Discussion et synthèse
3. P ERSPECTIVES : PROTEOGENOMIQUE ET ONCO - PROTEOGENOMIQUE
Numa análise geral dos resultados obtidos, as narrativas dos beneficiários da Refood NSF foram divididas por categorias, consoante as atividades e interações que estabelecem no sentido de cocriarem valor. Essas categorias denominam-se por estilos de cocriação de valor, porque são ações que se inserem e fazem sentido no seu dia-a-dia e com a sua postura.
Dentro dessas categorias, a categoria “Pró-equipa” é aquela que apresenta mais narrativas nesta análise, seguida da “Adaptação Social”, que nos conduz para a conclusão de que a maioria dos beneficiários da Refood NSF entrevistados está envolvida com o projeto e estabelecem interações com outros indivíduos e isso é importante porque vai de encontro a um dos objetos da Refood, apelar ao sentido de comunidade e interajuda.
Sendo a Refood NSF considerada neste estudo como uma plataforma organizacional que presta um serviço (de cariz social) e permite colocar em contacto duas comunidades, "os que querem ajudar", neste caso, os voluntários, e "os que são ajudados", ou seja, os beneficiários. Este contato é feito através de uma interação direta entre estes atores, sendo que existem ainda outros intervenientes a atuar nesta rede de serviço, como por exemplo as fontes de alimentos e os parceiros. No entanto, no presente estudo levou-se em conta as interações estabelecidas entre beneficiários e voluntários, e como essas interações afetam a experiência de cada um dos utilizadores da Refood. Este facto justifica a escolha de narrativas, como método para o estudo empírico, já que a realidade organizacional é socialmente construída em interações sociais, e que só por este método se conseguiria chegar mais detalhadamente às experiências dos utilizadores do serviço.
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A nível da experiência com o serviço, os aspetos mais referidos pelos beneficiários da Refood NSF, e que mostram afetar negativamente, de alguma maneira, a sua experiência são:
O estado de conservação da comida: os beneficiários acabaram todos por referir que por vezes a comida fica azeda. Uns desculpabilizam a Refood desse facto, pois referem que “A comida tem qualidade, mas é evidente que com o transporte e o
calor as coisas podem estragar-se. Mas isso também pode acontecer a nós quando vamos ao supermercado”, e que “com o calor que está, às vezes acontece, mas eles não fazem por mal, dão o que têm”. No entanto existem outros beneficiários que
adotam uma postura mais crítica em relação a este aspeto e referem que “a ver na
televisão, como já me aconteceu, reportagens sobre a Refood, em que tudo é muito bonitinho, apertadinho com um laço, e as coisas não são bem assim, porque as sopas vão azedas às vezes”, e que “se houvesse mais um bocadinho de consciencialização, podia-se melhorar”.
A diferença de equipas em cada dia: este também é um dos factos narrando pelos beneficiários em como sendo algo que afeta a sua experiência. Referem que a sua “experiência aqui depende de quem está aqui na segunda, ou na terça, porque
varia muito de dia para dia”. Um dos beneficiários refere que “A única crítica que eu posso apontar é, como cada dia tem a sua equipa, às vezes apanhamos situações completamente díspares, há uma certa falta de homogeneidade”. Essa falta de
homogeneidade nas equipas é referida ainda por outra beneficiária: “Porque cada
dia é uma equipa, cada dia são pessoas diferentes, que têm maneiras de ser diferentes, que nem sempre....”.
O comportamento dos outros utilizadores da Refood: este também é um dos factos muito referidos pelos beneficiários como sendo algo que afeta a sua experiência na Refood, tal como se pode verificar nas seguintes referências:
“Não gosto às vezes dos palavrões qua há aí na fila”
“não tenho o ímpeto de agressividade que as vezes as pessoas aqui têm com os voluntários, de se virarem contra estas pessoas, quando não têm comida.”
“Várias vezes já chamaram aqui a polícia para ele. Essas situações deixam mal quem está aqui dentro e a nós que estamos ali. Isso é mau.”
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“Não têm o direito de estar a ofender as pessoas e a tratar mal as pessoas. Irrita- me isso, afeta-me de certa maneira.”
No que respeita à experiência dos voluntários, um dos factos mais referidos como afetando negativamente a sua experiência é também o comportamento dos utilizadores da Refood. A maioria refere como um momento que o tenha marcado significativamente pela negativa alguma situação de conflito com um utilizador da Refood. Os casos mais negativos acontecem principalmente com os sem-abrigo. Mais uma vez, há também voluntários que desculpabilizam estas situações, ainda que os afete de alguma maneira, não afetam toda a experiência que eles têm na Refood, tal como se pode verificar nas seguintes referências:
“Às vezes é muito complicado. Há um senhor aqui que também é muito problemático, que nos ameaça que vai entrar aqui e nos mata a todos e eu levo isso a sério porque há pessoas aqui com muitos problemas”.
“Os sem-abrigo são uma população muito difícil, são muito problemáticos, vêm muito magoados, são um bocado marginalizados pela sociedade.”
“Todos os dias vem aqui e todos os dias reclama, sempre, sempre a dizer mal. Saltam-me mais à vista estas más experiências porque as boas é as pessoas cumprimentarem, dizerem olá, algumas agradecem, mas muito poucas.”
“E às vezes vêm aí e dão pontapés à porta e chamam-nos tudo. Houve um agora que tivemos de chamar a polícia, já tivemos aí uns 3 ou 4 a ameaçarem-nos.” “Mas isso não afeta de todo a minha experiência aqui, porque é como em tudo na vida, há pessoas boas, pessoas menos boas, pessoas mais rabugentas, menos rabugentas. Portanto não afeta, mas às vezes ficamos incomodados porque estamos mais sensibilizados, mas de resto não.”
Assim, a questão de investigação foi estudada, do ponto de vista de quem experiencia o fenómeno, nem caso, numa organização que presta um serviço de caráter social e não lucrativo.
Numa perspetiva relacional do Serviço, o relacionamento existente origina, muitas vezes, a criação de valor a partir dessa relação. Assim a interação estabelecida entre os dois utilizadores beneficia ou prejudica a cocriação de valor, daí se ter optado por encarar a Refood numa lógica de C2C.
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O estudo contribui para um novo quadro de referência nas áreas de investigação-base deste trabalho, em particular, para a compreensão de como agem as organizações de serviços, particularmente as não lucrativas, face às interações estabelecidas entre os seus utilizadores, e se conseguem proporcionar condições para uma melhor experiência com o serviço e favorecer a cocriação de valor.
Neste caso, pode concluir-se que, no que respeita aos voluntários, existe também sempre cocriação de valor porque todos realizam valor, no sentido em que eles procuram um serviço onde se possam realizar, já que buscam muitas vezes através do voluntariado sentir-se bem com a ajuda que prestam, sentirem-se úteis, e isso é importante para as suas vidas, os beneficiários são recursos que estes integram com outros recursos nas suas vidas para criar valor, independentemente das interações menos positivas que possam ter com os beneficiários, pois como muitos referiram, não é isso que afeta a sua experiência. Quanto aos beneficiários, o processo de cocriação de valor passa também pela integração de recursos, físicos e imateriais, que fazem de forma colaborativa com a Refood, nomeadamente com os seus voluntários. Nesses recursos estão incluídas as atividades que eles põem em prática com vista a obtenção de determinado objetivo, que trás valor para si, mas que é alcançado em colaboração com interações que estabelecem com os voluntários, e com outros indivíduos (outros beneficiários, outras organizações, família, amigos, etc.), caso contrário, a integração é mais limitada e estão apenas a aceitar a proposta de valor material apresentada pela Refood e a realizar o benefício por meio do uso (consumo) do serviço (enquanto output). A sua realização de valor é tanto mais integral quanto maior a sua disponibilidade para a interação na criação desse valor.
Tentou-se portanto neste estudo perceber que atividades são realizadas pelos beneficiários no seu contexto, concluindo-se que existem vários estilos de cocriação de valor em função da interação e da integração de recursos que é estabelecida em cada caso.