Chapitre 1. Théories, approches et concepts sur les personnes aînées, milieux urbains et
1.1. Regard sur les personnes aînées d’une perspective de gérontologie sociale
1.1.3. Perspectives critiques du vieillissement et de l’interaction avec le milieu
Nenhum domínio se contenta simplesmente com a obediência que não passar de respeito, oportunidade ou submissão. Para exercê-lo, ou seja, para liderar é necessário também despertar a fé na legitimidade do domínio, ou seja, transformar a adesão em algo justificado, fundamentado, autêntico. As fontes ou o princípio de legitimidade podem variar de acordo com o cabedal acionado. Dentre os tipos de autoridade que rondam o espiritismo, podemos começar com aquela que escolhi nomear de autoridade institucional.
A autoridade institucional consiste, de forma geral, em um tipo de autoridade racional-legal que apoia boa parte de sua legitimidade em uma posição ou cargo ou posto institucional ocupado pelo agente. Nesse caso, os portadores são, no mais das vezes, agentes que de algum modo se engajaram na criação ou na manutenção de instituições espíritas e através delas se tornaram conhecidos no meio. Podem ser designados de forma genérica pelos termos de “trabalhadores espíritas”, “divulgadores
espíritas” ou, mais frequentemente, “dirigentes espíritas” – terminologias correntes na
linguagem êmica. A autoridade institucional baseia-se em geral na ideia de que os pactos ou imposições diretivas e/ou organizacionais elaborados por esses agentes são estatuídos, de um lado, de forma racional, visando ao melhor desempenho da instituição, no sentido de estruturar e expandir a doutrina e as práticas espíritas, e de outro, têm a pretensão de serem respeitados, no caso das federações, entre os centros federados, mas também entre os demais centros e demais espíritas. Os agentes portadores desse tipo de autoridade, enquanto ordenam e, com isso, mandam, obedecem por sua vez à ordem impessoal pela qual orientam suas disposições. Em outras palavras, a sua autoridade tem por fundamento a crença na validade dos regulamentos estabelecidos e na legitimidade do posto de chefia designado nos termos da instituição.
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Esses agentes não são donos de seus cargos, tampouco dos meios de administração, embora tenham liberdade, ainda que limitada, para tomar decisões pautadas em crenças particulares. São geralmente protegidos e regulados no exercício de suas funções por um estatuto.
As suas ações diante das instituições que representam ou fundaram muitas vezes vieram (ou vêm) acompanhadas da criação de revistas ou jornais, ou seja, de instrumentos adequados à organização, transmissão e inculcação de um modo determinado de compreender a doutrina. E se é verdade o fato de muitos deles terem dirigido periódicos, publicado livros ou traduzido obras espíritas estrangeiras, o que caracteriza, ao fim e ao cabo e prioritariamente falando, a forma de atuação desses agentes é a sua posição à frente de alguma instituição, sempre no sentido de fazer avançar a fé espírita. Pois, ainda que esse tipo de clérigo desenvolva estratégias pessoais para valorizar a sua situação no meio, lançando mão muitas vezes de habilidades e competências adquiridas ao longo de uma trajetória social relativamente privilegiada e reconhecida, ele continua marcadamente ligado à instituição que lhe oferece a estrutura organizacional, os códigos, o espaço, a legitimação de suas ações. Por outro lado, não podemos negar que suas estratégias pessoais rendem à instituição um pouco de seu prestígio. Tudo se passa como se houvesse uma transmutação, uma espécie de troca de capitais – troca, aliás, importante para a constituição e legitimação do próprio espiritismo em solo brasileiro – entre a posição social que o dirigente espírita se encontra na sociedade e o cargo que ele ocupa na malha de instituições espíritas.
O comerciante Leopoldo Cirne, o advogado e jornalista Aristide Spínola, o político, literato e também advogado Leôncio Correia, o médico Militão Pacheco, o jornalista e engenheiro Guillon Ribeiro e o farmacêutico Wantuil de Freitas são alguns exemplos de dirigentes espíritas que, dotados de certa autoridade institucional, contribuíram para a criação ou para a manutenção das instituições que encabeçaram, não sem antes contar com adversários e cúmplices na tarefa abraçada. Oriundos de camadas socialmente privilegiadas, esses atores puderam conferir à instituição ou às suas tomadas de posição um peso importante. Por outro lado, boa parte das energias que dispensaram no sentido de imprimir sua forma particular de encarar as ideias espíritas só foi realmente reconhecida ou acatada, o que dá no mesmo, principalmente pelo fato de ocuparem um posto diretivo.
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Lembro aqui dois casos emblemáticos de personagens que, dotados de autoridade institucional, lançaram mão de sua condição para dar novos rumos ao movimento espírita brasileiro. O primeiro deles tem a ver com a imposição dos estudos da obra do advogado bordelês Jean-Baptiste Roustaing ao lado dos estudos da obra de Allan Kardec, imposição que gerou tensões entre adeptos e opositores; enquanto uns defendiam ferrenhamente as teses roustainguistas, outros nutriam certa ojeriza por elas. O segundo caso trata-se do polêmico episódio em torno do então denominado Pacto Áureo e da consequente criação de um Conselho Federativo Nacional (CFN). No primeiro caso, presenciamos um conflito doutrinário que colocou em questão as diversas (e divergentes) concepções espíritas, na tentativa de uniformizar as crenças; no segundo, pudemos observar a constituição de um acordo institucional com vistas à centralização do comando espírita. Ambos os casos só foram possíveis porque contaram com a intensa atuação de dirigentes espíritas que sem dúvida souberam valer-se de todo um cabedal de forças e de autoridade de que gozavam para levar a cabo os seus projetos. O princípio da legitimidade de suas ações provinha do posto diretivo que ocupavam.
Os adeptos das ideias roustainguistas se concentraram em sua maioria na direção da FEB. Guillon Ribeiro, por exemplo, que encabeçou a instituição por aproximadamente 13 anos, foi um dos principais tradutores dos quatro volumes escritos por Roustaing, criando, inclusive, toda uma estrutura de índices para facilitar o acesso ao conteúdo da obra. Lembrando que foi dele também a iniciativa de construir uma oficina tipográfica própria, para a impressão do Reformador e de obras de propaganda, o que certamente facilitou o processo de expansão das ideias espíritas defendidas particularmente pelos dirigentes da FEB. Wantuil de Freitas, seu sucessor e a quem coube a presidência da FEB por mais de 27 anos consecutivos, defendeu igualmente e por inúmeras vezes as teses roustainguistas, principalmente através das páginas do
Reformador. A propósito, Wantuil de Freitas também exerceu papel fundamental no
imbróglio que resultou na assinatura do Pacto Áureo, como mostrei em capítulo anterior. Os seus críticos, à época, questionaram o modo pelo qual o pacto foi apresentado e aprovado – em reunião de apenas alguns dirigentes, sem que tivessem havido uma maior discussão e uma aprovação pelas bases – na ocasião em que o II
Congresso Pan-americano reunia as lideranças do movimento espírita na então Capital
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propostas originais, a posição diretiva de Wantuil de Freitas permitiu o acatamento de boa parte dos espíritas, sobretudo em relação à resolução de criar um Conselho
Federativo Nacional que pretendia exercer, entre outras, a função de dirimir dúvidas,
orientar o movimento espírita e recomendar normas e diretrizes para os centros – o CFN, que seria sediado na FEB.
É possível encontrar no cenário espírita outros casos de atuação que giraram em torno da manutenção ou da atualização da doutrina espírita tendo como fonte de legitimidade (sem se esgotar apenas nela, obviamente) a posição institucional ocupada. Autores de uma produção literária relativamente extensa, pelo menos no que diz respeito à quantidade de livros publicados, encontramos exemplos como os do educador Pedro de Camargo (conhecido como Vinícius), o farmacêutico e político Cairbar Schutel, o educador, político e jornalista Eurípedes Barsanulfo, a educadora Anália Franco e o advogado e farmacêutico Canuto de Abreu. A produção desse conjunto de atores, embora extensa, não se tornou relevante ou não teve um grande alcance no meio espírita a ponto de identificar esses autores única ou exclusivamente pela sua produção literária, mas foi suficiente, por outro lado, para agregar a essas figuras um capital importante de legitimidade. O seu reconhecimento, contudo, acabou ficando muito mais atrelado ao comando das instituições a que pertenceram ou criaram. Cairbar Schutel pode ser lembrado aqui como ilustração. Embora tenha escrito uma série de livros, suas atividades em prol da expansão do espiritismo, com a criação de uma estrutura editorial através da fundação da Editora O Clarim e da Revista Internacional do Espiritismo, e com a fundação do Centro Espírita Amantes da Pobreza, instituição que serviu de referência para o interior de São Paulo, nos ajudam a compreender que sua autoridade não pode ser analisada independentemente da função burocrático-organizacional que exerceu ao longo de sua trajetória espírita. Vinícius, ou Pedro de Camargo, também entra nesse rol. Autor de alguns livros, o seu papel no meio espírita não pode ser lido se ignorarmos as instituições a que pertenceu e os cargos que ocupou. Os arranjos institucionais que ajudou a construir no decurso de sua dedicação ao espiritismo só foram reconhecidos ou acatados em boa medida porque vieram de alguém que ocupava um posto institucional importante.
De modo geral, portanto, muitos dos personagens que são portadores desse tipo de autoridade institucional apresentaram ao longo de sua trajetória um traquejo específico que contribuiu para o adensamento e o fortalecimento da malha institucional
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espírita, fosse no sentido de conduzirem um centro espírita ou uma organização burocrática espírita, fosse na articulação de alianças entre as mais diversas instituições espíritas, fosse na luta ou no diálogo com outros domínios sociais (o jurídico, por exemplo), fosse na disputa religiosa contra outras religiões ou contra facções do mesmo segmento, fosse, enfim, no relacionamento com o Estado e com suas forças repressivas. E foi desse traquejo, ou seja, de suas competências específicas que retiraram parte de sua autoridade. A função e o status que angariaram, no entanto, puderam naturalmente se mesclar com outras funções ou atividades ao mesmo tempo, mas os cargos ocupados não podem deixar de ser considerados o traço ou a fonte principal de sua autoridade.