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Chapitre 4 : La mémoire épisodique

A. Modèle de blocage de la neurogenèse adulte

A noção de ethos é discutida por Oswald Ducrot como uma ilustração das distinções categóricas que estabelece ao esboçar uma teoria polifônica da enunciação (1987). Nesse texto, Ducrot contesta o postulado de unicidade do sujeito falante, adotado pela maioria das abordagens da linguística moderna, a qual “vê o sujeito como a origem dos atos ilocutórios produzidos por intermédio do enunciado e, finalmente, acredita poder identificá-lo apenas pelas marcas de primeira pessoa” (Flores e Teixeira, 2005, p. 64). Segundo Ducrot, o sujeito surge como uma representação no sentido do enunciado, podendo a enunciação ser atribuída a um ou mais sujeitos.

É nesse contexto teórico que Ducrot propõe a distinção entre locutor e enunciador. O locutor é um “ser de discurso” a quem se deve imputar a responsabilidade pelo enunciado, por ser, no próprio sentido do enunciado, apresentado como tal. É a ele, que não se confunde com o autor empírico, que remetem as marcas da primeira pessoa do singular. Um enunciado pode ter mais de um locutor, como no caso do discurso relatado em estilo direto. Exemplifiquemos com os textos do corpus, que serão apresentados detalhadamente no capítulo 3. Os seis pronunciamentos feitos pelo Presidente Lula, com a possível exceção de um deles, foram proferidos com base em textos previamente preparados por equipes de assessores. Não há como estabelecer, com base apenas nas versões finais divulgadas publicamente, a participação efetiva, na elaboração do texto, de cada um dos autores empíricos, inclusive a do próprio Presidente Lula, como responsável final pelo texto. Pode-se supor, com grande segurança, que a autoria dos textos foi coletiva. Contudo, cada pronunciamento, em seu conjunto, teve um locutor: o Presidente Lula, a quem se deve atribuir a responsabilidade pelo que foi pronunciado. Isso não exclui a existência pontual de outros locutores, como no trecho a seguir, em que as duas frases finais, entre aspas, trazem a marca de outro locutor:

Quero agradecer, aqui, aos companheiros dirigentes do Fórum, aos Ministros, mas, sobretudo, quero agradecer ao povo do mundo inteiro que, sem medir sacrifício, veio aqui, às vezes sem ter o direito de falar, às vezes sem ter

oportunidade de falar, mas veio aqui só para dizer: “Eu existo, como ser humano. E eu quero ser respeitado como tal.” (Anexo I, parágrafo 8)

Se, para a identificação dos locutores nos enunciados, há marcas relativamente nítidas, o mesmo não se pode afirmar acerca da presença dos enunciadores no discurso, aos quais correspondem vozes que, muitas vezes, não são as de um locutor. Sem aprofundar o desenvolvimento da noção, que não nos interessa particularmente nesta apresentação, registremos apenas a definição oferecida por Ducrot:

Chamo “enunciadores” estes seres que são considerados como se expressando através da enunciação, sem que para tanto se atribuam palavras precisas; se eles “falam” é somente no sentido em que a enunciação é vista como expressando seu ponto de vista, sua posição, sua atitude, mas não, no sentido material do termo, suas palavras. (Ducrot, 1987, p. 192).

Com vistas ao exame do conceito de ethos na Pragmática Semântica, devemos voltar à noção de locutor (ser do discurso), que se distingue, como se viu, do sujeito falante (ser empírico). Ducrot propõe distinguir, no âmbito da noção de locutor, o “locutor enquanto tal”, isto é, como fonte de enunciação (por abreviação “L”) e o locutor como ser do mundo (“λ”):

L é o responsável pela enunciação, considerado unicamente enquanto tendo esta propriedade. λ é uma pessoa “completa”, que possui, entre outras propriedades, a de ser a origem do enunciado – o que não impede que L e λ sejam seres do discurso, constituídos no sentido do enunciado, e cujo estatuto metodológico é, pois, totalmente diferente daquele do sujeito falante (este último deve-se a uma representação “externa” da fala estranha àquela que é veiculada pelo enunciado). (Ducrot, 1987, p. 188).

Estabelecida esta distinção terminológica, Ducrot propõe associar o ethos a L, ao locutor como tal, como fonte da enunciação. O ethos, a imagem favorável que o locutor procura construir de si mesmo, com vistas a seduzir o ouvinte e captar sua benevolência, deve fundar-se no modo como a atividade oratória é exercida, e não no que o orador pode dizer de si mesmo. Assim, seria o locutor L que captaria essa imagem favorável, pela “aparência que lhe conferem a fluência, a entonação, calorosa ou severa, a escolha das palavras, os argumentos” (id. ib., p. 189), traços que caracterizariam aquele modo. Ao outro componente mais abrangente do locutor, o λ, que o considera como ser do mundo, caberia aquilo que o locutor pudesse falar de si.

Na minha terminologia, direi que o ethos está ligado a L, o locutor enquanto tal: é enquanto fonte da enunciação que ele se vê dotado de certos caracteres que, por contraponto, tornam esta enunciação aceitável ou desagradável. O que o orador poderia dizer de si, enquanto objeto da enunciação, diz, em contrapartida, respeito a λ, o ser do mundo, e não é este que está em questão na parte da retórica de que falo (a distância entre estes dois aspectos do locutor é particularmente sensível quando L ganha a benevolência de seu público pelo próprio modo como humilha λ: virtude da autocrítica). (Ducrot, 1987, p. 189).

A distinção nítida entre o locutor e o autor empírico proposta pela Pragmática Semântica representa um avanço teórico em relação à proposta da Nova Retórica, na

medida em que, no momento da enunciação, não permite mais a confusão entre o locutor e a “pessoa do orador”. O locutor “λ”, que deve ser tomado como um construto discursivo, não se confunde com o ser empírico. Em lugar de dizer que “a vida do locutor” é um preâmbulo ao discurso, pode-se afirmar que o locutor “λ” é construído por discursos que precederam a enunciação em que ele se insere.

A aplicação das distinções propostas por Ducrot permite uma descrição bastante técnica do ethos, tomado estritamente como modo de alocução apropriado para tornar o discurso mais atraente e agradável para o auditório. Acreditamos que, a esta forma de considerar a construção de imagem de si no discurso, fiel ao conceito clássico, poderia somar-se um componente de caráter mais discursivo – e mesmo ideológico – que ajudaria a compor a imagem do locutor. Tomemos um exemplo, que pode ajudar a refletir sobre ampliação dessa noção: em um pronunciamento político sobre tema grave – a guerra, por exemplo – o locutor vale-se reiteradamente do imaginário cristão e da linguagem litúrgica. Ora, não se pode dizer que os efeitos de sentido desse aspecto discurso sobre a imagem do locutor se esgotem no locutor “L”. Eles depõem, sim, sobre o “caráter” do locutor “λ”, sem que este seja o objeto do enunciado. Não se trata aqui de tornar a enunciação “aceitável ou desagradável”, como propõe Ducrot, mas de agregar atributos ao “ser do discurso” que é o locutor, por meio daquilo que ele não diz explicitamente sobre si mesmo, mas mostra pelas palavras e argumentos que escolheu usar. Neste ponto, pode-se dizer que se aproximam as duas acepções da palavra ethos, a imagem que o locutor tenta projetar de si mesmo se confunde com as virtudes e atributos morais que o discurso deixa entrever.

A concepção de ethos que se depreende do trecho de Ducrot, ao mesmo tempo em que amplia as formas e os modos de projeção da imagem do locutor no discurso, restringe, de certa maneira, seus efeitos. Ela poderá ser mais produtiva se aceitar a multiplicidade de sentidos que, a propósito do locutor, o enunciado pode trazer, ampliando as consequências analíticas da teoria polifônica da enunciação. Esta tarefa, obviamente, é interdisciplinar e requer, a nosso ver, a incorporação de elementos analíticos de natureza discursiva.