Na medida em que pessoas se comunicam e interagem, vão se organizando em torno de objetivos comuns e, com isso, dando forma a atividades organizacionais do grupo e criando uma cultura de participação coletiva. Segundo Kenski (2007), na atualidade, o surgimento de um novo tipo de sociedade é determinado, principalmente, pelos avanços das tecnologias digitais de comunicação e informação.
O conceito de “Sociedade da Informação” (SI), segundo Queiroz (2004), nasceu no Japão, em princípios da década de 60, quando os especialistas japoneses consolidaram uma série de conceitos que, a partir da Segunda Guerra Mundial, tentaram dar conta tanto do grande
desenvolvimento tecnológico e econômico de seu país, quanto das mudanças sociais decorrentes da Guerra.
Transportado para a Europa no final dos anos 1970, este conceito, ao lado do conceito de “Sociedade do Conhecimento”, evolui fortemente no discurso ocidental, até se tornar parte essencial das estratégias político-econômicas do atual mundo globalizado.
A Sociedade da Informação é tanto uma abordagem teórica específica como uma denominação ampla, difusa, muitas vezes utilizada como sinônimo de sociedade pós-industrial. É, ainda, em certos casos, uma denominação usada para se referir à parte da sociedade mais diretamente vinculada ao uso da tecnologia de informação e de comunicação – TIC (PORCARO, 2005, p.14).
Castells (1999) é um autor de referência neste assunto, tendo em vista que o seu livro “A era da informação: economia, sociedade e cultura” sugere a passagem do modo de desenvolvimento industrial para o modo informacional, que decorre da convergência das mudanças sociais com as tecnológicas. De qualquer maneira, não se trata de uma única sociedade, mas sim de sociedades plurais centradas na informação e na comunicação para a construção das relações econômicas, culturais, políticas, sociais, entre outras.
Uma Sociedade da Informação aberta e universal somente poderá se desenvolver e subsistir se ela for baseada em princípios políticos fundamentais que sejam compreendidos por todos. O acesso universal a todos os novos serviços de informação e mídia é, em muitas mentes, o mais importante desses princípios e está implicitamente incorporado à Declaração Universal dos Direitos Humanos, particularmente o artigo 19, que trata da liberdade de expressão, e o artigo 27, relacionado à liberdade de acesso à informação e proteção da segurança e privacidade dos usuários (CYRANEK, 2000, p.128).
Para a UNESCO, a Sociedade da Informação representa um desafio e uma oportunidade. O desafio é que a Organização deve encontrar um papel original e inquestionável num domínio que está agora atingindo a sociedade como um todo, e isso, portanto, interessa a muitas outras organizações. A oportunidade é que os valores e métodos da Sociedade da Informação darão à UNESCO uma chance inigualável para cumprir uma de suas missões fundamentais, como consta em sua Constituição, ou seja, desenvolver o intercâmbio desinteressado de ideias e de conhecimento.
Quéau (1998) cita que a estratégia da UNESCO pode ser resumida em duas ideias principais:
- devido à sua missão intelectual e moral, a UNESCO se concentra nos aspectos de “conteúdo” da Sociedade da Informação, incluindo o acesso à informação, treinamento e questões éticas;
- no tocante à infraestrutura da Sociedade da Informação, a UNESCO se concentra na “infoestrutura” (políticas, redes e aplicações), em lugar da telecomunicação básica e das instalações de informática.
De certa forma, o direito à comunicação significa igualmente o direito a ter presença e participação. Não apenas acesso à informação, mas muito mais que isso, ter acesso aos meios de produção e distribuição da informação, o que pode ser ameaçador aos grandes monopólios da indústria da mídia e do entretenimento, que até então empurravam seus conteúdos e suas “verdades” aos consumidores de informação.
Segundo Lane (apud BELLONI, 2005, p.59), foi Bell (1976) quem propôs a ideia de uma sociedade do conhecimento. Para ele,
(...) a sociedade dedicada ao conhecimento é aquela em que, em maior grau que em outras sociedades, seus membros: a) investigam as bases de suas crenças sobre o homem, a natureza e a sociedade; b) se guiam (talvez inconscientemente) por normas objetivas de verificação e, na educação superior, seguem regras científicas de comprovação e dedução na investigação; c) dedicam importantes recursos a essa investigação, e contam para isso com uma ampla reserva de conhecimentos; d) acumulam, organizam e interpretam o conhecimento em um esforço constante para retirar resultados de utilidade imediata, e) empregam esse conhecimento para iluminar (e quem dera) modificar seus valores e metas, assim como para avançar com eles (Bell 1976, p.207 apud BELLONI, 2005).
Retomando os quatro pilares, Delors (1998), aponta como principal consequência da Sociedade do Conhecimento a necessidade de uma educação continuada, onde podemos, de forma sucinta, acrescentar:
Primeiro pilar: aprender a conhecer
Implica aprender a aprender, compreendendo a aprendizagem como um processo que nunca está acabado. A pesquisa como princípio educativo (DEMO, 1996) torna-se relevante, pois o aprender a aprender supera a “decoreba”, a cópia, a imitação.
O aluno precisa ser instigado a buscar o conhecimento, a ter prazer em conhecer, a aprender a pensar, a elaborar as informações para que possam ser aplicadas à realidade que está vivendo. No processo de produzir conhecimento, torna-se necessário ousar, criar e refletir sobre os conhecimentos acessados para convertê-los em produção relevante e significativa.
Segundo pilar: aprender a fazer
Trata-se de ir além da tarefa repetitiva, do ato de repetir o que está feito, mas sim de buscar o fazer na criação com criticidade e autonomia. O aprender a fazer vem coligado com o desenvolvimento de aptidões que
levam a pessoa a atuar na sua profissão com mais competência e habilidade.
Aliando aprender a conhecer e aprender a fazer, o professor precisa superar em sua prática pedagógica a dicotomia teoria e prática.
Terceiro pilar: aprender a viver juntos
Os avanços tecnológicos, científicos e eletrônicos não estão trazendo a vida em plenitude para o homem. Ao contrário, vieram desafiá-lo e angustiá-lo, levando-o ao estresse, à competitividade exacerbada, a um pensamento isolado e fragmentado, impedindo-o de ver o todo e retirando a responsabilidade de atos isolados perante a sociedade. Neste processo, embevecido pela tecnologia, o homem passou a destruir a Terra e, em especial, a si mesmo e os seus semelhantes (CARDOSO, 1995).
Os processos de entreajuda, de colaboração, de cooperação precisam ser instigados sob pena de o aluno não estar preparado para enfrentar as exigências que a sociedade vem apresentando nos diversos segmentos.
Quarto pilar: aprender a ser
É importante superar a desumanização do mundo, conferindo ao homem liberdade de pensamento e responsabilidade sobre seus atos, na busca de desenvolvimento dos processos de aprender a ser, contemplando o desenvolvimento integral da pessoa: inteligência, sensibilidade, sentido ético e estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade, iniciativa (GADOTTI et al., 2000).
Trata-se de levar em conta as inteligências múltiplas, as potencialidades dos alunos em plenitude, a possibilidade para criticar, para participar e para criar.
Quadro 2. Os quatro pilares da aprendizagem colaborativa Fonte: MORAN, MASETTO, BEHRENS, 2000, p.78-83.
Desta forma, cabe à escola tornar possível o desenvolvimento destes quatro pilares. Os profissionais preparados para a escola do século XXI deverão ser criativos, críticos, autônomos, questionadores, participativos e, principalmente, transformadores da realidade social.
Herculano (2004) ressalta que, defender o direito à comunicação, construir sociedades da informação e da comunicação significa lutar para que os cidadãos passem a ser também produtores de conteúdos, criar alternativas aos produtos das grandes corporações, e isso ameaça a indústria que está aí, ditando as regras e os padrões.
O ser humano já não é visto apenas como um recurso para atingir um fim, mas como um ser dotado de inteligência, habilidades, valores. Enquanto a informação pode ser encontrada em objetos inanimados, o conhecimento só pode ser encontrado nas pessoas. A capacidade de desenvolver o conhecimento é inerente ao ser humano e é este aspecto que diferencia a sociedade do conhecimento das demais.
Em síntese, assim como a Sociedade Industrial trouxe as tecnologias do vapor, a eletricidade e o motor a combustão para modificar o processo de produzir bens materiais, a
Sociedade da Informação ligou-se às tecnologias emergentes da microeletrônica e da telecomunicação para processar e reunir estoques de dados relacionados, visando uma eventual transferência destes dados. Em momento algum a Sociedade da Informação pretendeu ser responsável pelo conhecimento gerado na sociedade. Esta foi sim, segundo a UNESCO, uma tecnoutopia e nunca uma utopia para um conhecimento social ampliado.
Por isso, há se de ter cuidado ao usar o termo “Sociedade da Informação”, visto que o seu significado é simples e limitado quando comparado ao vigor dinâmico de uma ação completa de conhecimento.
Buscando as distinções e características dos termos “informação” e “conhecimento”, tem- se que o termo informação deriva do latim e significa um processo de comunicação ou algo relacionado com comunicação. Porém, existem várias definições de informação, cada uma mais complexa que a outra. Pode-se dizer que a informação é um processo que visa o conhecimento, ou, simplesmente, informação é tudo o que reduz a incerteza. Um instrumento de compreensão do mundo e da ação sobre ele.
A informação sintoniza o mundo. Como onda ou partícula, participa na evolução e da revolução do homem em direção à sua história. Como elemento organizador, a informação referencia o homem ao seu destino; mesmo antes de seu nascimento, através de sua identidade genética, e durante sua existência pela sua competência em elaborar a informação para estabelecer a sua odisseia individual no espaço e no tempo (BARRETO, 1994).
Segundo o autor, a importância que a informação assumiu na atualidade pós-industrial recoloca para o pensamento questões sobre a sua natureza, seu conceito e os benefícios que pode trazer ao indivíduo e no seu relacionamento com o mundo em que vive. A informação tornou-se uma necessidade crescente para qualquer setor da atividade humana, sendo indispensável, mesmo que a sua procura não seja ordenada ou sistemática, mas resultante apenas de decisões casuísticas e/ou intuitivas.
A informação tornou-se tão importante que Drucker (1993) defende o seu primado como a base e a razão para um novo tipo de gestão, em que a curto prazo busca a troca do binômio capital/trabalho pelo binômio informação/conhecimento como fatores determinantes no sucesso empresarial. Caminha-se para a sociedade do saber, onde o valor da informação tende a suplantar a importância do capital. A informação e o conhecimento são a chave da produtividade e da competitividade.
Nessa perspectiva, Belloni (2005) ressalta que a sociedade tende a transformar-se numa organização aprendente, na medida em que precisa aprender continuamente para responder às transformações que se produzem em seu contexto. Dessa forma, é capaz de adaptar-se e integrar- se criativamente a novas situações, ao mesmo tempo em que cria outras. Isso exige novos meios, recursos (físicos) – “mediação tecnológica”, bem como competências das pessoas para lidarem com essas novas situações – “mediação didática”, que serão discutidas no próximo capítulo.
2 ESCOLA E CONHECIMENTO
Após aprofundar os estudos sobre os percursos históricos e perspectivas da educação, percebemos, conforme afirma Padilha (2012, p.4), que a Educação na América Latina tem uma dívida dupla: de qualidade com o século XX (do qual ainda não conseguimos atingir padrões aceitáveis das competências básicas) e de inovação com o século XXI, do qual não conseguimos estabelecer ou “transformar” os processos educativos mais aderentes a uma sociedade que se transformou profundamente.
Segundo Goulart (2014, p.12), a história recente da relação entre as TICs e a Educação mostra a existência de um grande desequilíbrio em comparação a outros setores da sociedade. Apesar de algumas escolas de renome se esforçar para manter a prioridade de adoção das novas tecnologias, em geral, o sistema educacional, especialmente o público, demora a obter as vantagens oferecidas pelas TICs, seja pela falta de recursos, seja pela resistência dos protagonistas, enfim, as iniciativas de sucesso pareceram sempre ancoradas na ousadia, na perseverança e até na obstinação de gestores ou docentes, para que pudessem ter sido colocadas em práticas.
Neste processo, entendi ser fundamental refletir sobre a escola que temos e a queremos. Nesta perspectiva, busquei conhecer as concepções dos envolvidos na pesquisa (alunos e docentes), a influência das TDICs nos processos e a reflexão sobre seus papéis.