoristas entrevistados e nas colunas estavam os itens avaliados pelos mesmos, agrupados em fatores. As respostas foram tabuladas em percentuais e apresentadas em tabelas, com exceção de duas perguntas abertas que foram tabuladas pela frequência da resposta. A discussão dos resultados foi fundamentada pela revisão de literatura dos processos da ARH.