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CHAPTER III – TRANSFER OF INTERMEDIATED SECURITIES

III- 3. Conditional entries

O presente exercício faz alusão a uma brincadeira que eu costumava fazer quando

criança. Assim, o fisguei de minha memória em um dia de aula onde o meu repertório de exercícios de estímulo à criação parecia ter findado. Então, a sensação de esgotamento das ideias, misturadas à inquietação e à angústia de não mais saber o que propor, provocou em minha mente a imagem do jogo do pão duro e, aí, à medida que a imagem se iluminava, meu estado de inquietação e angústia se transformava em excitação pela nova possibilidade de continuar experimentando e criando. Durante o tempo de apresentação deste exercício criativo, em minha mente, permaneci quieta, isto é, não fiz nenhum movimento senão o de ouvir e visualizar as imagens internalizadas, as quais gradativamente se mostravam mais claras por meio de uma organização singular. Após a lembrança desta brincadeira, que por muito tempo permaneceu guardada em mim mesmo, decidi experimentar na prática com os bricoleurs coreógrafos envolvidos neste processo.

PI. Os participantes organizavam-se em grupo de três, posteriormente em grupos de

quatro, cinco e seis pessoas.

DEC. O modo como eu brincava quando criança apresentava a formação sempre com

três pessoas, enquanto uma pessoa se posicionava no meio, as duas outras se colocavam de frente para aquela que estava no centro, tal qual se mostra na imagem abaixo. É preciso manter

Fig.20. Posição inicial.

certa distância, a pessoa que se encontrava no centro precisava ficar de pernas unidas, com os braços estendidos ao longo do corpo ou cruzados na altura do peito, nesta posição o corpo devia ficar todo contraído, bem duro e estável. A pessoa do meio se deixava cair para frente ou para trás e, em qualquer uma dessas direções ela seria amparada pelas duas outras que a circundavam. Na imagem abaixo, a bricoleur Carol Castelo deslocava o seu eixo de equilíbrio em direção ao Rafael Dorn, enquanto isso, Elyene Lima observa a ação e aguardava o momento em que iria segurar a Carol Castelo. Quando ela retornava à posição inicial do exercício, podia escolher se o movimento seguinte seria direcionado a Elyene Lima ou não, já que não havia nenhum problema em repetir mais de uma vez a ação para o mesmo lado. Na

Fig.21. Desequilíbrio para frente

Foto: Alessandra Ewerton, 2011.

sequência seguinte pode-se notar que preferiu deslocar-se para trás e, assim estabeleceu contato sensorial com a Elyene Lima. Como desdobramento desta prática, solicitei aos participantes que experimentassem o movimento nas mesmas direções com o corpo menos contraído e, ao

Fig.22. Desequilíbrio para trás

mesmo tempo, pedia-lhes que tentassem modificar o apoio dos pés no chão, ora com o apoio de um e ora o apoio com os dois pés. Em seguida, a sugestão era não deixar o corpo cair só de frente ou de costas, mas também do lado direito e esquerdo. Com o objetivo de ampliar a exploração das dinâmicas de tempo e espaço. Em outro momento, o exercício foi feito com um grupo de cinco pessoas, como se verifica na imagem abaixo, e posteriormente com todos os integrantes da CEDWB, além disso, algumas vezes resolvi colocar duas pessoas no centro como estratégia de reconfiguração no interior desta prática.

Fig.23. Desequilíbrio com apoio de um pé

Foto: Alessandra Ewerton, 2011.

No instante em que se aumentava o número de pessoas no grupo, ampliava-se também o estado de atenção e tantas outras descobertas sensoriais, como por exemplo, o modo pessoal como cada corpo se organizava para receber o corpo do outro, o medo de cair, a distribuição do peso, o qual não devia ser confundido com relaxamento, pois o corpo em movimento precisava ativar o tônus muscular e não deixar a musculatura totalmente relaxada. Eis, portanto, outras questões apreendidas ao longo desta prática, em que tais percepções se tornaram relevantes para a evolução do ato criativo, com isso, uma variedade de possibilidades sensório-motoras se formaram a partir do autoconhecimento e dinâmica das proposições extraídas, às vezes, do mesmo laboratório de improvisação com outras reconfigurações.

CEP. Durante este procedimento foi possível observar o medo, o modo particular

como cada um lidava com o risco, a queda, a coragem, a atitude, a reação e a ação. Além dos aspectos destacados, a preocupação de cair e de se machucar foi de início o fator provocador de tensão excessiva no corpo, impedindo o fluxo coreográfico. Para diminuir o medo inicial de cair, ao repetir este laboratório de improvisação em outros dias de aula, pedi ao grupo que a

distância fosse diminuída, ou seja, a pessoa que ficava no centro do circulo deveria estar próximo de quem se encontrava por fora do mesmo, pois a proximidade ajudaria principalmente a melhorar a coragem e a confiança dos mais indecisos. Após este período, voltei a aumentar a distância entre os participantes, já que os mesmos demonstravam maior confiança em suas movimentações.

No caso deste laboratório de improvisação, o que era brincadeira de infância, se transformou em dança. Isso só foi possível porque o corpo em movimento assumiu posturas, qualidade de movimento, intenção e formas construídas voltadas à criação cênica e, portanto, com conteúdos estéticos e objetivos diferenciados da brincadeira do cotidiano. Para corroborar com esta questão, Stanislavski (2002) compreende o objetivo no interior de um processo como o meio determinante para o artista buscar em seu espaço interno um estado de corpo.

Novas formas, diferentes apoios e atitudes surgiram naturalmente da queda e do contado entre os corpos. Isso só foi possível porque os objetivos foram detalhados durante a atividade, da mesma maneira que objetivos pessoais foram determinados pelos bricoleurs coreógrafos. O objetivo está ligado à pessoalidade criativa, portanto, é fundamental a construção do mesmo para a organização da lógica e sentido. Isto é fato, daí, a importância de traçar finalidades para cada exercício de improvisação, contudo, confesso que em algumas aulas da companhia gosto de trabalhar na fronteira do pouco definido, com regras menos visíveis, mais abertas com o propósito de incitar cada bricoleur a definir seus próprios objetivos no contexto do tema-laboratório que proponho.