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A competência social é, por definição, um construto dinâmico, que requer o desenvolvimento e complexificação de competências com o passar do

49 tempo (Monahan & Steinberg, 2011). As competências sociais constituem fatores relevantes para o desenvolvimento social e pessoal dos jovens. Adolescentes que experienciam dificuldades nestas competências apresentam maiores dificuldades em estabelecer amizades, assim como no envolvimento, na intimidade ou mesmo na vinculação com os amigos já estabelecidos (Mota & Matos, 2008).

A competência interpessoal é neste trabalho definida como se referindo a um conjunto de competências de relacionamento e interação com os outros, centrais na adaptação do indivíduo, e que se desenvolvem desde a infância até à vida adulta (Buhrmester, Furman, Wittenber, & Reis, 1988). No presente estudo é adotado o modelo concetual de Buhrmester, Furman, Wittenberg e Reis (1988), que concetualizaram a competência interpessoal a partir de um conjunto de competências distintas, mais do que uma única dimensão global, e que reflete cinco domínios de competência interpessoal, conhecidos pela sua relevância teórica para o funcionamento psicossocial: iniciar interações e relações, ser assertivo na afirmação dos direitos pessoais e no desagrado com os outros, a revelação de informação pessoal, o suporte emocional aos outros e a capacidade para lidar com o conflito interpessoal que surge nas relações próximas. Num estudo transversal, Buhrmester (1992) observou que essas competências aumentam de importância durante a adolescência em termos relacionais para fazerem funcionar as amizades e promoverem bem-estar geral sócioemocional.

As competências interpessoais estão intimamente ligadas à qualidade da relação com os pais, que proporciona uma base fundadora dos comportamentos socioemocionais (Barelds, 2005; Schmitt et al., 2009). Adolescentes com uma vinculação segura aos pais são mais capazes de explorar o mundo, negociar a sua autonomia e desenvolver competências sociais, cruciais para o início e a manutenção de relações interpessoais, bem como interações satisfatórias com amigos e pares românticos (Engels, Finknauer, Meeus, & Dekovic, 2001). Adolescentes com uma vinculação insegura, percebem um baixo suporte parental e experienciam dificuldades na interação social, sendo menos capazes de estabelecer amizades e menos capazes de resolver satisfatoriamente os conflitos interpessoais (Mallinckrodt,

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2000). Além disso, há evidências de que a vinculação está ligada às competências dos adolescentes para regular as suas emoções durante interações com os pares (Zimmermann, Maier, Inverno, & Grossmann, 2001).

Se na infância as competências fulcrais ocorrem principalmente durante o jogo e consistem em ser um parceiro de jogo agradável, na adolescência, para lá da centração nas suas próprias necessidades, os jovens passam a ter a necessidade de identificarem e responderem adequadamente aos estados emocionais dos outros (Parke & Ladd, 1992). Jovens que não se revelam capazes de demonstrar estas capacidades, tenderão a experienciar dificuldades crescentes no relacionamento com os pares (Mallinckrodt, 2000). Assim sendo, as competências sociais e relacionais revelam-se elementos pertencentes aos modelos internos dinâmicos, uma vez que em grande parte se constroem com base na concepção do self e do outro que é desenvolvida (Ainsworth et al, 1978; Bowlby, 1982) e que explicam como a vinculação parental está associada ao ajustamento emocional na adolescência. Uma vinculação segura potenciará o desenvolvimento de competências sociais adequadas, necessárias à iniciação e manutenção de relações recíprocas e satisfatórias com os outros. A investigação mostra que adolescentes mais seguros são socialmente mais competentes (Simons, Paternité, & Shore, 2001). Em contraste, um padrão de vinculação inseguro parece estar negativamente associado com a competência interpessoal (Jenkins-Guarnieri, Wright, & Johnson, 2013). Outro estudo verificou que os estudantes menos competentes socialmente tendem a utilizar a Internet para o estabelecimento de relações virtuais, porque estas seriam vistas como menos arriscadas do que as relações em contexto real (Andersen, 2001). Também Jenkins- Guarnieri, Wright e Hudiburgh (2012) verificaram uma associação negativa entre o uso do Facebook e a competência para iniciar relações sociais. No entanto, os estudos que relacionam as variáveis vinculação, competência interpessoal e uso do Facebook são escassos, nomeadamente na faixa etária da adolescência, e é importante que possamos compreender melhor as relações entre estes construtos, na medida em que estas serão variáveis

51 centrais na compreensão do fenómeno do uso problemático do Facebook, nesta nossa proposta de leitura.

No que respeita ao papel da Internet no desenvolvimento social, ocorrem duas hipóteses, a da compensação social (“the poor-get-richer”) e a do enriquecimento social (”the rich-get-richer”). A hipótese da compensação reforça a ideia da existência de um possível potencial compensatório destas relações mantidas online, que mitigarão as dificuldades existentes no contexto face-a-face, sendo assim a forma de adolescentes solitários e isolados ganharem mais competências interpessoais e estabelecerem mais relações de amizade (Amichai-Hamburguer, Wainapel, & Fox, 2002; McKenna et al., 2002; McKenna, Green, & Gleason, 2002). A hipótese do “rich-get-richer” propõe que serão os adolescentes que têm já uma boa rede de relações e com um bom desenvolvimento ao nível das competências sociais quem mais beneficiará com a Internet e mais amizades formarão também neste contexto (Kraut, 2002; Valkenburg & Peter, 2009). Koutamanis e colaboradores (2013), através da análise da comunicação através de mensagens instantâneas, num estudo longitudinal, descobriram que um aumento da frequência da utilização do “instant messaging” aumentou a capacidade dos adolescentes iniciarem relações no contexto face-a-face, corroborando assim a possibilidade do contexto online servir como contexto promotor de competências interpessoais, e como compensatório. Em Portugal Costa (2012) concluiu também que adolescentes com mais dificuldades de relação face-a-face, tenderão a utilizar mais a Internet e que, por sua vez, os que utilizam mais a Internet se sentirão mais confortáveis no uso de um conjunto de competências interpessoais online. Mas, será que comunicar mais quer dizer comunicar de forma desenvolvimentalmente saudável? As competências adquiridas serão de igual natureza? Serão então estas as competências que, não sendo potenciadas no quadro de uma vinculação insegura com as figuras parentais, se traduzirão no aumento da procura das redes sociais como meio de interacção com os outros? E será que estas capacidades podem ser aprendidas no contexto online, com os mesmos contornos da relação face-a-face? A este propósito referiu o sociólogo Bauman que “ (…) nas redes sociais é tão fácil adicionar e

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deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias.” (Bauman, 2016). O que se “perde” e o que se “ganha” quando se muda o “palco” de treino destas competências?

Mas se as competências de relacionamento com os outros têm um determinado papel na utilização das redes sociais, não podemos pôr de parte o papel das variáveis de personalidade, que de resto poderão determinar nalguma medida a forma como estas são usadas e nomeadamente uma maior ou menor tendência ao uso problemático. De facto, se podemos discutir em que medida todo o quadro relacional do adolescente desempenha um papel importante nas questões do uso das redes sociais na adolescência, não podemos descurar o papel da personalidade enquanto fator importante para compreendermos porque é que os indivíduos se comportam como se comportam na utilização da Internet (Amichai-Hamburguer, 2002). Num mesmo quadro relacional de fundo, será a personalidade diferenciadora de um uso mais ou menos problemático da rede social? A procura maior ou menor da rede social ocorrerá devida a características de personalidade? A personalidade surge, assim, como outra variável de interesse no estudo destas temáticas, mesmo incontornável até na compreensão destes fenómenos.