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Dans le document Beginning JSP, JSF and Tomcat (Page 27-31)

Embora proibida nos palcos a peça foi publicada na época em livro e se tornou um grande sucesso de vendas. A princípio a informação da não censura da publicação da peça pode parecer conflitante com a atitude da censura sobre o espetáculo, porém como nos apresenta Sandra Reimão (2011, p. 56):

Os dados quantitativos gerais sobre censura a livros calculados a partir dos documentos disponíveis no acervo preservado do DCDP listados anteriormente indicam que a atividade censória, nesse setor, foi mais rígida entre 1975 e 1980, período em que mais de 50% dos livros submetidos foram vetados, enquanto entre 1970 e 1973 o percentual ficava muito abaixo desse número.

A censura a livros durante a ditadura militar, portanto, teve uma atuação mais forte não nos chamados Anos de Chumbo (1968-1972), mas durante o governo Geisel (março de 1974 a março de 1979), e especialmente no final desse governo — que, apesar dos momentos de retrocesso, foi aquele em que se iniciou o processo de abertura política lenta e gradativa. A censura a livros por parte do Departamento de Censura de Diversões Públicas aumentou quando a maioria dos jornais e revistas estava sendo liberada da presença da censura prévia nas redações.

Lançado então sem problemas de censura pela editora Civilização Brasileira com o título da peça reduzido apenas para ―Calabar‖ o livro recebeu diversas edições em seus primeiros anos de publicação. A revista Veja em sua edição 331 de 8 de janeiro de 1975, na página 85, publicando a lista dos Best-sellers de 1974 apontava Calabar na quarta colocação entre os títulos nacionais.

Na mesma revista Veja, na edição 272 de 21 de novembro de 1973, portanto, logo após a data da estréia prevista do espetáculo e antes da decisão da censura sobre a proibição da peça, o lançamento do livro recebia destaque especial ocupando quase que a totalidade da página de literatura da revista.

A reportagem de Geraldo Mayrink intitulada Canções da Colônia apresentava uma sinopse da peça entre elogiosas críticas ao texto classificado como ―a linguagem mais límpida e instigante da atual poesia em língua brasileira.‖ Duas edições posteriores da revista,

Calabar já começava a frequentar a lista dos livros nacionais mais vendidos e assim

permaneceria durante todo o ano de 1974.

Merece destaque o fato de que na composição do livro, na página de abertura foi colocada a ficha técnica do espetáculo censurado. Dessa forma chegava aos leitores a

informação de que havia existido a montagem do espetáculo e os leitores mais esclarecidos poderiam concluir que se essa montagem não tinha sido levada à cena é porque havia sido censurada.

Capa do livro; desenho da capa: Regina Vater publicado na Coleção Teatro Hoje - Volume 24 – Editora Civilização Brasileira -1974

Além do grande sucesso em livro, as canções da peça também percorreram uma importante trajetória fonográfica e tornaram-se parte integrante do repertório dos shows de vários artistas da MPB até os dias atuais. Mesmo antes do início dos ensaios da peça as canções Bárbara e Anna de Amsterdam possuem seu registro musical, cantadas por Chico Buarque e Caetano Veloso no show realizado nos dias 10 e 11 de novembro de 1972, no Teatro Castro Alves em Salvador na Bahia. A gravação desse espetáculo resultou no disco

Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo, lançado no mesmo ano.

Em 1973, a canção Tatuagem foi gravada por Maria Bethânia no disco Drama 3º

Ato e era apresentada no show homônimo ao disco realizado pela cantora. Maria Bethânia

retorna ao repertório da peça, no ano seguinte no show e no disco A Cena Muda onde interpretava Cala a Boca Bárbara e Tire as mãos de mim. Ainda em 1973, Chico Buarque grava o disco Chico canta Calabar com as músicas da peça em outro caso se que tornou emblemático como abuso da atividade censora. A capa do disco destacava a palavra Calabar sugerindo uma pichação de muro. Os censores viram aí um significado subversivo. Muros com pichações do tipo ―Abaixo a ditadura‖ eram freqüentes nas grandes áreas urbanas do país, como um grito de denúncia contra o silêncio imposto pelo regime militar. A relação entre os fatos era, por demais, evidente.

A primeira capa do disco Chico canta Calabar – LP de 1973 e foto histórica ilustrativa do movimento estudantil durante o período da ditadura militar.

A reação de Chico Buarque veio com o lançamento do mesmo disco com uma capa totalmente branca e sem nenhum título. Para, provavelmente, denunciar mais uma vez a ação da censura, foi mantida a ficha técnica da capa anterior em que constavam os nomes dos três fotógrafos que trabalharam na composição da capa o que, obviamente, despertava a

curiosidade do público mais atento já que no disco branco não havia foto alguma. O álbum de capa branca acabou por ser também recolhido, não por decisão dos censores, mas sim por razões comerciais. Como as vendas do disco estavam muito baixas o departamento comercial da gravadora Philips concluiu que a capa branca seria a razão da má vendagem e em algumas semanas relançou o disco com uma nova capa com uma foto de Chico e com o título Chico

canta. Sobre o disco e as canções da peça, os comentários de Chico Buarque transcritos a

seguir são bastante esclarecedores:

[...] Algumas músicas foram proibidas completamente, ai foram gravadas apenas a parte instrumental, foram gravadas com se fossem músicas instrumentais, outras foram proibidas em parte, tinhas palavras proibidas:

Sou Anna de (recordando e cantarolando a canção Anna de Amsterdã) Sou Anna... sacana... ―Sacana‖, não podia. Claro, na época ―sacana‖ não podia. Então ―sacana‖ era cortado. A Bárbara [em referência ao título da canção] era uma outra que era uma história de amor entre duas mulheres... (recordando e cantarolando a canção Bárbara) Bárbara, Bárbara, nunca é tarde ...não sei que... e aí quando falava ―nós duas‖... ―dus‖... sumia. [exemplificando o corte do termo duas na gravação da canção].

[...] tinham várias músicas que eram meio proibidas, com palavras proibidas, o Fado Tropical [em referência ao título da canção] tinha palavras proibidas. Palavra ―sífilis‖ não podia e tal. Essa foi a época mais... foi o período mais duro da censura, era tempo do Médici, não estava pra brincadeira, ninguém estava pra brincadeira ali não.

[...] o disco que se chamava ―Chico canta Calabar‖, com a capa parecida ou idêntica a capa do livro, ―Calabar‖ foi proibida. A palavra foi proibida. O nome Calabar foi proibido. Então o disco saiu com a capa branca invés da capa prevista que era um muro pichado com o nome ―Calabar‖ e ficou sendo ―Chico canta‖. Era um disco chamado (risos) ―Chico canta‖ e as pessoas não entendiam por que: ―Chico canta‖, sim, Chico canta, é um disco, ele é cantor. (risos). (BUARQUE, 2005 - informação verbal)

A segunda e a terceira capa produzidas para o disco Chico canta Calabar após a censura da

Materiais de divulgação do espetáculo: Cartaz e programa – da primeira montagem de Calabar liberada pela censura em 1980.

CAPÍTULO III – GOTA D’ ÁGUA

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