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Organismes de gestion des destinations, technologies et distribution

1.2. INFORMATION ET TECHNOLOGIES DE L’INFORMATION EN

1.2.3. Organismes de gestion des destinations, technologies et distribution

Até agora esse capítulo tentou restabelecer a força das críticas de McDowell a Davidson, bem como mostrar como o autor de Mente e Mundo se posiciona frente a certas questões. Acredito que, nesse momento, diante do ponto mais profundo da crítica, e da defesa de Davidson apresentada no capítulo anterior, poderemos julgar de forma mais profícua e justa as conclusões que devemos tirar do debate.

O primeiro ponto a ser ressaltado é a crítica de McDowell ao monismo anômalo. Sem essa tese, não é fácil saber o que ainda fica de pé na imagem geral defendida por Davidson.

O monismo anômalo tenta realizar uma verdadeira façanha. Um mapeamento um tanto superficial do terreno pode ser útil para nossos propósitos. Vemos um conflito entre perspectivas diversas. Na dimensão epistemológica, temos aqueles que defendem a unificação metodológica das ciências e aqueles (como os neo-wittgensteinianos) que defendem um dualismo metodológico (distinguindo o estudo do homem das ciências naturais). Na dimensão ontológica, temos a oposição entre monistas (como os materialistas) e dualistas (como os cartesianos).

Normalmente, quem era monista num departamento (ontológico ou metodológico), acabava sendo-o em ambos, o mesmo valendo para os dualistas. Os dualistas tendiam a negar qualquer tentativa de reducionismo naturalista, enfatizando o caráter sui generis da mente e a impossibilidade de reduzir, ontologicamente, a mente ao corpo. Tais reinos eram caracterizados como essencialmente antagônicos, sendo um marcado pela liberdade e o outro pelo determinismo.

Em sua teoria do monismo anômalo, Davidson tentou achar uma via media. Ele queria defender um monismo ontológico fisicalista (típico dos materialistas) que seria compatível com um pluralismo metodológico. Davidson pretendia operar essa junção, pois angústias vindas de direções opostas exigiam uma postura de compromisso. O resultado final, evidentemente, precisava ser consistente.

Cruamente falando, o monismo anômalo consiste na união da tese de que as ações e pensamentos humanos não são determinados por leis naturais com a tese de que eventos mentais, considerados isoladamente, são eventos físicos.

Davidson diz adotar uma via kantiana diante do confronto entre o fisicalismo determinista e o anomalismo mental.359 Na terceira antinomia da Crítica da Razão Pura, vemos que a

resposta kantiana segue a seguinte linha: fenômenos mentais acontecem no tempo e, portanto, estão sujeitos ao princípio de causalidade, não escapando do determinismo da natureza.360 No

entanto, eles são, qua fenômenos (Erscheinungen), apenas as aparências (Erscheinen), ou as manifestações no tempo, de atos realizados por um sujeito numênico que estaria fora do tempo e poderia, portanto, escapar do princípio nomológico da causalidade e agir como uma causa livre.

De certa forma, “Davidson substitui a distinção transcendental kantiana entre fenômenos e

noumena pela distinção entre diferentes formas de descrever o mesmo evento em termos

físicos ou psicológicos”.361 Mas será que podemos igualar assim, tão facilmente, essas duas

distinções?362

Numa certa leitura de Kant, esposada em Mente e Mundo, o mundo sensível seria uma espécie de aparência do mundo numênico, que, no final das contas, é o mundo real, mas inacessível ao sujeito. Portanto, para nós, o determinismo das ações, enquanto fenômenos que se apresentam à observação, poderia ser visto como a forma como a liberdade dos sujeitos numenais reais aparece no mundo empírico.363 Ou seja, sujeitos numenais poderiam ser

realmente livres, sendo o aspecto determinado de suas ações, consideradas como eventos naturais, apenas sua forma fenomenal de aparecer. Num certo sentido, a liberdade poderia ser real, sendo o determinismo apenas aparente.

359 Ver Davidson (Mental Events, 1970).

360 Ver Nannini (Physicalism and the Anomalism of the Mental, 1999).

361 Nannini (Idem, 1999:109 - “Davidson substitutes the Kantian transcendental distinction of phenomena and noumena

with the distinction of two different ways of describing the same events in physical and psychological terms”).

362 Rorty (McDowell, Davidson, and Spontaneity, 1998) faz essa mesma comparação entre as distinções kantianas e o

contraste de descrições de Davidson, vendo um grande avanço na postura davidsoniana, que nos levaria a um pragmatismo naturalista (naturalistic pragmatism) que nos permitiria descrever coisas conforme nossos interesses.

Não pretendo aqui testar a viabilidade da posição kantiana, mas apenas verificar como sua aproximação com Davidson pode iluminar certas limitações de sua apropriação. Quando substituímos a distinção entre fenômeno e noumenon por diferentes descrições da mesma realidade, a solução kantiana não se apresenta mais como possível. Na versão davidsoniana, a liberdade não poderia mais ser uma propriedade da realidade, e o determinismo não poderia mais ser uma propriedade da aparência. Temos exatamente o contrário: a realidade, física, é determinista, ou o mais determinista que se pode ser, e a liberdade humana é uma aparência. Como salvar uma liberdade genuína, se admitimos que todo evento mental é um evento físico, e os eventos físicos obedecem a leis estritas? Como podemos ser livres se toda nossa atividade mental é idêntica a eventos físicos submetidos a leis naturais?

Frente a essas dificuldades, é razoável concluir que a anomalia do mental é “simplesmente uma característica epistêmica da linguagem psicológica, por meio da qual pensamentos e ações humanas são normalmente descritos”.364 Ou seja, não estamos autorizados a retirar daí uma

tese ontológica substantiva. Se aceitarmos uma ontologia fisicalista (entendida a physis como reino da lei), então não temos como acomodar uma liberdade real para o homem. “Se aceitarmos uma forma fisicalista do monismo anômalo, então o anomalismo do mental é um aspecto epistêmico da linguagem da psicologia popular (folk psychology) insuficiente para tornar possível a liberdade metafísica do homem”.365

Vamos explorar ainda mais a tese de que o mesmo evento pode ter uma descrição física e outra mental. Uma forma de entender essa afirmação seria ver as propriedades mentais como extrínsecas aos objetos e eventos físicos.366 Uma propriedade extrínseca é aquela que não altera

a essência daquilo que uma coisa é. Alguns exemplos de propriedades extrínsecas seriam o fato de um objeto estar à direita de outro, ou ser pensado por alguém. O fato de a Serra do Curral ter a propriedade de ter sido pensada por mim agora não altera aquilo que ela é, nem seu poder causal de bloquear correntes de ar. Mas se o mental fosse apenas uma propriedade extrínseca,

364 Nannini (Physicalism and the Anomalism of the Mental, 1999:110 - “... simply an epistemic characteristic of the

psychological language by means of which human thoughts and acts are usually described”).

365 Nannini (Physicalism and the Anomalism of the Mental, 1999:110 - “... if one accepts a physicalistic form of ontological

monism (...), then the Anomalism of the Mental is an epistemic character of the language of folk psychology insufficient to make possible the (...) metaphysical freedom of man...”).

então ele seria irrelevante ou inerte: o mundo, visto como basicamente físico, continuaria da mesma forma, com suas engrenagens e alavancas, indiferente ao mental.

Ao se defender das críticas ao monismo anômalo, Davidson rejeitou tal tipo de abordagem do mental, chegando a fazer afirmações com um evidente sabor hegeliano: “no que tange àquelas entidades físicas que também são entidades mentais, poderíamos, da mesma forma, dizer que elas não são senão mentais”.367 Mas a noção de superveniência do mental parece

impedir afirmações desse tipo. Quando tentamos ver o que se esconde por trás da retórica de Davidson, não encontramos uma teoria que permita afirmações como essa.

Uma pergunta insiste em aparecer: como características mentais de um evento poderiam afetar características físicas de eventos subsequentes? Esse é o clássico problema que os dualistas enfrentaram. Dizer que eventos mentais e físicos são idênticos, daí a eficácia causal dos primeiros, não explica como propriedades mentais podem causar algo enquanto tais. Para que um dualista, como Malebranche, permitisse que a alma interferisse no corpo, ele “tinha Deus trabalhando em tempo integral”.368

É curioso como um monista declarado como Davidson esteja às voltas com um problema típico dos dualistas. Isso se dá porque seu monismo parece artificial, havendo um dualismo de base que não se deixa unir numa imagem monista da realidade. A forma como Davidson pretende garantir uma imagem integrada do universo, que não “se desintegre num díptico do mental e do físico”, é que se encontra em questão.369

Descartes dizia que mente e matéria são duas substâncias distintas. A noção de substância era corrente no século XVII, e designava algo auto-subsistente e capaz de ter propriedades.370 A

mente seria uma substância cuja natureza essencial é pensar, admitindo os pensamentos uma série de propriedades específicas. Já a matéria seria algo extenso, cabendo a ela diferentes propriedades. Nada poderia, ao mesmo tempo, ser um pensamento e algo extenso no espaço. Os homens, que aparentemente unem neles esses dois elementos, seriam, na verdade, criaturas

367 Davidson (La mesure du mental, 1994:31-2 - “... relativement aux entités physiques qui sont aussi des entités mentales,

on pourrait aussi bien dire qu’elles ne sont rien d’autre que mentales”).

368 Leopardi (Anomalous Monism, 1999:118 - “... Malebranche had God working full time”). 369 Davidson (Introduction, 1980:xi - “... disintegrate into a diptych of the mental and the physical”). 370 Ver Evnine (Donald Davidson, 1991: cap.4).

compostas, reunindo neles duas substâncias diferentes (corpo e alma). Para Descartes, as diferentes substâncias poderiam interagir entre si, mas ainda assim seriam essencialmente distintas.

Davidson é monista e materialista (ou fisicalista). Ele afirma que, num certo sentido, a mente é idêntica à matéria. Eventos, físicos ou mentais, possuem uma única natureza. Mas será que Davidson motiva satisfatoriamente suas afirmações desse gênero? Surge sempre a desconcertante impressão de que Davidson nos convida a pensarmos em círculos quadrados. Descartes, diante do dualismo tipicamente moderno, não tentou, artificialmente, emendar as coisas, mas aceitou a diferença. E a diferença da qual falamos não é meramente metodológica, mas ontológica. Não sei como as afirmações de Davidson poderiam ser feitas por alguém que aceita a visão, tipicamente moderna, de um mundo desencantado essencialmente governado por leis naturais.

Davidson diz sempre que “o mental não é uma categoria ontológica, mas conceitual”.371

Essa afirmação parece negligenciar a dificuldade que enfrentou Descartes, e tantos outros dualistas. No pensamento de Davidson, “não podemos dizer que uma razão causa uma ação para a qual ela é uma razão por que os estados mentais que constituem a razão possuem os conteúdos proposicionais que possuem. E, dada essa lacuna, torna-se questionável a atração da tese mesma de que razões causam ações”.372

Não é à toa que McDowell vê um problema de base no pensamento davidsoniano. Se o mundo ele mesmo for conceitual, ele poderá se abrir para um sujeito possuidor dos conceitos relevantes, detentor de uma segunda natureza adequada. Nesse caso, os objetos mentais, ou razões, serão mundanos e poderão causar coisas de pleno direito. Num universo intensional, tudo, inclusive os poderes causais, dependem de como uma coisa é vista ou descrita. Uma frase dita gera a reação que gera não por ser o barulho que é, mas por carregar o sentido que carrega. Reduzir a causalidade ao nível dos eventos nos impossibilita de falarmos no poder causal do significado. Não foi o barulho, mas o sentido dele, que causou a reação. O problema não é dizer 371 Davidson (Problems in the Explanation of Action, 1987:114 - “... the mental is not an ontological but a conceptual

category”).

372 Evnine (Donald Davidson, 1991:164 - “... we cannot say that a reason causes an action for which it is a reason because

the mental states which constitute the reason have the propositional contents they do. And given this lacuna, it becomes doubtful how attractive the thesis is that reasons cause actions at all”).

que uma coisa intensional é um evento no mundo, mas sim reduzir, ontologicamente, eventos no mundo a uma base materialista. É o fisicalismo e a superveniência do mental que impedem Davidson de uma saída legítima das dificuldades.