Este exercício criativo foi um dos primeiros a ser utilizado pela CEDWB no percurso de iniciação à prática da improvisação, em 1998, ano da fundação da companhia, quando eu nem pensava em conceber um espetáculo fundado nesta prática. Desde então, este laboratório de vez em quando era aplicado durante as aulas, e a cada vez, a companhia encontrava no interior desta atividade diferente forma de agir e reagir no espaço.
PI. Dispersos livremente pela sala de dança. Cada pessoa podia decidir as diferentes
bases de sustentação para iniciar o exercício, isto é, em pé, de joelhos, sentado ou deitado.
DEC. Inicio o comando solicitando que individualmente os bricoleurs coreógrafos
selecionem entre quatro ou seis letras do alfabeto sem a necessidade de seguir a ordem hierárquica. Nesta fase, o exercício não é formar palavras objetivas e tampouco fixar a mesma sequência de movimentos, mas servir de estímulo à criação pessoal. Após a escolha das letras estabelecia um tempo que variava entre cinco e dez minutos para que cada participante escrevesse corporalmente letra a letra, as quais podiam ser desenhadas em maiúsculas ou minúsculas e improvisadas com diferentes partes do corpo, ora com os braços, pernas, quadril, cabeça, dentre outras articulações.
No momento em que os bricoleurs coreógrafos desenvolviam a autocriação, eu seguia observando o modo particular como se moviam no espaço, como encontravam as soluções na transição de um movimento para o outro, como procuravam seus pontos de apoio no chão. O fluxo do movimento era outro aspecto onde fixava a minha atenção, minha intenção era tentar capturar a ocasião em que o movimento perdia a qualidade e o sentido do movimento corporal. “Os bricoleurs sabem que sempre realizarão pesquisa em ação, investigação em contextos vivos e em evolução” (KINCHELOE, 2007, p.113). Mesmo na ausência, neste exercício, da ideia de um tema com narrativa específica, sinalizava aos participantes a importância de sentir como cada gesto e movimento emergia e se diluía na ação do próprio fazer em permanente mutação.
Na segunda etapa deste exercício,solicitei aos participantes uma sequência de movimentos fixos com no mínimo oito e no máximo dezesseis tempos. Um estudo criativo individual elaborado a partir do mesmo elemento indutor, letras do alfabeto. Para este processo reservei cerca de 10 minutos para o trabalho de autocriação. Ao término deste tempo cada um se dirigia ao centro da sala de ensaio e repetia duas vezes a sequência, na primeira vez sem música e na segunda elegia qualquer música e, como público, os outros que aguardavam a sua vez de compartilhar a criação. Como desdobramento deste exercício os participantes dividiram- se em grupos de três e quadro pessoas. Cada integrante do grupo aprendia a sequência coreográfica do outro ampliando a célula de movimentação em uma rede coreográfica maior, agora com movimentos fixos, ensaiados na mesma ordem sem alteração, entre as suas combinações estruturais de tempo, espaço, gestos e movimentos.
Nesta fase, a improvisação dos movimentos indeterminados se converteu em movimentos determinados, ou seja, a sequência coreográfica passou a ser fixa em sua organização. Quando a coreografia se cristalizou na mesma ordem seqüencial de forma, espaço e movimento, não permitindo novos arranjos em seu sistema poético, o sentido da improvisação como sistema aberto de criação deixou de ter espaço. Afinal, “as práticas de improvisação absorvem como esponja a realidade imediata e constroem um referente a partir da experiência instantânea dos jogadores e de sua percepção da situação” (RYNGAERT, 2009, p.199).
A improvisação está implicada com a criação concebida no instante em que o artista age cenicamente, nesta práxis a subjetividade criativa opera com múltiplos fenômenos que momentaneamente aparecem e desaparecem. Como sinaliza Ryngaert, é um processo de realidade imediata, isto é, atualizada e espalhada no trajeto da experimentação com possibilidades de agregar, temporariamente, novos conteúdos e sentidos.
Neste procedimento, a condução criativa tinha como propósito formar palavras, estas
serviam de subtexto para a investigação de formas corporais e, ainda podia servir como caminho de estímulo a descobertas de outros arranjos de sequências coreográficas. A imagem seguinte revela um dos momentos deste laboratório criativo. Da esquerda para a direita, as letras: c,a,s,a, tecem a ideia de como cada sujeito construiu o seu movimento a partir da indicação do exercício proposto, como resultado, a formação da palavra casa.
Fig.12. Alfabeto Corporal
Foto: Waldete Brito 2011.
Existe uma gama de possibilidades de desdobrar este exercício e tudo depende da criatividade e da maneira como o professor faz a condução de sua aula, assim, algumas vezes solicitei que os participantes escrevessem o seu próprio nome, frases, ou simplesmente que usassem a ideia de reeditar esta proposta como quisessem.
CEP. No resultado deste primeiro laboratório observei nos participantes um nível
significativo de concentração, ansiedade e vontade de descobrir outros movimentos, além disso, a proposta propiciou a pesquisa de movimentos em diferentes articulações corporais. A transposição das letras do alfabeto em coreografia exigiu a exploração não apenas de movimentos coreográficos, mas o exercício de organizar o alfabeto fora do contexto comum, ou seja, sem o auxílio de caneta e papel.
A escrita e a interpretação são literalmente corporais, no caso, o bricoleur coreógrafo “é simultaneamente o papel, a pena, e o grafo, sendo o espaço que o seu corpo desenrola aquele em que, eventualmente, se inscreve o signo que é o próprio corpo” (GIL, 1997, p. 71). Partindo desta reflexão, é possível considerar o corpo como um signo formado pela diferença, por esta razão, traduz um sentido e organização em si mesmo.
Neste exercício corporal as letras do alfabeto se tornavam relevantes à medida que expressavam e alteravam as realidades imediatas no interior da improvisação. Vale ressaltar o depoimento de Valéria Spinelli22 quando pela primeira vez realizou este exercício, ela disse: “é interessante olhar o resultado do exercício, pois quando vejo o bailarino dançando esqueço-me das letras (risos) e vejo só a dança e, nessa hora as letras não são mais importantes e sim a maneira como ele dança, gostei”. Este argumento aponta o objetivo do exercício alcançado, pois a ideia é exatamente “esquecer” o signo como motivo indutor para trabalhar a autocriação, pois de algum modo ele se constitui e se organiza. “O motivo é um antecedente que só age por seu sentido e, é preciso acrescentar que é a decisão que afirma esse sentido como válido e que lhe dá sua força e sua eficácia”, Merleau-Ponty (1999, p. 348). É, portanto, mais uma via significativa como estratégia criativa para ampliar o vocabulário de movimentação do corpo dançante, possibilitando ao mesmo, o acesso aos inúmeros estímulos como fator essencial para a improvisação, sem com isso esquecer a qualidade e a intenção a cada movimento realizado.