Verificamos que houve um crescimento populacional mundial e que, paralelamente a este crescimento, aumentou a longevidade dos homens graças a Ciência que evoluiu, à alimentação que melhorou, às vacinas que aumentaram seu poder de eficácia contra os mais diversos tipos de doenças. O perfil demográfico mudou, com um número bastante elevado de idosos em suas populações.
O Brasil é um país que, até pouco tempo atrás era considerado um país de jovens. Porém, está envelhecendo muito rápido com modificações visíveis em suas dinâmicas populacionais Por ter sido um país de jovens, se deu pouca atenção à população em processo de envelhecimento.
Tratar do tema envelhecimento e tudo o que o envolve como saúde, doença, tempo e morte, faz com que seja necessário analisar aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos e psíquicos relacionados a méritos, marcas e princípios impregnados de simbologias, que marcam a história das sociedades humanas e suas representações sociais. Envelhecer faz parte do processo humano, o que é inevitável e natural. Os valores socioculturais definem o olhar e o tipo de relação que a sociedade firmará com esta fração da população.
O envelhecimento apresenta características únicas, pois esse processo em cada indivíduo apresenta, nesta fase, formas dinâmicas e constantes com transformações fisiológicas, bioquímicas e psicológicas, que terão como consequência a progressiva perda da capacidade de adaptação ao meio em que vive, apresentando inúmeras fragilidades com maior incidência de processos patológicos e que, muitas vezes, levam o idoso à morte. E este é um fenômeno global, como mostram os indicadores demográficos. Então, frente às mudanças neste perfil demográfico brasileiro que mostra o aumento da expectativa de vida dos indivíduos, novos papéis sociais estão
43
sendo outorgados a esta faixa etária e levando, consequentemente a novos debates sobre o conceito de idoso.
Através da história, os esquemas simbólicos do imaginário e das representações sociais, levaram à construção de mitos e crenças que enaltecem ou estigmatizam a população de idosos. Tais representações podem gerar um quadro negativo desta faixa etária, estabelecendo uma distribuição de papéis e de posições sociais, excluindo e impondo crenças comuns, e determinando aquele que detêm espaço dominante nesta sociedade contemporânea.
Velho e idoso são disposições sociais usadas para posicionar o indivíduo nas várias instituições determinadas em benefício de uma ordem social e de um poder consolidado.
Fazer psicanálise com idosos na contemporaneidade é quase impossível como fazê-lo com pessoas mais jovens, pela necessidade de resultados rápidos, à urgência. Para a psicanálise, a velhice não deve ser pensada apenas como resultado do desgaste corpóreo, porém, devem ser considerados os aspectos psicológicos que circunscrevem a questão desta etapa da vida. Entende-se que existem vários mitos que dificultam a passagem desta etapa da vida. E entre estes mitos, citamos a velhice como sinônimo de morte.
Uma intervenção psicanalítica na velhice levaria a uma percepção por meio da escuta, da palavra dita, a implicação do olhar-se no espelho e aproximar-se do próprio reflexo, o desfazer das resistências causadas pelos mitos e também elaborar um inventário de lutos e ganhos nessa passagem que desempenha a impossibilidade de simbolizar, mas que retrata as relações sustentadas entre a velhice e a juventude.
Na cultura contemporânea, a velhice pode ser vista como uma bússola que direciona para a morte, que guia para o ato de morrer. Discutir o que representa a morte e como ela é vista, não é fácil, talvez por isso se nota tantos embotamentos para esta etapa da vida, a velhice. Deve ser considerado também que a elaboração inconsciente da velhice é necessária e tal elaboração ajudaria a lidar melhor com a velhice.
Muito deve ser feito ainda, no que diz respeito à psicanálise com idosos. Alguns psicanalistas já tomaram para si esta tarefa e com certeza, a bibliografia sobre o tema aumentará nos próximos anos. Na formação de novos psicanalistas poderia estar
44
contida também, uma discussão sobre o envelhecimento, de uma teoria que possa responder a este desafio, que por ser um fenômeno mundial contemporâneo, não oferece nenhuma distância crítica e muitas vezes, os problemas se tornam mais nebulosos se vistos de tão perto. A dificuldade, no entanto, está posta. Caberá à psicanálise atual e aos interessados, aproximarem-se dela para tentarem contribuir com sugestões. Acreditamos que a criatividade é uma parte importante no trabalho com a psicanálise, sem com isto fazer dela uma sombra do que sempre foi e alterar os seus preceitos.
45
REFERÊNCIAS
ARIÈS, P. O Homem diante da Morte. 2ª ed. (v1). Rio de Janeiro: Francisco Alves.1989
ARIÈS, P. O Homem diante da Morte.2ª ed. (v.2). Rio de Janeiro: Francisco Alves.1990
ARIÈS, P. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves.1997.
ARIÈS, P. História social da criança e da família. 2ªed. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
BARRETO, M.L. Admirável mundo velho. Ática, São Paulo:1992.
BEAUVOIR, Simone de. (1990). A velhice, realidade incômoda. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
BENEDETTI, T.R.B et al. Uma proposta política pública de atividade física para
idosos, 2007. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/2003/L 10.741.htm [ acesso em 19 de outubro de 2014.
BORGES, A.P.A.& COIMBRA, A.M.C. Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz - Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, 2008.
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das letras.1994.
BRAUNSTEIN, F. e PÉPIN,J.F. O lugar do Corpo na Cultura Ocidental. Instituto Piaget. Porto Alegre,2001.
BRASIL, Lei Nº 8.742 de 7 de setembro de 1993. Lei Orgânica de Assistência Social. Brasilia, 1993.
CAMARO, A.A., PASSINATO, M.T. O envelhecimento populacional na Agenda da
Política Pública. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Rio de Janeiro: IPEA,
46
CAPITANINI, M. E. S. Solidão na velhice: realidade ou mito? In A. L. Neri & S. A. Freire (Orgs.) E por falar em boa velhice. Campinas: Papirus.2000.
COCENTINO, J.M.B; VIANA, T.C. A velhice e morte: reflexões sobre o processo de luto. Revista Geriátrica e Gerontologia. Vol.14, nª 3. Rio de Janeiro. 2011.
DOMINGOS, B. Experiências de perda e de luto em escolares entre 13 e 18 anos. Porto Alegre: Psicologia Reflexão e Crítica, 2003.
FERENZI, Sandor apud Dorli Kamkhagi. A Clínica do Envelhecer (Novos Olhares) .
III Congresso Ibero-Americano de Psicogentorologia – Subjetividade, Cultura e poder, p.1.
FERNANDEZ, M.G.M.; SANTOS, S.R. Políticas Públicas e direitos do idoso: desafios da agenda social do Brasil contemporâneo. Revista disponível em
http://www.achegar.net/numero/34/idoso 34pdf. [acesso em 19 de outubro de 2014].
FREUD, S. O método psicanalítico de Freud [1904], Vol. VII. In Edição Standart Brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
__________. Sobre a psicoterapia [1905]. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 7, Rio de Janeiro: Imago. 1987
__________. Reflexões para os tempos de guerra e morte [1915]. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 14. Rio de Janeiro: Imago. 1987.
_________. Luto e melancolia [1917]. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. 14. Rio de Janeiro: Imago. 1987
___________. O estranho [1919]. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
__________. O futuro de uma ilusão [1927]. In Edição Standart brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Vol.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
___________. Fragmento da análise de um caso de histeria [1905]. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud , Vol VII. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
___________. apud Mucida, Ângela. O Sujeito não envelhece. Belo Horizonte. Autêntica, 2004, p.21
GOLDMAN, L. Tratado de medicina interna. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986.
47
GOLDMAN, Sara. Universidade para terceira idade: uma lição de cidadania [S.I]: Elógica, 2003.
GOLDFARB, D.C. Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo, Casa do psicólogo, 1998.
GOLDFARB, D. C. Psicogerontologia: fundamentos e práticas. Curitiba: Juruá, 2009.
HADDAD, E.G.M. A ideologia da velhice. São Paulo: Cortez. 1986.
IBGE. Sistema de marcadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira, 2010.
KLEIN, Melani apud Dorli Kamkhagi. A Clínica do Envelhecer (Novos Olhares) . III Congresso Ibero-Americano de Psicogentorologia – Subjetividade, Cultura e poder, p.6. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Estatudo do Idoso . 2ª ed. Brasilia, Editor do Ministério da Saúde, 2003.
MUCIDA, A. O sujeito não envelhece- Psicanálise e velhice. 2ª ed. Rio de Janeiro:LTC, 1981.
NÉRI, A.L.Cachioni & FREIRE, S.A. E por falar em Boa Velhice. São Paulo: Papirus,
2000, p.13
OLIVIENSTEIN, Claude. O nascimento da velhice. Bauru: EDUSC, 2001.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE- OPAS- OMS. Relatório 2005.
PALÁCIOS, J. Mudança e Desenvolvimento durante a idade adulta e a velhice. Vol.1, 2ª ed. Porto Alegre: Artmed. 2004.
PRESIDENCIA DA REPÚBLICA, Política Nacional do Idoso, Lei nº 8.842. Casa Civil, Brasilia, 1994.
ROSA, J. G. Primeiras histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.2001
ROTH, P. Homem comum. São Paulo: Companhia das Letras. 2007
ROUDINESCO E. A Família em Desordem. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2003.
SIMÕES, J.A. “Solidariedade intergeracional e reforma previdenciária”. In:Dossiê Gênero e Velhice, p.169-181, 1997.
48
SIQUEIRA, BOTELHO e COELHO. A velhice: algumas considerações teóricas e conceituais. Ciência e Saúde Coletiva. Vol. 7, nº 4. 2002. Recuperado em 21/09/2014. Scielo: www. scielo.br.
STUART-HAMILTON, Ian. A psicologia do envelhecimento: uma introdução. Porto Alegre: Artmed, 2002.
VERAS, R. A novidade da agenda social contemporânea: a inclusão do cidadão de mais idade. A terceira idade. Vol.14, nº28, p. 6-29, 2003.
WONG, L.L. e CARVALHO, J.A. O rápido processo de envelhecimento populacional
do Brasil: sérios desafios para as políticas públicas. Revista Brasileira de Estudos
de População. Recuperado em 19/11/2014 da Scielo:www.scielo.br