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Após os episódios de censura da montagem de Calabar, o elogio da traição e da censura tardia da canção Apesar de você, tratados no capítulo anterior, Chico Buarque, mesmo encabeçando a lista dos artistas mais vigiados pelo regime, continuava a realizar sua obra desafiando os mecanismos de controle. Dessa época, outra emblemática canção de Chico Buarque contra a ditadura, Cálice, em parceria com Gilberto Gil, teve sua letra proibida pela censura. E, talvez, ainda pior, a censura não oficial do medo. Durante um show, Chico Buarque e Gilberto Gil decidiram tocar somente a melodia de Cálice, já que a letra estava censurada, no entanto, os representantes da gravadora Phonogram, por medo de represálias políticas decidem desligar os microfones, impedindo assim a audição da música.

A reportagem publicada na Argentina pelo jornalista brasileiro Eric Nepomuceno (1973) na revista Crisis, de Buenos Aires, uma das mais importantes publicações de caráter cultural da América Latina de então, é bastante elucidativa para melhor entendermos a ação perseguidora desse exercício de dominação e controle sobre a obra artística de Buarque, tanto pela narrativa de Nepomuceno quanto pelas declarações de Chico nos trechos destacados a seguir:

Chico Buarque jamais teve o propósito de efetuar uma pesquisa de vanguarda no âmbito da música brasileira, tal como ocorreu no caso de Gilberto Gil, Caetano Veloso ou Egberto Gismonti. Nem tampouco foi o autor comprometido do modo de Geraldo Vandré ou Sérgio Ricardo. E se hoje Chico Buarque é, no Brasil, o autor mais importante de músicas de protesto, isto se deve, em grande parte, à radicalização acelerada de sua posição ideológica motivada pelas pressões que sobre ele exerceram os organismos

repressivos brasileiros, principalmente através do departamento de censura da Polícia Federal.

"Atualmente no Brasil, ninguém pode dizer que está por fora do que está ocorrendo. Ou se está contra o que se passa ou se está a favor do que se passa. Ninguém pode pretender estar à margem da situação. Quem cala, consente, opta pelo silêncio e se torna cúmplice. Sinto a profunda necessidade de que toda manifestação artística, de quem for e no campo que for, opere como uma denúncia. Inclusive os poemas de amor devem obrigar ao ouvinte ou ao leitor a refletir. Há em todos nós uma forte tendência a não pensar. Justamente eu creio que se deve estimular na gente, por todos os meios, a capacidade de julgar e pensar".

Os conflitos com a censura passaram a ser habituais. Em parte, Chico consegue amortizar os perigos a que se expõe com sua fama, muito grande em todo o Brasil. Ser tão conhecido é algo que indubitavelmente o ajuda.

Quando uma de suas letras é censurada, os jornais se esforçam em publicar a notícia respectiva acompanhada pelo texto proibido. Caso sejam interrompidas ou impedidas suas atuações públicas, a reação popular é muito diferente da que ocorre quando o artista atingido é um principiante. [...]

De cada três canções que enviava à Censura federal para poder gravá-las e depois apresentá-las ao público, duas eram invariavelmente interditadas. Quanto à terceira, estava, quando a devolviam, totalmente mutilada pelas "sugestões" feitas com relação a frases inteiras ou palavras isoladas.

Em 1974 lança o Long Play com o sugestivo título-mensagem: Sinal Fechado, em que as músicas eram todas da autoria de outros compositores. Entre elas, o samba Acorda

Amor, autoria assinada por Leonel Paiva e Julinho da Adelaide, uma metáfora de humor

satirizando a violência e a arbitrariedade das perseguições policiais e o conseqüente desaparecimento de civis, como pode ser observado na letra da canção transcrita a seguir:

Acorda amor / Eu tive um pesadelo agora / Sonhei que tinha gente lá fora / Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura / Minha nossa santa criatura / Chame, chame, chame lá / Chame, chame o ladrão, chame o ladrão.

Acorda amor / Não é mais pesadelo nada / Tem gente já no vão de escada / Fazendo confusão, que aflição / São os homens / E eu aqui parado de pijama / Eu não gosto de passar vexame / Chame, chame, chame / Chame o ladrão, chame o ladrão.

Se eu demorar uns meses / Convém, às vezes, você sofrer / Mas depois de um ano eu não vindo / Ponha a roupa de domingo / E pode me esquecer.

Acorda amor / Que o bicho é brabo e não sossega / Se você corre o bicho pega / Se fica não sei não /Atenção / Não demora / Dia desses chega a sua hora / Não discuta à toa não reclame / Clame, chame lá, chame, chame / Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão. (Não esqueça a escova, o sabonete e o violão).

Para ludibriar o patrulhamento dos censores, o verdadeiro autor, o próprio Chico Buarque assinou a letra musical enviada para a liberação sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Durante um curto período o artifício funcionou bem e ―Julinho da Adelaide‖ conseguiu ter gravadas outras canções, como Milagre Brasileiro e Jorge Maravilha, essa última na lista dos sucessos musicais da época.

Descoberto posteriormente o golpe, o serviço de censura passou a exigir documentos de identificação dos autores para a liberação de execuções musicais, como mais uma forma para evitar novos deslizes dos censores.

Mesmo na linha de frente desta guerra, Chico não transformou a obra em panfleto. Manteve o sarcasmo, como no samba rock Jorge Maravilha (''você não gosta de mim/ mas sua filha gosta'') dirigido ao general seguinte, Geisel, cuja filha apreciava sua música. Nunca afrouxou o laço do apuro estético. (SOUZA, 12/06/2004)

Escreve e publica a novela Fazenda Modelo, uma história semelhante à Revolução

dos Bichos, de George Orwell, em que através da linguagem alegórica oferecia mais uma

crítica ao poder político imposto ao país, como veremos melhor apresentado na sinopse criada por Adélia Bezerra de Menezes (1980):

Em Fazenda modelo, "novela pecuária" Chico Buarque tece uma alegoria sobre a sociedade dos homens - falando, no entanto, exclusivamente de bois e vacas. Trata-se de uma parábola sobre o poder, a respeito das formas de dominação social sobre o rebanho humano. E a forma de dominação mais radical é usurpar do indivíduo - sempre em nome dos mais santos princípios - qualquer possibilidade de assumir seu próprio destino pessoal. A Fazenda modelo é uma comunidade bovina que começa a crescer e que se vê - através da liderança mansa do boi Juvenal, o bom - submetida a um processo radical de transformação, de "progresso": em que tudo que era natural é considerado "atrasado" ou "pecado" e passa a ser cientificamente regulado.

As atitudes artísticas de Chico Buarque cada vez mais o colocavam à frente como um símbolo de resistência e luta contra o regime. Completamente comprometido com a luta democrática e assumindo francamente uma posição contrária à ditadura, Chico Buarque, entretanto, nunca aceitou a imagem heróica que as esquerdas e a intelectualidade queriam lhe atribuir e realizava sua trajetória artística de forma independente, uma personalidade avessa aos rótulos de líder da luta democrática e desprovida de compromissos partidários. Outra de suas declarações a Eric Nepomuceno (1973, op. cit), abaixo citada, confirma essa postura:

Eu sou um compositor, não um político. Faço música e não política. Mas, a partir do exato momento em que a política ou a situação do país me impedem de trabalhar, me vejo obrigado a transformar-me em político e a manifestar-me e defender-me.

A mim não vão amordaçar. A única coisa que me assusta é chegar a um ponto em que a autocensura me impeça de trabalhar. Atualmente, quando escrevo uma letra, já não sei se vão aprová-la ou não. Divido minhas músicas entre as que, na minha opinião, vão ser qualificadas com um "não" e as que podem receber um "talvez".

Porém, da mesma forma, me equivoco constantemente. Letras que pra mim estavam entre as que tinham possibilidades de serem autorizadas, terminaram recebendo um "não" por parte da censura.

Tento jogar respeitando as regras, procuro escrever de tal forma que possa burlar a censura. Mas ocorre que ela, lentamente vai aguçando seu olfato. Às vezes se chega a ter a impressão que age com alguma inteligência, e isso, claro, vai me obrigar, da mesma forma que a todos os meus colegas, a afinar ainda mais meu repertório de truques.

Em meu caso, o problema da censura é algo habitual. Porém eu me pergunto o que vai ser dos novos compositores, de todos os que ainda não são conhecidos, quando se virem obrigados a enfrentar a máquina da opressão e da repressão.

Tenho medo de que morram antes de terem nascido, e é um temor fundado. Minha geração - nascida em 66 - foi a última conhecida dentro da Música Popular Brasileira. Depois de Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gil, e Egberto Gismonti e alguns outros, não surgiu mais ninguém e isso não ocorre somente na música. Ocorre nos campos onde a criação e a expressão são um ponto de partida.

Não vou falar da situação política de meu país. Não sou um teórico. Porém, posso falar com conhecimento, da Censura. É o único instrumento de que dispõe o regime para calar os que desejam dizer algo que possa incitar a pensar. Algo que, principalmente, pode encontrar eco entre os universitários, entre a juventude.

Houve momentos em que tive vontade de renunciar a tudo. Agora não. Agora quero lutar. Quero devolver uma por uma as bofetadas que me dão. Sei que minha resposta não poderá representar nada contra a força do sistema, mas não pretendo ficar calado.

Hoje me interessa, mais do que nunca, ser conhecido. Ser conhecido, em meu caso, a algo que opera como um mecanismo defensivo: não vão poder me eliminar quando queiram. Se desapareço, haverá muita gente que vai tentar averiguar o que aconteceu comigo. Ninguém mais pode ficar em um canto observando o que ocorre. É necessário assumir uma posição definida. Eu escolhi a minha. Optei pela denúncia. Não sei o que vai suceder mas continuarei lutando.

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