Chapitre 1 : La mémoire
D. Potentialisation à long terme dans l’hippocampe
Quando pensamos na efervescência religiosa dos séculos XII e XIII, época que nos interessa, na intensa circulação de discursos e representações sociais, a idéia de magma, conforme proposta por Castoriadis,9 é pertinente, pois expõe a infinidade de interações e possibilidades do imaginário social. Assim, dentro de uma mesma sociedade, como poderíamos bem dizer, havia várias possibilidades de vivência religiosa concorrentes e, algumas delas, não excludentes. Ao mesmo tempo, é possível perceber o crescer de um discurso misógino que excluí ou segrega as mulheres em sua relação com o sagrado.
Essa discussão é muito bem conduzida por Caroline W. Bynum que identifica vozes nos séculos XII e XIII apoiando um maior envolvimento das mulheres com o sagrado e outras que viam nisso uma ameaça. Não é espanto constatar que as vozes de condenação partem de dentro da Igreja e se coadunam com a Cúpula da instituição que buscará suprimir todas as formas de vida religiosa fora da ortodoxia em permanente construção. Faz-se necessário enfatizar que ortodoxia e heresia são construções discursivas, já que a criação da heresia depende da força de implantação da ortodoxia. As mulheres, por exemplo, não são o único foco da reforma, longe disso até, mas são um dos seus alvos mais visíveis dentro das fontes da época. (BYNUM, 1982: 9-21)
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Para Castoriadis, “[...] um magma é aquilo de onde se podem extrair (ou: em que se podem construir) organizações conjuntistas em número indefinido, mas que não pode jamais ser reconstituído (idealmente) por composição conjuntista (finita ou infinita) destas organizações. [...] nossa colocação é de que tudo o que pode efetivamente ser dado – representações, natureza, significação – é segundo o modo de ser do magma [...]”. (CASTORIADIS, 1982: 388-389)
O que se desencadeava naquele momento é um processo de normatização, uma tecnologia de gênero, que tem vários eixos, sendo um deles a criação e imposição de um modelo binário de vida religiosa (público/privado, ação/contemplação, pregação/silêncio, vida no seculum/clausura) aos homens e mulheres. Não se trataria, portanto de buscar descobrir como se dá o processo de exclusão, pois ele nunca se estabeleceu totalmente, mas de como se constituíram os mecanismos de exclusão, tanto no plano discursivo quanto na vivência da prática religiosa, assim como se consolidaram as linhas mestras de um discurso anti-feminino e das resistências a este discurso, portanto, de como a Igreja, através de um discurso generizante constrói a religiosa, em um espaço limitado e feminino. Torna-se necessário:
[...] estabelecer as séries diversas, entrecruzadas, divergentes muitas vezes, mas não autônomas, que permitem circunscrever o ‘lugar’ do acontecimento, as margens de sua contingência, as condições de sua aparição. (FOUCAULT, 1996: 57)
Para nosso trabalho é muito mais importante perceber a emergência, as condições de aparição, desse discurso misógino, compreender que ele não é unificado e mantém uma intensa interdiscursividade,10 pois se constrói através do diálogo e retomada de fontes bem variadas e que podem ir desde a Bíblia a Aristóteles ou aos discursos médicos de então. Assim, poderemos compreender o quanto a misoginia, que se desenvolve no século XIII, foi fundamental para limitar a prática da espiritualidade feminina, ajudando a criar uma “natureza” feminina no religioso.
Sabemos da importância do desenvolvimento de pesquisas em Idade Média dentro do campo de Estudos Feministas, pois é uma área praticamente inexplorada. E, claro, nossas condições de produção são fundamentais nas escolhas que fazemos e isso não é desdouro. Sendo historiadora feminista e medievalista, tomo para mim esta tarefa, sabendo que o que confere à História um balizamento e caráter científico é exatamente a existência de métodos e teorias norteadoras, e, em tempos pós-modernos, na exposição por parte da pesquisadora, dos caminhos que escolheu seguir, das exclusões que fez, enfim das suas próprias condições de produção, da construção, enfim, de seu objeto.
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O interdiscurso é o dizível, aquele conjunto de discursos que são convocados a testemunhar, confirmar e referendar o que é dito. Segundo o dicionário de Análise do Discurso, interdiscurso seria “[...] o conjunto das unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mesmo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros etc.) com os quais o discurso particular entra em relação implícita ou explícita.”. (CHARADEAU, MAINGUENEAU, 2004: 286)
Como medievalista, posso afirmar, sem medo de errar, que, em nosso país, há um número ainda limitado de trabalhos publicados sobre o tema abordando o estudo das mulheres, seja em uma perspectiva de gênero, seja em uma perspectiva especificamente feminista. 11 Começa-se a falar muito em gênero hoje na área de Estudos Medievais, é verdade, mas a abordagem ainda é muito tímida.
Os estudos em Idade Média numa perspectiva feminista abrem-se para a descoberta de um humano múltiplo, em relações marcadas pela diversidade de funções e atividades, em recortes que contemplem, talvez, períodos que não encerravam os sujeitos políticos em armaduras de gênero em um fazer historiográfico que busca desvelar as possibilidades históricas, mostrando através das fontes e apoiadas solidamente na teoria que nem sempre foi assim e que a organização binária de mundo, plenamente instituída em nosso regime de verdade, nem sempre existiu da forma como nos é representado.
Infelizmente, em nossos dias, muitos medievalistas ainda se agarram aos critérios de cientificidade, que abordamos na primeira parte deste capítulo, para justificarem seu lugar na Academia. Para muitos, trazer os paradigmas pós-modernos – tais como o lugar de fala, a instabilidade dos conceitos, e a impossibilidade de alcançar o passado como este realmente ocorreu, pois somente temos acesso aos discursos mediadores – para o campo dos estudos medievais, seria correr um risco de perda de legitimidade e cientificidade. Desta forma, mesmo hoje, com o grande número de trabalhos apresentados em congressos com mesas temáticas centradas na questão de gênero, ainda carecemos muito da reflexão teórica que torna o uso desta categoria menos descritiva e mais crítica. É como se dentro dos estudos medievais o gênero já tivesse nascido anestesiado e sem força política.
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Consideramos que o uso da categoria gênero não caracteriza um trabalho como feminista, mesmo que tal categoria tenha sido construída academicamente dentro da epistemologia feminista. Algo que ilustra bem a questão é o livro Os Estudos Medievais no Brasil – Catálogo de Dissertações e Teses: Filosofia, História e letras (1990-2002). Organizado pelo professor José Rivair de Macedo, a obra mostra que dentre os trezentos e trinta e três trabalhos defendidos no Brasil em um período de doze anos somente vinte e cinco trazem a palavra “mulher” em seu resumo de apresentação. Mesmo que outras palavras possam remeter ao feminino, palavra que, aliás, não consta catalogada, tais como fadas (cinco menções), Eva (uma menção), Maria Madalena (uma menção), bruxaria (uma menção), casamento (sete menções), rainhas (quatro menções), não raramente se fazem presentes nos mesmos resumos onde aparece o termo mulher. Mesmo que acreditemos que outras dissertações e teses possam ter sido defendidas no período de 2003-2005, não seria incorreto dizer que foi atestado o “pouco interesse” pelo estudo das mulheres ou de gênero por parte das pesquisadoras e pesquisadores de Idade Média em nosso país.
Se essa é a postura de uma parte considerável dos historiadores e historiadoras, o que só demonstra a sua filiação ao paradigma iluminista, não representa o discurso das fontes que mostram, nos seus ditos e silêncios, a intensa participação feminina, a multiplicidade de papéis exercidos pelas mulheres, a não regularidade de papéis sociais, mas, também, os assujeitamentos e a tentativa de regulamentação do feminino pelos poderes e discursos masculinos.
Nesse sentido, acreditamos que o campo de estudos medievais e feministas podem se encontrar. Não há nenhum impasse, mas a possibilidade de produção de trabalhos que desestabilizem evidências e estereótipos retomados e repetidos ao longo dos séculos. É preciso discutir como se construíram no discurso eclesiástico, universitário e médico os espaços masculino e feminino no período medieval. Efetivamente, não podemos continuar repetindo que as identidades eram estáveis e que os papéis sociais a serem desempenhados, estáticos, naturais. Afinal, temos acesso às fontes e não podemos deixar que somente o cinema e a literatura alimentem o imaginário sobre as mulheres na Idade Média.
Nossa proposta de trabalho é discutir a constituição de um movimento religioso feminino no século XIII, o franciscano, e a construção de uma espiritualidade feminina em um momento no qual a Igreja destila normas, preceitos, interditos – tecnologias de gênero – instituindo o masculino e feminino de forma hierárquica e assimétrica. Um discurso que reforça a ordem patriarcal na Igreja, pois:
A assimetria entre os sexos terá que ser dita, explícita e institucionalizada para que a potência masculina seja afirmada. A ordem se mantém se seus símbolos se estratificam e se dispersam nas intenções do poder. (CASTRO, 2004: 174)
Nosso objeto responde a esta problematização na medida em que muitas das relações que foram estabelecidas historicamente, hoje se encontram legitimadas no imaginário social como “naturais”, a tal ponto que mesmo algumas historiadoras e historiadores, que discutem a História da Igreja, pouco falam da atuação das mulheres, ou, simplesmente, atribuem a estas um papel passivo e excluído das grandes decisões de poder. A discussão historiográfica, no início deste primeiro capítulo, buscou clarificar essa questão, oferecendo exemplos relevantes desse tipo de pensamento. Nosso interesse, portanto, é historicizar, desconstruir e discutir a questão seguindo a epistemologia feminista, e não simplesmente fazer “estudos de gênero”. Acreditamos que podemos ir além e nos empenharemos nisso.
Como não seria possível abarcar em um único trabalho toda a diversidade dos movimentos de mulheres no século XIII, pretendo abordar com mais atenção somente a Segunda Ordem Franciscana, apoiando-nos em várias séries de documentos que incluem historiografia, hagiografias, regras canônicas e formas de vida, bulas, testamentos e cartas. As diferentes condições de produção destes discursos devem aparecer nos valores e representações sociais que fazem emergir, construindo relações e práticas sociais e sendo por estas construídos.
Escolhemos o caso das Franciscanas, ou Clarissas, por vários motivos: em primeiro lugar, porque o consideramos como modelar das várias tensões às quais eram submetidas as mulheres que desejavam viver intensamente a nova espiritualidade inspirada no Novo Testamento, a chamada vita vera apostólica. Segundo, porque estando na Península Itálica, as Clarissas sofreram grande pressão, em virtude da proximidade com a Cúria Papal, que se ocupou, especialmente, como veremos, do caso franciscano para que este servisse de exemplo aos demais. Terceiro, porque apesar dos vários conflitos, as Franciscanas conseguiram permanecer dentro da estrutura da Igreja, ao contrário de outros grupos, como as beguinas, por exemplo. E, por último, porque dispomos de um grande número de fontes que tratam direta ou indiretamente das mulheres do movimento franciscano.
Desse modo, nosso estudo tem como ponto de partida a construção e vivência de uma espiritualidade feminina, em especial Franciscana, em um momento de implantação de uma ortodoxia, marcada pela misoginia e pela prática da exclusão das mulheres.12 Nesta tarefa buscaremos desvelar a vida das Clarissas nos primeiros anos do mosteiro de São Damião, o protomosteiro da Segunda Ordem Franciscana, e sua relação com a Igreja Romana no século XIII.
Nossos marcos temporais são os anos de 1212 e 1255. Consideramos este período como fundamental para o estudo dos primeiros passos da vida religiosa feminina Franciscana, assim como da própria ordem como um todo. O ano de 1212 é o da entrada de Clara de Assis na vida religiosa e ponto de início, pelo menos de acordo com as fontes, da organização do grupo de seguidoras dos ideais Franciscanos. Já o ano de 1255 marca a canonização de Clara e, o reconhecimento de sua obra pela instituição eclesiástica, a domesticação e incorporação de sua
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O “medo das mulheres” foi muito alimentado ao longo da Idade Média e se tornou mais presente nos textos e práticas sociais a partir do século XIII. (DELUMEAU, 1989: 314)
vida aos padrões de espiritualidade estabelecidos discursivamente pela Igreja Romana para as mulheres.