A personalidade, enquanto conjunto de características individuais relacionadas com padrões de pensamentos, modos de sentir e de agir (Pervin, Cervone, & John, 2005), formada desde cedo e com uma tendência para ser estável durante o desenvolvimento individual, afeta o comportamento social e as relações interpessoais. A personalidade surge como uma variável de interesse neste estudo, na medida em que nos permite compreender traços estruturais que poderão predispor os jovens a certos comportamentos relacionados com a utilização das redes sociais (Amichai-Hamburger, 2002). Há um grande consenso de que o conceito da personalidade pode ser melhor descrito pelas cinco grandes dimensões do Modelo dos Cinco Factores (John &
53 Srivastava, 1999) e de que este modelo é adequado na previsão de atitudes e crenças dos utilizadores de tecnologia (Devaraj, Easley, & Crant, 2008). Os cinco fatores de personalidade - extroversão, afabilidade, conscienciosidade, estabilidade emocional (muitas vezes chamado também de neuroticismo) e abertura à experiência - relacionam-se com o comportamento das pessoas numa ampla variedade de contextos (Wehrli, 2008).
Dentro dos cinco factores de personalidade, a investigação empírica tem trazido resultado interessantes. No que respeita à extroversão, indivíduos com menores níveis de extroversão, podem equilibrar as dificuldades que experienciam nas interações sociais face-a-face através da Internet (Amichai- Hamburger, Wainapel, & Fox, 2002; Hamburger & Ben-Artzi, 2000). A extroversão parece estar positivamente associada à pertença a um maior número de grupos no Facebook (Ross et al., 2009), a uma maior frequência de utilização do Facebook (Wilson, Fornasier, & White, 2009), a uma maior frequência da utilização das redes sociais em geral, bem como ao uso de mensagens instantâneas (Correa, Hinsley, & Gil de Zúñiga, 2010). Koch e Pratarelli (2004) concluíram, por sua vez, que a introversão está associada a um aumento do uso da Internet para socialização anónima. A abertura à experiência e o neuroticismo surgem positivamente associados a um maior uso de redes sociais e de mensagens instantâneas numa amostra de adultos dos EUA (Correa, Hinsley, & Gil de Zúñiga, 2010). Relativamente à conscienciosidade e à afabilidade, indivíduos com pontuações mais elevadas nestes fatores, e pontuações mais baixas no fator neuroticismo, são menos propensos a publicar conteúdo problemático (por exemplo, de natureza sexual ou sobre abuso de substâncias) nos seus perfis (Karl, Peluchette & Schlaegel, 2010). Adicionalmente, adolescentes que apresentam valores baixos na estabilidade emocional, extroversão e afabilidade tendem a apresentar uma falta de competência interpessoal e têm menos recursos nas suas vidas sociais (Caplan, 2003). Podemos facilmente compreender que estes adolescentes podem perder o controlo sobre seu uso da Internet, porque uma grande parte da sua vida social é feita no contexto online (Davis, 2001).
Nesta primeira parte do trabalho procurámos fundamentar a relevância do estudo do uso problemático do Facebook na adolescência. Tendo em conta
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a análise dos estudos efectuada, verificamos que os resultados encontrados são de alguma forma contraditórios, uma vez que não há consenso sobre se de facto as redes sociais, e o seu uso na adolescência trarão mais consequências negativas ou positivas para o seu utilizador e qual o seu real papel na adaptação psicossocial dos adolescentes. Provavelmente, as consequências do uso, advirão também do tipo de utilizador e não poderemos falar de uma única direção dos resultados, bem como advirão de todo um quadro relacional de base do adolescente.
Nesta medida esta dissertação procura fazer uma leitura da utilização da rede social Facebook à luz da teoria da vinculação, compreendendo os motivos do uso problemático da mesma, e procurando iluminar os comportamentos de uso da rede social tendo em conta o quadro relacional do adolescente, ao nível das relações com pais e pares, as competências interpessoais e as características de personalidade. Os estudos no domínio do uso problemático da Internet em Portugal começam agora a desenvolver-se, existindo já alguns estudos dentro desta temática (Pontes & Patrão, 2013; Pontes, Patrão, & Griffiths, 2014), no entanto não existem estudos centrados no uso problemático da rede social Facebook em específico, e pese embora exista um instrumento de adição à Internet adaptado para língua Portuguesa (Pontes, Patrão, & Griffiths, 2014), as medidas são escassas, e uma centração da rede social Facebook, a mais utilizada pelos adolescentes, é relevante e necessária. A ênfase deste trabalho recai, assim, numa compreensão da forma como os adolescentes portugueses falam da rede social Facebook, numa dinâmica exploratória da temática, e nas variáveis relacionais que poderão estar associadas ao uso problemático do Facebook, traduzindo assim o grau de adaptação psicossocial do adolescente utilizador.
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CAPÍTULO II - METODOLOGIA
57 1. Objetivo Geral e Objetivos Específicos
O objetivo geral deste trabalhar é estudar as dimensões do uso da rede social Facebook em adolescentes portugueses. Para tal, partimos de uma grelha de leitura relacional, procurando compreender as relações entre os modos de utilização da rede social Facebook e variáveis como a vinculação aos pais e pares, as competências interpessoais em contexto face-a-face e online, e dimensões de personalidade.
Propõem-se, então, os seguintes objetivos mais específicos:
(a) Compreender as perspetivas pessoais e críticas de adolescentes acerca do uso da rede social Facebook, de um ponto de vista qualitativo, dando voz aos próprios adolescentes, como um primeiro estudo exploratório acerca do tema de estudo e da compreensão da visão dos próprios sujeitos acerca das dimensões da utilização.
(b) Identificar e caracterizar perfis de utilização da rede social Facebook a partir de dimensões qualitativas do seu uso.
(c) Analisar em que medida os perfis do uso problemático da rede social Facebook se associam a variáveis de cariz desenvolvimental e de adaptação psicossocial tais como a vinculação, a competência interpessoal e a personalidade.
(d) Analisar as semelhanças e diferenças entre as competências interpessoais nos contextos online e face-a-face, procurando analisar, de entre um conjunto de variáveis (sociodemográficas, de vinculação e de personalidade) quais as que melhor predizem estas competências nestes dois contextos.
(e) Analisar a relação direta, e mediada, entre a vinculação parental e o uso problemático do Facebook, analisando o papel da alienação aos pares nesta relação.
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Acrescentam-se ainda dois objetivos de cariz metodológico:
(f) Traduzir, adaptar e validar uma escala de uso problemático da Internet para a língua portuguesa, aplicada ao contexto da utilização da rede social Facebook.
(g) Adaptar a versão portuguesa do Questionário de Competência Interpessoal (QCI, Buhrmester, Furman, Wittenberg, & Reis, 1988, versão portuguesa de Assunção, Ávila, & Matos, 2010) ao contexto online, e fazer uma análise comparativa entre a organização do instrumento no contexto face-a- face e online.