H. INFORMATIONS COMPLEMENTAIRES
1. PERSONNES RESPONSABLES
A OMS define saúde como um completo estado de bem-estar físico, mental e social e não apenas ausência de doença. Porém, políticas de saúde sempre priorizaram o controle de morbidade e mortalidade. Atualmente, observa-se crescente preocupação com a frequência e a gravidade das doenças, e com medidas de percepção de saúde e de disfunção/status funcional (VIEIRA, 2010).
O objetivo da ação pela saúde é fazer com que, sob condições favoráveis, possa se promover a saúde. As propostas de promoção da saúde, apresentadas na Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, 1986, colocava a saúde como elemento importante no conjunto de condições indispensáveis à QV. Nesse momento superava-se o conceito estático de saúde, exclusivamente sanitário e de ausência de enfermidade. As estratégias de promoção voltam-se para estilos de vida, condições sociais, econômicas e ambientais que determinam a saúde e, de forma mais ampla, a QV (SOUZA; CARVALHO, 2003).
QV e padrão de vida foram objetos de estudo, inicialmente de cientistas sociais, filósofos e políticos (FLECK et al., 1999). Para a ampliação do conceito foram agregados aspectos objetivos e subjetivos, tais como o desenvolvimento socioeconômico, a percepção individual e valorização da opinião do indivíduo com relação à sua vida (PASCHOAL, 2000).
A OMS define QV como percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Multifatorial, engloba fatores como: saúde física, psicológica, nível de independência (em aspectos de mobilidade, atividades diárias, dependência de medicamentos e cuidados médicos, e capacidade laboral), relações sociais e meio ambiente (WHO, 1996).
Existe ainda a expressão QV relacionada à saúde (QVRS), definida como o valor atribuído à vida ponderado pelas deteriorações funcionais, percepções e condições sociais induzidas pela doença, agravos e tratamentos, e a organização política e econômica do sistema assistencial. A versão inglesa do conceito, health- related quality of life (HRQL), é similar: valor atribuído à duração da vida quando
modificada pela percepção de limitações físicas, psicológicas, funções sociais e oportunidades influenciadas pela doença, tratamento e outros agravos, tornando-se o principal indicador para a pesquisa avaliativa sobre o resultado de intervenções (GIANCHELLO, 1996).
Percebe-se que o conceito de QV, refere-se a um movimento dentro das ciências humanas e biológicas no sentido de valorizar parâmetros mais amplos que o controle de sintomas, diminuição da mortalidade ou aumento da expectativa de vida (QUEK; PENSON, 2005).
Fleck et al. (1999) apontam a oncologia como a especialidade que, por excelência, se viu confrontada com a necessidade de avaliar as condições de vida dos pacientes que tinham sua sobrevida aumentada devido aos tratamentos realizados, já que, muitas vezes, na busca de acrescentar anos à vida, era deixada de lado a necessidade de acrescentar vida aos anos.
A fim de otimizar recursos disponíveis para melhorar os diferentes aspectos da QV no sistema de saúde, a relação entre QV e pacientes com câncer tem sido estudada abrangendo diferentes temas, tratamentos para a doença, controle de problemas, de sintomas e comorbidades. Outro interesse está diretamente ligado às práticas assistenciais dos serviços de saúde que tem a QV como indicador nos julgamentos clínicos de doenças específicas, nas decisões de condutas terapêuticas das equipes de saúde, além da avaliação do impacto físico e psicossocial (BERTAN; CASTRO, 2009).
É frequente aparecimento de transtornos psicológicos após o diagnóstico de doenças graves como o câncer. Para que os pacientes consigam obter bom índice de QV é importante que seu estado emocional, embora abalado, se mantenha saudável (VIEIRA, 2010).
No caso do CaP, avaliar a QV após o diagnóstico e tratamento deve considerar as repercussões psicológicas, a forma como o sujeito se adapta às funções urinárias e sexual que, eventualmente são comprometidas pelo tratamento, mudanças na percepção de si mesmo, potencialidades, persistência de incertezas sobre seu câncer e sua escolha terapêutica (KORFAGE et al., 2006).
O risco para o surgimento de transtornos nos homens se deve a diferentes fatores, tais como estigma da doença e dificuldade para enfrentar o tratamento e se adaptar com seus efeitos. Os problemas psicológicos mais vivenciados são a
depressão e a ansiedade, que se iniciam desde o período pré-diagnóstico, seguindo durante e após o tratamento (BERTAN; CASTRO, 2009).
Os pacientes com câncer apresentam incidência de depressão maior do que a população geral traduzida pela dificuldade de atitude de aceitação (TOFANI; VAZ, 2007). Em homens com CaP, a literatura mostra prevalência de sofrimento psíquico grave entre os que buscam apoio psicológico (KORFAGE et al., 2006). Frente ao choque emocional provocado pelo diagnóstico, pesquisas sobre o risco de suícidio nesses pacientes tem sido desenvolvidas. Explicações sobre a doença, tratamento e prognóstico, aconselhamento psicológico ao iniciar o rastreamento do CaP em homens assintomáticos e monitoramento da saúde psicológica de novos casos diagnosticados em pacientes sintomáticos são atitudes essenciais para identificar aqueles que possuem risco aumentado de suicídio. Fatores associados como doenças mentais, dependência de drogas e aspectos socioeconômicos devem ser identificados pela equipe multidisciplinar (LEEUWE; FRITZ, 2010).
Pouco se conhece sobre a saúde mental ou bem-estar emocional após o diagnóstico e tratamento do CaP assim como sua relação a longo prazo com a ansiedade e sentimentos de depressão. É importante que cada indivíduo em risco de prolongado sofrimento psicológico seja identificado logo após o diagnóstico pela equipe. Nesse sentido, vários instrumentos têm sido desenvolvidos a fim de identificar pacientes que possam ter necessidade de apoio psicológico (KORFAGE et al., 2006). Assim torna-se possível criar estratégias para aumentar as condições de enfrentamento das angústias vivenciadas nesse período (TOFANI; VAZ, 2007).
Diante das dificuldades emocionais destes pacientes, diferentes profissionais da saúde devem pesquisar sobre esse tema a fim de oferecer uma atenção integral ao paciente e à família. Para tanto, é imprescindível a atuação de equipes multi e interdisciplinar já que nenhuma ciência é capaz sozinha de abranger todo o conhecimento necessário sobre um tema tão complexo como é a QV e câncer (BERTAN; CASTRO, 2009).
Os pacientes submetidos à PR, frequentemente deixam o hospital com dúvidas e expectativas, sobretudo em relação ao funcionamento do aparelho urinário e reprodutor e, ainda, com lacunas nos âmbito social e emocional. A abordagem realizada pela equipe de enfermagem não pode prescindir de conhecimento específico e deve contemplar informações, ensino do autocuidado e apoio
emocional. O enfermeiro desempenha importante papel no preparo para alta hospitalar (MATA; NAPOLEÃO, 2010).
O aumento do tempo de sobrevivência que não vem acompanhado de um desfrute da vida acarretaria mais sofrimento do que benefícios para esses pacientes, o que justifica pesquisas que envolvam QV e aspectos psicológicos nesses pacientes (BERTAN; CASTRO, 2009).
Percebe-se assim, que diante da significativa incidência do CaP e suas repercussões na QV é necessário que as decisões terapêuticas considerem os riscos e benefícios dos tratamentos invasivos. Nesse sentido, a ciência tem se esforçado na busca de melhor compreensão sobre o comportamento da doença.
Aliada às descobertas prognósticas e diagnósticas, a equipe de saúde precisa conhecer o perfil desses pacientes e as mudanças com as quais precisarão se adaptar no pós-operatório. Talvez, por se acreditar que complicações operatórias sejam esperadas ou comuns, alguns profissionais de saúde oferecem menor atenção a essas questões.
Frente aos efeitos do diagnóstico e do tratamento cirúrgico, esse estudo propõe avaliar alterações físicas, psicológicas e sexuais, e relacioná-las com a QV após PR em pacientes com CaP localizado nos cinco primeiros anos do pós- operatório.
A partir dessa descrição será possível contribuir na verificação da eficácia deste tratamento, nortear condutas terapêuticas e melhorar informações aos pacientes que necessitam escolher e conviver com as implicações da opção por tratamento cirúrgico.
Os benefícios serão de ordem local quanto ao esclarecimento do perfil dos pacientes no pós-operatório e de ordem geral como amostragem da necessidade da adequação na assistência com consequente impacto na saúde pública, haja vista a característica crônico-degenerativa das neoplasias.
A relevância do estudo está associada à necessidade de subsídios sobre a população masculina acometida pelo CaP em nosso país. É preciso mudanças no perfil assistencial através de treinamento e educação continuada da equipe, a fim de oferecer qualidade das informações, auxílio psicológico, formação de grupos de apoio e outras medidas, considerando que a sobrevida que não é acompanhada de QV pode não ser a melhor opção para o paciente, causando mais sofrimento.
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
O presente estudo tem por objetivo avaliar a QV de pacientes com CaP submetidos à PR.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1- Caracterizar a população quanto ao perfil sociodemográfico, clínico- cirúrgico, presença de complicações cirúrgicas (DE e IU), autoestima e satisfação sexual;
2- Associar a DE e IU com grupo etário e tempo pós-operatório; 3- Descrever a QV;
4- Comparar as medidas de autoestima, de satisfação sexual e de QV segundo a presença de DE e IU, grupo etário e tempo pós-operatório;
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1 DELINEAMENTO DO ESTUDO
Trata-se de um estudo observacional e correlacional, tipo corte transversal. O estudo correlacional foi escolhido para examinar a relação entre duas ou mais variáveis. Nesse caso o pesquisador não testa se uma variável causa a outra, ou quão diferente é uma da outra, mas sim se elas variam conjuntamente, ou seja, a medida que uma variável muda, se ocorre uma mudança relacionada na outra variável (LOBIONDO-WOOD; HABER, 2004).
3.2 LOCAL DO ESTUDO
O Hospital Dr. Hélio Angotti (HHA) é considerado referência no Brasil em assistência à população na área oncológica, sendo uma entidade de utilidade pública sem fins lucrativos mantido pela Associação de Combate ao Câncer do Brasil Central. O hospital soma 106 leitos instalados, possui uma circulação de 11 mil pacientes por mês e conta com médias anuais de 4 mil internações, 2.900 cirurgias, 8 mil quimioterapias e aproximadamente 90 mil procedimentos.
Foi autorizado o desenvolvimento da pesquisa no HHA conforme autorização da direção hospitalar (Anexo1).
3.3 POPULAÇÃO
A população foi constituída 187 pacientes submetidos à PR nos últimos cinco anos (setembro de 2006 até setembro de 2011) no HHA.
Com base na literatura, esse período permite estudar grande parte dos pacientes sem recidiva bioquímica e que, portanto permanecem livres de terapias adjuvantes (FONSECA et al., 2007; MIGOWSKI; AZEVEDO E SILVA, 2010).
Participaram do estudo 81 pacientes que atenderam aos seguintes critérios de inclusão:
Residir em Uberaba;
Ter sido submetidos à PR retropúbica com ou sem linfadenectomia; Apresentar condições cognitivas para compreender as questões; Ter período mínimo de três meses de cirurgia.
Os critérios de exclusão foram:
Ter diagnóstico psiquiátrico de esquizofrenia ou transtorno bipolar, demência ou rebaixamento de consciência e aqueles que utilizarem medicamentos com efeitos no sistema nervoso central;
Ter sido submetido à PR de resgate ou ter sido realizada terapia adjuvante (tratamento hormonal, braquiterapia, radioterapia e quimioterapia);
Não possuir informação sobre o estádio cirúrgico do tumor no prontuário.