Chapitre I : Identité ; d’un état à un processus
Chapitre 5 : Choix de la méthode
4- Préparation de l’entretien
A capital paraibana do fim do século XIX apresenta como elementos formadores do seu espaço público ruas, travessas, becos, campos, praças, pátios e largos. Esses são espaços característicos da cidade desse momento, revelando muito das heranças da Colônia e do Império que ainda persistem nas formas urbanas de então, convivendo com a intensificação das intervenções que se estruturam no contexto oitocentista.
Dentre esses espaços, encontram-se áreas públicas cujas funções naturais se remetem à passagem, e outras à permanência. Nesse contexto, os largos, pátios, campos e praças são, por definição, locais de permanência, enquanto ruas, travessas, becos e ladeiras são, sobretudo, trajetos. Nesse momento da história da cidade, as funções naturais desses espaços sofrem transformações, emergem novas formas de apropriação e as ruas passam a abrigar aglomerações e novos usuários.
Em sua maioria, as denominações desses espaços referenciam às características coloniais remanescentes na cidade, reforçando as heranças formais e de uso. Tanto o substantivo que as apresenta – beco, travessa, largo, ladeira, etc – quanto os adjetivos que as nomeiam de forma mais específica e singular – travessa do Chão-Duro, beco do Hospital, rua do Major Moreira, largo do Sobradinho – marcam nos espaços urbanos as características desse momento, onde os habitantes, o cotidiano citadino e elementos urbanos referenciais nomeiam a cidade.
189 Ao que se sabe, essa planta não foi feita àquela época. Atualmente, essa atualização encontra-se em TINEM, Nelci (org).
Fronteiras, marcos e sinais: leituras das ruas de João Pessoa. João Pessoa: Ed. Universitária e Prefeitura Municipal de João Pessoa, 2006.
2.3.1 Os espaços de trajeto “BÊCCO s.m. Rua estreita”190 Os becos são espaços muito importantes da cidade colonial e oitocentista. Em vários estudos, eles são apresentados como espaços reveladores das nuances da vida da cidade brasileira desse período, onde se apresentam diversas formas de sociabilidade e de apropriação dos espaços públicos.
Na capital paraibana, esses espaços se encontram em constante evidência. Observando o levantamento da estrutura urbana da cidade realizado em 1855, percebe-se que esse não é o
espaço predominante quantitativamente no meio urbano de então. Porém, é um dos elementos mais presentes nas descrições dessa cidade naquele momento. Apesar de ser um espaço mais comum ao período colonial, percebe-se, nos relatos e artigos do início do século XX, a proliferação dos becos, que acompanha o crescimento urbano.
São pequenas vielas estreitas, algumas sem saída, outras comunicando dois outros espaços. A arquitetura nele presente é, geralmente, de pouca projeção formal, constiuída, muitas vezes, por casebres térreos, compondo um ambiente comumente apontado como desordenado e “amontoado”. Também podem funcionar como vias sanitárias e locais de drenagem, dando acesso aos quintais. Estas funções, segundo afirma Nestor Goulart referindo-se às cidades brasileiras do período colonial, ocorrem principalmente nas quadras que tendem para a forma de um quadrado e com lotes que se abrem para as duas ruas paralelas, onde “as transversais eram
apenas becos ou vielas para drenagem das águas fluviais”191, o que influencia na arquitetura, através da proibição de aberturas, sejam portas ou janelas, no alinhamento dessas passagens.
Os becos algumas vezes abrigam, segundo relatos de época, atividades que entram em conflito com a ordem urbana que se pretende implantar na passagem do século XIX para o XX. Sua constituição formal lhe atribui, geralmente, uma imagem obscura, por muito tempo apontado como o local de concentração da desordem urbana, onde se encontram, mais frequentemente, os amontoamentos de lixo. Ao mesmo tempo, eles abrigam as relações sociais que a administração urbana busca extinguir, pois neles as camadas populares mantém formas próprias de sociabilidade.
No fim do século XIX, quando se fortalece o discurso e as preocupações em relação à ordem urbana, criticando-se de forma mais intensa a estrutura física da cidade, os becos assumem maior evidência na
190 VIEIRA, Frei Domingos. Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Língua Portugueza. Porto: Casa dos editores Ernesto
Chardon e Bartholomeu H. de Moraes,1871.
191 REIS, Nestor Goulart. “A Urbanização e o Urbanismo na Região das Minas”. Cadernos de Pesquisa do LAP. Série Urbanização e
Urbanismo. Jul-dez 99, n. 30. São Paulo, FAU- USP, p.21.
1877 - Beco da Misericórdia, atual tua Paregrino de Carlalho. Ao fundo a igreja da Misericórdia. FONTE: Acervo Walfredo Rodrigues.
Dissertação de Mestrado - Maria Cecília Almeida
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Capítulo 2 - A cidade oitocentista: formas e usos dos espaços públicos denúncia desses problemas. Eles se configuram como território dos negros, vagabundos e marginais. É também neles que, durante as festas públicas a exemplo dos carnavais, realizam-se desmandos, como notificado por cronistas que denunciam os que entram nos becos durante as festa, no intuito de praticar algo proibido ou não factível em público. Os becos da capital paraibana também se tornam alvos de críticas, assim como ocorre em várias cidades que passam por esse processo, como aponta Sandra Pesavento a respeito dos becos de Porto Alegre:
“o beco foi identificado como reduto das sociabilidades condenadas, um espaço maldito na cidade, freqüentado pelos “turbulentos” da urbe. A situação se definia tanto mais grave porque tais espaços estigmatizados se achavam encravados no centro da cidade, que se encontrava em processo de renovação e saneamento, tanto técnico quanto moral”192.
Na cidade da Parahyba do Norte, um dos becos mais mencionados em documentos de época é o da Misericórdia. Situado na lateral da igreja de mesmo nome, ele é constantemente apontado pelo seu estado de insalubridade e desordem, além das atividades julgadas inadequadas ao meio urbano, lá praticadas. Esse histórico o coloca de imediato nas pautas das reformas locais, incluindo-o no rol dos espaços remodelados no início do século XX, segundo um discurso em prol da salubridade e ordem urbana.
Assim, mesmo não sendo elemento predominante do espaço urbano oitocentista, os becos abrigam muitas das características formais e de usos que se pretende modificar, imagem que se pretende extinguir, o que lhes confere o caráter simbólico da cidade em processo de transformação.
“TRAVÉSSA s.f. Rua que corta as ruas directas, e principaes. Caminho atravessado”193 Como explícito no seu significado, as
travessas são ruas secundárias que fazem ligações entre as principais. São elementos marcantes na cartografia oitocentista, onde às vias principais e espaços públicos, como cam- pos e largos, liga-se uma travessa que daqueles recebem o mesmo nome. Observando os mapas e alguns relatos onde são mencionadas, percebe- se que esses elementos dispõem de pequeno trajeto e são muito usados para encurtar distâncias. Apesar de suas pequenas dimensões e pouca repercussão nos relatos desse período, esses são espaços referenciais por ligarem elementos importantes do conjunto urbano, relacionando-se a eles pela sua denominação.
Encurtando percursos e ligando os principais espaços do conjunto urbano, muitas dessas travessas são criadas a partir do uso cotidiano das áreas públicas, onde os caminhos trilhados recorrentemente pela população, no trajeto entre os locais de uso mais constante, consolidam-se em travessas que são referenciadas por esses mesmos espaços, que também lhes dão o nome.
192 PESAVENTO, Sandra Jatahy. “Era uma vez o beco: origens de um mau lugar”. In: BRESCIANI, Maria S. Palavras da Cidade. Porto
Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 2001, p. 98.
193 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da Língua portugueza dos vocabulários impressos ate’ agora, e nessa segunda edição
novamente emendado, e muito accrescentado. Lisboa: Typographia Lacérdina, 1813.
1877 - Antiga travessa do Carmo, depois travessa Conselheiro Henriques. No fim, a igreja do Carmo. FONTE: Acervo Walfredo Rodrigues.
“LADÈIRA s.f. subida com pendòr, e declive”194 As ladeiras são
elementos que marcam as cidades coloniais brasileiras, constituindo-se elementos representativos da expansão desses conjuntos urbanos que têm como característica de fundação a implantação em áreas íngremes. Na capital paraibana, essas vias são os principais consolidadores da estrutura urbana apresentada no fim do século XIX, por serem os principais elos de ligação entre a cidade alta e a região do Varadouro, caracterizando o
crescimento citadino que forma o conjunto urbano oitocentista.
Criadas a partir da necessidade de levar a cidade às margens do rio, expandi-la e desenvolver as atividades comerciais na região portuária, são responsáveis pela forma irregular que a cidade assume nesse momento, a partir da sua construção segundo uma melhor adaptação ao solo, seguindo um percurso que leva a um trajeto menos íngreme, mesmo que tortuoso.
Das ladeiras dessa capital destacam-se a de São Francisco e da Borborema, as mais extensas e que ligam as duas porções da cidade a partir de pontos referenciais: igreja de São Francisco e Largo da Matriz. Surgidos da necessidade de ligar o núcleo urbano à região portuária, algumas ladeiras nascem junto com o povoado, quando não passam de caminhos para esse fim. Assim, elas se tornam as principais responsáveis pelo abastecimento geral da cidade, posto que a comunicação externa é feita pelo rio Sanhauá, por onde chegam os suprimentos para as necessidades urbanas.
“RUA s.f. Espaço entre as casas, nas povoações, por onde se anda e passeia”195.
Inicialmente, nas povoações brasileiras, as ruas assumem quase que basicamente a função de percurso, ligando prédios e conformando caminhos de homens e animais segundo as condições topográficas mais adequadas. Na sua maioria, não são tidas como lugar de permanência, o que contribui para um movimento reduzido, principalmente à noite. Isso a diferencia do beco que, apesar de, por definição, também ser um lugar de passagem, constitue um ambiente mais propício a aglomerações e sociabilidades. Na antiga João Pessoa, esse perfil urbano pode ser percebido tanto nos relatos de viajantes ao longo do período colonial como na iconografia da cidade do século XIX, onde as ruas aparecem vazias ou, quando muito, com alguns homens, meninos e escravas.
Na passagem do século XIX para o XX, a cidade da Parahyba do Norte passa por transformações no sentido de modificação formal e de uso de algumas ruas, que passam a apresentar uma nova função no
1905- Ladeira das Pedras, depois rua do Consumo e da Carioca, atual rua Peregrino de Carvalho FONTE: Acervo Laudereida Marques.
194 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da Língua portugueza dos vocabulários impressos ate’ agora, e nessa segunda edição
novamente emendado, e muito accrescentado. Lisboa: Typographia Lacérdina, 1813.
195 VIEIRA, Frei Domingos. Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Língua Portugueza. Porto: Casa dos editores Ernesto
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Capítulo 2 - A cidade oitocentista: formas e usos dos espaços públicos espaço urbano. Algumas delas desenvolvem
a característica de local de permanência, principalmente as que passam a reunir atividades comerciais e de serviços, o que atrai a população em determinado período do dia, prolongando o tempo de fluxo dos usuários. Segundo essa nova configuração, a rua Maciel Pinheiro se consolida como ‘a rua do comércio’, tornando-se pioneira desse processo e apresentando, em seu trajeto, uma aparência inovadora da rua no contexto urbano.
As ruas adquirem uma nova importância plástica, onde suas formas, através do alinhamento, construção de calçadas, calçamentos, iluminação e, inclusive, da arquitetura, passam a ser elaboradas com o objetivo de expor coisas e pessoas. As edificações investem em um novo aspecto estético, de forma que a fachada da rua ganha crescente ênfase. Aumenta o interesse formal que ao longo da história se estabelece entre a cidade e as ruas, onde as edificações passam a ser parte constituinte das vias como elemento estético.
A partir do destaque gradativa e crescentemente delegado às edificações diante dos espaços públicos onde estão locadas, percebe-se a construção de uma identidade formal em diferentes ruas, de acordo com a arquitetura e atividades a que se destinam. Alguns exemplos, como as ruas Direita e Nova, tornam-se referência por sua arquitetura predominantemente residencial, com grande número de sobrados e algumas igrejas. Da mesma forma, as ruas Maciel Pinheiro e Convertidas também assumem uma identidade formal específica, promovida pelo conjunto de sobrados comerciais, inclusive apresentando a peculiaridade do sobrado de dois andares, na capital paraibana mais comum às
atividades comerciais. Já as ruas localizadas nos arredores da cidade assemelham-se pelo conjunto de casas térreas e casebres, bem como pelos seus poucos transeuntes.
1904 - Rua Direita, atual Duque de Caxias. FONTE: Acervo Walfredo Rodrigues.
1903 - Antiga rua do Comércio, no Varadouro, atual Marciel Pinheiro. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega
1870 - Antiga rua Imperatriz, atual da República. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega