Em muitos lugares do Brasil vigora a lei de proibição do celular em sala de aula. O projeto de lei que originou a norma diz que o uso do telefone pode desviar a atenção dos alunos, possibilitar fraudes durante as avaliações e provocar conflitos entre professores e alunos e alunos entre si, influenciando o rendimento escolar.
Atualmente, tecnologias e recursos cada vez mais avançados surgem a cada modelo lançado no mercado, como Internet móvel, acesso às redes sociais, aplicativos atrativos e uma infinidades de outros recursos, apresentando outras funcionalidades e abrindo novamente o debate sobre como se podem ser empregadas no processo de aprendizagem.
Deste modo, apesar de ainda haver algumas resistências, a UNESCO, em 2013, durante a
Mobile Learning Week, em Paris, publicou um guia com dez recomendações e treze motivos em
que tenta ajudar os governos a implantarem estes recursos na sala de aula e a serviço da educação. 10 recomendações aos governos:
– Conscientizar sobre sua importância – Expandir e melhorar opções de conexão – Ter acesso igualitário
– Garantir equidade de gênero
– Criar e otimizar conteúdo educacional – Treinar professores
– Capacitar educadores usando tecnologias móveis
– Promover o uso seguro, saudável e responsável de tecnologias móveis – Usar tecnologia para melhorar a comunicação e a gestão educacional
13 motivos para tornar o celular uma ferramenta pedagógica: – Amplia o alcance e a equidade em educação
– Melhora a educação em áreas de conflito ou que sofreram desastres naturais – Assiste alunos com deficiência
– Otimiza o tempo na sala de aula
– Permite que se aprenda em qualquer hora e lugar – Constrói novas comunidades de aprendizado – Dá suporte a aprendizagem in loco
– Aproxima o aprendizado formal do informal – Provê avaliação e feedback imediatos – Facilita o aprendizado personalizado – Melhora a aprendizagem contínua – Melhora a comunicação
– Maximiza a relação custo-benefício da educação
O documento começa com uma orientação sobre a necessidade de ter políticas que incentivam o uso de tecnologias móveis em sala de aula e traz à tona a necessidade de treinar professores que ainda não estão completamente familiarizados com estas ferramentas. Outras recomendações dizem respeito à criação de conteúdo adequado e à promoção do uso seguro e saudável das tecnologias.
Azevedo (2012) afirma que o uso consciente das tecnologias na educação propicia um repensar da educação tradicional, a partir da renovação dos saberes e da possível e inevitável disposição para o diálogo dos docentes com os demais atores do processo educativo.
A inovação não é uma mudança qualquer, nem a substituição de uma ferramenta (lápis e caderno) por outra (computador). Ela tem um caráter e uma proposta conscientemente assumida para provocar melhorias na ação educativa. Não é uma simples renovação de recursos ou metodologias de trabalho. Implica uma ruptura com a situação vigente, mesmo que seja temporária e parcial. Inovar supõe trazer à prática educativa, deliberadamente planejada e declarada. A inovação implica mudanças paradigmáticas conscientemente assumidas, que mostram uma maneira de ser e estar na educação, surgidas como resposta aos desafios presentes na instituição ou sistema. Para que aconteça, a inovação pressupõe o envolvimento dos sujeitos escolares (FANTIN E RIVOTELLA, 2012, p.181).
Alguns autores comentam que a mediação da tecnologia tem favorecido o surgimento do aluno autônomo e isso tem impulsionado mudanças nos modelos de formação.
A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É nesse sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas de liberdade (FREIRE, 2003, p.121).
É com ela, a autonomia, penosamente construindo-se, que a liberdade vai preenchendo o “espaço” antes “habitado” por sua dependência. Sua autonomia, que se funda na responsabilidade, vai sendo assumida, comenta Freire (2003, p.37), que complementa: “(...) divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado”.
Nesse sentido, considerando a presença da tecnologia na cultura e na sociedade, e neste processo de reflexão sobre sua inserção nos processos educativos, solicitei aos alunos participantes desta pesquisa que definissem, em três palavras, o que pensam sobre tecnologia. As palavras que surgiram foram: essencial, evolução, legal, tudo, inovação, indispensável, avanço, futuro, facilidade, rapidez, informação, mudança, possibilidades, salvação da comunicação moderna, praticidade, útil, atualidade, maravilha.
Dentre as citações feitas pelos alunos, destacamos:
“(...) para mim é algo essencial, que se nós não tivermos nas nossas mãos todos os dias, parece que vai faltar algo no nosso corpo” (V.A.).
“(...) não só para mim, mas para todos os jovens, é basicamente a nossa vida, mas nós usamos o celular para nos comunicar, Internet para falar com as outras pessoas e basicamente é isso” (L.B.).
“(...) é qualquer coisa que a gente possa usar em nosso beneficio que seja prático, ou seja, a gente tem que aplicar o que a gente aprende no nosso dia a fim de deixar nosso dia mais prático, mais fácil de se lidar” (L.S.).
“(...) representa para mim o futuro, porque sem a tecnologia a gente não consegue evoluir, porque cada dia que passa a gente vai vendo novas tecnologias conhecidas ajudam na saúde, na educação, no entretenimento, isso vai gerando em torno das pessoas, no dia a dia delas” (G.J.).
“(...) eu uso para fazer tudo, eu acho que isso é realmente fundamental, tá no século XXI (...)” (G.M.).
Em relação a mesma proposta para os professores, o conceito de tecnologia é representado pelas palavras: futuro, ampliação de conhecimento, relação social, meio facilitador, ferramenta, descobertas, mudanças, inovação, instrumento, comunicação, atratividade, necessidade, aprendizado, atualização.
Entendo ser uma necessidade cada vez mais presente no dia-a-dia do professor e que hoje não podemos mais ficar alheios as novas demandas educacionais e a realidade dos jovens que recebemos nas escolas, entretanto, também acredito que de nada adiantará tecnologias diferenciadas se o professor não tiver claro quais são as suas intenções e se não souber trabalhar criticamente as ferramentas que estão cada vez mais presentes na nossa rotina. (S.G)
A partir dos relatos, concordo com Kenski (2002), que as TICs invadiram o cotidiano das pessoas e passaram a fazer parte dele. São vistas não apenas como instrumentos tecnológicos, mas como companhias, continuação de seu espaço de vida.
As respostas ao questionamento, nesta pesquisa, por professores e alunos revelam, portanto, as TDICs como necessárias e como oportunidade. Deste modo, concordo com Fantin (2012), quando ressalta a necessidade de ir além da ideia de considerar as mídias e tecnologias como recursos ou aspectos importantes da educação, mas sobre a importância fundamental de reconhecer como parte da cultura, capaz de propiciar um repertório de saberes e competências correlacionados e integrados a todas as mídias, problematizando tanto a ênfase na leitura crítica quanto na produção criativa. Afinal, as novas práticas comunicativas significam a oportunidade de produzir outras formas de expressão e representação, como condição de participação e cidadania.
Pensando em diferentes perfis de usuários, o norte-americano Marc Prensky (apud MATTAR, 2013) desenvolveu os conceitos de nativos e imigrantes digitais. Os nativos digitais seriam aqueles que nasceram e cresceram na era da tecnologia digital, enquanto que os imigrantes digitais nasceram na era analógica e migraram para o mundo digital. Por consequência, esses grupos pensariam e processariam informações de maneiras diferentes.
Nossos alunos (nativos) são falantes (fluentes) na linguagem digital dos computadores, videogames, Internet e dispositivos móveis, relacionam-se de maneira aleatória com a informação e são multitarefas. Os imigrantes preferem as coisas em ordem, sequenciadas, individualmente e seriamente.
Refletindo sobre isso, concordo com Bonilla (2005) quando afirma que se torna urgente que o mundo de dentro entre em sintonia com o mundo de fora da escola, de forma que jovens-alunos possam construir significações, processo que depende de cada um – da cultura em que está inserido, da interação que realiza com os outros, da estrutura de sua própria rede de significados.
Neste sentido, buscando estabelecer esta relação entre educação e tecnologia, Belloni (2012
apud FANTIN e RIVOTELLA, 2012, p.52), destaca a mídia-educação como parte do conjunto de
competências a que as crianças e os adolescentes têm direito, sendo indispensável, como o letramento, à formação do cidadão. As definições mais atuais de mídia-educação, segundo a autora, referem-se a:
inclusão digital: a apropriação dos modos de operar essas “máquinas maravilhosas” que abrem as portas do mundo encantado da rede mundial de computadores, possibilitando a todos se tornarem produtores de mensagens midiáticas;
dimensão objeto de estudo: à “leitura crítica” de mensagens, agora ampliada para todas as linguagens das telas;
dimensão meio de expressão: indispensável para o exercício da cidadania, ou seja, para estimular a participação ativa dos jovens baseada na valorização das diversidades culturais e identitárias;
dimensão ferramenta pedagógica: ao seu uso em situações de aprendizagem, ou à integração aos processos educacionais.
Dessa interação entre as crianças e as interfaces digitais surgem novas formas de perceber e apreender as informações visuais, sonoras, semânticas, de interpretá-las, classificá-las e utilizá- las em outras situações, ou seja, novos modos de aprender.
O que se busca, de acordo com Bonilla (2005, p.115), é uma dinâmica educacional que insira, efetivamente, professores e alunos no processo pedagógico, considerando-os como atores/autores desse processo. Atores, enquanto sujeitos que comunicam, executam e partilham ações, percebem e interpretam o mundo, a linguagem e os atos próprios do seu contexto, compartilhando uma compreensão comum de suas trocas, o que permite apreensão de significação dos acontecimentos. Autores, enquanto sujeitos construtores, produtores e transformadores de seus mundos, das regras que os engendram e governam seu julgamento.
De acordo com Padilha (2012), a inovação tecnoeducativa é um processo de mudança estimulado por oportunidades ou dificuldades; ocorre para aproveitar ou superar essas questões e envolve um suporte tecnológico, colocado à serviço da qualidade da Educação. A nova geração precisa estar preparada para atuar na cultura da informação e do conhecimento.
Tal processo deve estar aberto à ressignificação, à socialização, aproveitar as possibilidades e potencialidades oferecidas pelas tecnologias, permitir-se desestruturar pelas mudanças provocadas por essas tecnologias e fazer disso um ato de criação, que permita um efetivo inserir- se da escola no mundo da vida.