CHAPTER III – TRANSFER OF INTERMEDIATED SECURITIES
III- 4. Paragraph 5: debits and credits on a net basis
Uma das principais características desse exercício é estimular a percepção de si e do outro. O corpo ficava em um estado de muita atenção e concentração com o foco voltado em direção a todo e qualquer movimento executado por um dos participantes.
PI. Os bricoleurs coreógrafos dividiam-se em duplas e na base de pé, um de frente
para o outro.
DEC. Para desencadear o movimento foi preciso identificar cada participante, assim,
peço que cada dupla decida quem será o número 1 e o 2. Após este momento inicio o comando elegendo um dos números para que a movimentação comece a se desenhar no espaço, então, o número anunciado se movimentava improvisando, enquanto o outro observava e tentava reproduzir a sequência materializada no instante em que o exercício acontecia. A ideia é um ser o espelho do outro. Para este exercício determino um tempo entre 05 a 10 minutos para a experimentação de cada pessoa e em seguida, anuncio o próximo número e assim, a ação era invertida, ou seja, aquele que seguia o líder assumia a função de conduzir todo o movimento no tempo e espaço da sala onde o laboratório acontecia. Este exercício também foi realizado em trios e quartetos e, quando transportado para o espetáculo O Seguinte é Isso sofreu novas divisões a partir da proposta dos oito bricoleurs coreógrafos como se vai notar mais adiante.
CEP. Nas primeiras vezes em que o exercício foi proposto e realizado observei nos
participantes certa urgência. Os movimentos eram produzidos em um tempo muito veloz por quem conduzia a sequência, de modo que dificultava a percepção e o acompanhamento de quem seguia o condutor. De um lado, percebia a aceleração do movimento como estratégia para que o outro não conseguisse imitar a sequência com precisão e, por outro, o condutor parecia esquecer-se de que estava sendo seguido, ou seja, a impressão era de que às vezes ele não se importava com o seu par. Enquanto o condutor se divertia e criava com rapidez as formas, gestos, máscaras faciais, dentre outras ações, aquele que o seguia apresentava um estado de corpo variável entre a insatisfação, ansiedade, divertimento, inquietação, desespero e, até mesmo de aborrecimento por não conseguir entender e acompanhar a sequência de movimentos.
Vale sublinhar a autonomia do condutor em agenciar sentido do jogo a partir do estímulo inicial e de sua potencialidade criativa. Quero com isso dizer, que no início indico apenas o motivo de onde deve partir a pesquisa de movimento e cada dupla tem a liberdade de agregar distintas expressões e situações para melhorar a sua improvisação, por exemplo, a velocidade acima descrita pode se configurar como uma estratégia criativa de exercitar a rapidez criativa. Afinal, quanto mais velocidade se aplicava ao movimento, menor o espaço de conduzir racionalmente a estrutura coreográfica e a intenção. Após vivenciar o referido laboratório de improvisação, Nely Lopes23 tece o seguinte comentário: “é difícil acompanhar o movimento quando o outro faz muito rápido, em muitos momentos não entendia nada e nem conseguia ver por onde o movimento passava, quando o ritmo estava lento eu acompanhava quase no mesmo tempo e forma”. O jogo do espelho permitiu dentre outros aspectos, a possibilidade de construção de novas configurações através da interação entre as duplas. Embora existisse a imprevisibilidade na movimentação e situação, os bricoleurs coreógrafos são co-autores no percurso desta prática.
Nesta particularidade de O Seguinte é Isso, o que menos importava era a cópia “idêntica” dos padrões de movimentos criados. Enquanto os participantes se deslocavam no espaço para seguir o guia, eu interferia dizendo: encontrem um sentido dentro do jogo; não repitam simplesmente a sequência, pois isso não interessa no contexto desta aula; busquem outras realidades como a incerteza de não saber copiar o movimento do outro; deixem transparecer a dúvida quanto à trajetória do movimento, os erros, desconstruam a forma sugerida pelo condutor; brinquem com o fato de errar, tomem atitude, criem situações, enfim, descubram o sentido do fazer como possibilidades de criar “uma intensificação do viver, um vivenciar-se no próprio fazer; ” (OSTROWER, 1987, p. 28). Partindo deste pensamento, penso que se trata de um vivenciar em constante alteração e, portanto, sempre inconcluso na intensificação do viver, haja visto as inúmeras sensações e percepções oriundas das situações inesperadas, como se pode notar em outro discurso de Nely Lopes que diz, “sinto que na improvisação não dá tempo, às vezes de sentir a fluência do movimento, viver o que estou fazendo, pois preciso observar a dança que vem do meu par”.
À medida que os exercícios de estímulo à criação se tornavam parte constituinte das
23Graduada em Educação Física pela Universidade Federal do Pará - UFPA. Ingressou na CEDWB em 2005, desde então é pesquisadora e intérprete de dança contemporânea. Bailarina formada pela Escola de Teatro e Dança da UFPA. Depoimento retirado do caderno de anotação de aula da companhia, em 2007 e, transcrito sem nenhuma alteração do texto original.
aulas da CEDWB de forma mais frequente e menos esporadicamente, os bricoleurs ganhavam mais habilidade para inventar outras situações como estratégias de ativação criativa. Além disso, havia um acréscimo de novos movimentos antes pouco explorados, da mesma forma que a qualidade do fazer e os movimentos articulares ganhavam mais espaços e fruição na autocriação. Para Elyene Lima24, “quando o movimento é rápido a atenção é maior e mesmo assim não consigo ser o espelho do outro, aí acho graça e brinco, faço o que posso”. A atitude de brincar é significativa por expressar um sentido que renova a energia do corpo e impulsiona o processo de improvisação. Para Vianna (2005, p. 81) “a energia brinca no meu corpo e quando faço um movimento que joga essa energia para fora há um retorno que vem em forma de espiral”. Este tipo de forma desenhada através de movimento espiralar é essencial em processos coreográficos elaborados na casualidade do próprio fazer, sobretudo por ser tratar de um movimento com curvas ascendentes com muitas possibilidades de se originar em distintas partes do corpo e por meio de inúmeras fontes criativas, ou seja, do movimento cotidiano ou de qualquer outro viés provocador de combinações coreográficas, como os exemplos a seguir.