Théorie des tendances motivationnelles : VALLERAND 1994 Deux orientations « primaires »
3.5. ANALYSE TRIANGULAIRE
4.1.1. POSTULAT D’EXPLICATION
De acordo com Gonzaléz52 existem pressupostos fundamentais que permitem avaliar com sucesso o sofrimento espiritual, dos quais passo a descrever: a importância dos técnicos de saúde disporem de um modelo que lhes permita detectar (screening), diagnosticar, avaliar, intervir, abordar e atender as necessidades espirituais dos doentes e suas famílias, independentemente dos seus valores, ideais e crenças; saber respeitar as prioridades estipuladas pelos doentes, no que concerne aos temas espirituais e sua variação temporal, sobretudo durante o seu processo de final de vida; e necessidade de perguntarmos quem pode acompanhar o doente, para que este possa satisfazer as suas necessidades espirituais, com possibilidade de delinear um plano de actuação a este nível.
Como resposta a estes pressupostos e no que respeita ao primeiro item referido, leia-se, importância dos técnicos de saúde disporem de um referencial teórico que lhes
permita atender às necessidades espirituais do doente, surgem alguns modelos passíveis de ser implementados.
Em primeira instância, menciono o Modelo de Ameaças/Recursos100, baseado nos trabalhos desenvolvidos por Lazarus & Folkman71, o qual se poderá implementar adquirindo formação apropriada nas mais diversas realidades, isto é, tanto dispondo de uma equipa interdisciplinar de Cuidados Paliativos, como reportando-nos à actuação de um médico de família, ou mesmo, perante o facto dos profissionais de saúde serem crentes, agnósticos ou ateus. Segundo este modelo, quem delimita e estabelece a ordem de prioridade dos seus objectivos e necessidades (cognitivas, emocionais, somáticas, económicas, sociais ou espirituais) sem que o profissional de saúde tenha que postular, necessariamente, a existência de uma componente de transcendência no seio de cada pessoa, é o próprio doente.
Este modelo pode servir de guia para uma intervenção terapêutica com doentes graves ou em situação de fim de vida. Defende que um estímulo, estado ou experiência vivenciada pela pessoa, quer tenha origem no seu próprio funcionamento biológico (por ex. dor, dispneia, fadiga, etc.), ou preceda de aspectos do foro psicossocial ou biológico (por ex. solidão, marginalização, perda de auto-estima, medo, culpa, desesperança, etc.), podem ser percebidos por essa pessoa como uma ameaça significativa para a sua integridade física ou emocional. Perante tal ameaça, o sujeito avalia os recursos que considera ter disponíveis (sejam eles de saúde, afectivos, cognitivos, espirituais, etc.), fazendo uma ponderação da sua validade e eficácia. Se a pessoa se sente impotente ou indefesa frente à ameaça, tendencialmente esta será geradora de sofrimento.
O sofrimento a que nos referimos poderá amplificar a intensidade ou presença do sintoma, estado ou situação ameaçadora, despoletando a percepção de falta de controlo, e consequentemente, aumento do sofrimento, criando-se aqui um ciclo vicioso importante. Por outro lado, este sofrimento não ocorre no vazio, sendo frequente que se “instale” em pessoas
que apresentem um estado de ânimo abaixo do nível. Assim, se a pessoa já é ansiosa ou depressiva, potenciá-lo-á, se não o é mas o sofrimento persiste no tempo, pode facilmente transitar de um estado de ânimo de serenidade para ansiedade, depressão ou ira. O objectivo deste modelo será diminuir a ameaça, utilizando como instrumento central a comunicação. Puchalski, et al.86 falam-nos de um outro modelo - Modelo de Cuidados Espirituais, cujos pilares assentam em duas ferramentas essenciais: a presença compassiva e os cuidados centrados nas relações. Este pressupõe que o cuidar espiritual abarca duas vertentes fundamentais. Por um lado, um aspecto intrínseco de cuidados que implica compassividade e altruísmo, sendo um importante demonstrativo de profissionalismo por parte dos técnicos de saúde, por outro, os cuidados espirituais extrínsecos, intimamente relacionados com os aspectos comunicacionais utilizados com os pacientes acerca dos seus problemas espirituais, reconhecimento de presença ou ausência de angústia espiritual, conflitos, recursos, crenças e práticas que impreterivelmente causarão impacto na sua saúde.
Barbosa7 fala-nos do Modelo Multidimensional da Espiritualidade, capaz de avaliar a dimensão espiritual. Tomando por base este referencial, o processo de avaliação passa por percorrer sistematicamente cada uma das quatro áreas que integra: reconciliação existencial (que pressupõe a busca de uma nova relação e sentimento de pertença), propósito existencial (busca de sentido e esperança realista), plenitude existencial (onde se enquadra a restauração do self e a renovação do eu, sendo o foco, a tomada de consciência de si), e transcendência (que compreende o sentimento de estar ligado e/ou conectado e o estabelecimento de uma relação de confiança). Todas elas se entrecruzam, resultando da intersecção de três dimensões fundamentais: o outro, o self e o cosmos. Dessa intersecção, resulta o núcleo de serenidade ou “estar em paz”, que designamos por conforto espiritual.
Para terminar, o mesmo autor considera fundamental a existência de uma síntese da avaliação espiritual no sentido de confirmar ou infirmar o encontro com a serenidade/conforto espiritual
por parte do paciente. Defende que, no início desta avaliação, o profissional ao perguntar “O que o faz sentir-se bem/mal espiritualmente?”, poderá verificar qual o balanço existencial realizado pelo doente, despistando três pontos essenciais: postura assumida quanto às conquistas da vida, capacidade de desfrutar da mesma e de efectuar mudanças no seu decurso. No final, fazendo recurso à pergunta-chave - “Sente-se em paz?”, poderá encontrar afirmações indicativas de qual o seu balanço existencial.
A meu ver, os modelos anteriormente descritos tocam em aspectos fundamentais, uns transversais, outros, complementares entre si. Entre eles, realço a formação dos técnicos, considerando ser fundamental acrescer a esta formação de cariz teórico-prático, cursos de desenvolvimento pessoal onde seja possível ao profissional/pessoa reflectir e abordar aspectos experienciais relacionados com os cuidados dirigidos ao doente em final de vida e suas famílias, mas também, com o seu próprio percurso vital e concomitantes vivências. Outro aspecto a evidenciar, será assumirmos o doente e família como núcleo central da nossa actuação, defendendo o princípio de serem eles a priorizar os seus objectivos e necessidades. Ao defender a prestação de cuidados centrada nas relações, não deveremos negligenciar o instrumento central da nossa actuação - a comunicação, tanto com o doente e família, como entre profissionais, em especial, entre os vários membros da equipa interdisciplinar, como forma de potenciar e assegurar ao paciente e família, o acesso a um plano compassivo mais abrangente de tratamento e cuidados.
Apesar da multiplicidade de estudos e investigações desenvolvidos neste âmbito e de haver algumas nuances que, como vimos, poderão não ser consensuais, penso ser unânime que a excelência na qualidade dos cuidados, passará e dependerá da fidelidade a um modelo de cuidados bio-psico-sociais e espirituais, a ser praticado por todos os membros da equipa prestadora de cuidados.