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Para explicar o papel da escola, Vygotsky (2004) faz uma importante distinção entre os conhecimentos construídos na experiência pessoal, concreta e cotidiana das crianças, que ele chamou de “conceitos cotidianos”, ou espontâneos, e aqueles construídos e acumulados pela humanidade, elaborados na sala de aula, adquiridos por meio do ensino sistemático, que chamou de “conceitos científicos”.

Não se trata, no entanto, de separar os conceitos, pois apesar de diferentes, estão intimamente relacionados e se influenciam mutuamente, pois fazem parte, na verdade, de um único processo, longo e complexo, que requer uma intensa atividade mental.

(...) a escola, por oferecer conteúdos e modalidades de pensamento bastantes específicos, tem um papel diferente e insubstituível, na apropriação pelo sujeito da experiência culturalmente acumulada. Justamente por isso, ela representa o elemento imprescindível para realização plena dos indivíduos (que vivem em sociedades escolarizadas), já que promove um modo mais sofisticado de analisar e generalizar os elementos da realidade (...) (VYGOTSKY apud REGO, 2004, p.104).

Segundo Moran (2014, p.167):

A escola é um dos espaços privilegiados de elaboração de projetos de conhecimento, de intervenção social e de vida. É um espaço privilegiado para experimentar as situações desafiadoras do presente e do futuro, reais e imaginárias, aplicáveis ou limítrofes. No entanto, a promoção do desenvolvimento integral da criança e do jovem só é possível com a união do conteúdo escolar e da vivência em outros espaços de aprendizagem.

A partir destas premissas sobre o papel da escola, busquei conhecer a visão dos educandos, solicitando aos participantes desta pesquisa que definissem “escola” em três palavras. O resultado foi a representação através das palavras: necessária, boa, entediante, inevitável, alunos, esforço, estudo, amigos, eterna, futuro, conhecimento, segunda casa, aprendizado, ensino, arcaico, coletividade.

Destaquei, então, algumas publicações observadas em suas redes sociais: “(...) hoje em dia muitas escolas ainda são muito arcaicas (...)” (L.S.).

“Sobre as aulas começarem segunda-feira (...). Não estou psicologicamente preparada” (L.B.).

“Sobre o tédio da última aula (...)” (L.B.): a aluna insere em sua página, numa rede social, o desenho de uma sereia.

“Ei você quer sair da aula? É meu sonho”. (L.B.)

Como é possível observar, algumas definições trazem uma visão positiva e o reconhecimento da escola, no entanto, outras, relacionadas aos comentários extraídos da página da rede social revelam a insatisfação e a presença de características que foram constituídas historicamente: necessária, entediante, inevitável, arcaica.

Desejando conhecer também o ponto de vista dos professores, encontramos nas respostas palavras que em sua concepção definem escola: instituição, pessoas, educação, espaço de partilha, aprendizado e conhecimento. Uma visão mais otimista que a dos alunos, mas que parece que por algum motivo não consegue ser transmitidas para eles, indicando que a escola precisa ser repensada.

Neste sentido, concordo com Candau (2013, p.10) sobre a afirmação que “a necessidade de reinventar a escola surge como desejo, projeto e caminho a ser construído”. Uma tarefa complexa, que envolve muitas outras questões.

Vivemos tempos de grandes transformações tecnológicas que modificam profundamente as relações humanas e, portanto, o acesso e a geração do conhecimento passam a ser os motores do desenvolvimento (UNESCO, 2014). Faz-se necessário, portanto, discutir as “novas” formas de aquisição deste saber.

(...) os espaços e os tempos educacionais não são mais os mesmos, baseados na presencialidade e oralidade, onde professores falam e alunos escutam. São substituídos por trocas que se distribuem em tempos e espaços extraclasse, materializadas na escrita impressa, hipertextual e audiovisual, com imagens e sons, gravados ou sincrônicos, que podem ser lidos, vistos, ouvidos e modificados das mais diversas formas em redes de aprendizagem nas quais professores e alunos se comunicam e se ensinam mutuamente (...) (CRUZ, 2011, p.34).

Para Candau (2013), um dos desafios do momento é ampliar, reconhecer e favorecer distintos lócus, ecossistemas educacionais, diferentes espaços de produção da informação e do conhecimento, de criação e reconhecimento de identidades, práticas culturais e sociais. De caráter presencial e/ou virtual. De educação sistemática e assistemática. Onde diversas linguagens são trabalhadas e pluralidade de sujeitos interagem, seja de modo planejado ou com caráter mais livre e espontâneo.

Para a mesma autora, (CANDAU, 2000, p.13), os processos educativos se desenvolvem a partir de diferentes configurações. A pluralidade de espaços, tempos e linguagens deve ser não somente reconhecida, como promovida. A educação não pode ser enquadrada numa lógica unidimensional, aprisionada numa institucionalização específica. É energia de vida, de crescimento humano e de construção social.

A pesquisa “Inovação Tecnoeducativa: um olhar para projetos brasileiros”, realizada pela Fundação Telefônica e OEL com escolas públicas de todo o Brasil entre 2010 e 2011, sintetiza quatro dimensões da inovação interligadas:

Figura 2. Dimensões de Inovação Tecnoeducativa

Fonte: Caminhos para Inovar – Pesquisa Inovação Tecnoeducativa – 2012, p.4

Esta pesquisa (2012, p.5), destaca as principais habilidades que o aluno deve desenvolver ao integrar processos inovadores na Educação com foco na qualidade educacional e no uso de recursos de tecnologia para o desenvolvimento de seus potenciais no aprendizado do século XXI:

 Criatividade: conceber trabalhos originais, gerar novas ideias, prever mudanças e desenvolver produtos e processos inovadores utilizando recursos tecnológicos.

 Resolução de problemas: identificar e resolver situações complicadas, bem como tomar decisões, usando as ferramentas adequadas. Planejar e gerenciar projetos para chegar às soluções necessárias.

 Colaboração: utilizar mídias e ambientes digitais para se comunicar e para trabalhar, para apoiar sua aprendizagem individual e para contribuir com o aprendizado dos outros. Com base nessas interações, ter consciência e compreensão de valores de outras culturas.

 Cidadania digital: compreender as questões humanas, culturais e sociais e ter um comportamento ético. Defender e praticar o uso seguro, legal e responsável da informação e da tecnologia.

Ambiente favorável

Contexto em que a criatividade vem da troca

de conhecimentos não formalizados entre

professores e alunos, criando condições

propícias à interação e ao surgimento de novas

maneiras de pensar e de fazer.

Integração das TIC

Disponibilidade de equipamentos, atenção à formação de todos os envolvidos e à organização da gestão administrativa e pedagógica para garantir

que o uso da tecnologia se desdobre em inovação

e qualidade.

Tendências tecnológicas

Recursos que podem potencializar ou alterar práticas pedagógicas e ser

adotados em larga escala em curto,

médio ou longo prazo, de maneira a permitir novas formas de construção do conhecimento. Qualidade educativa Envolve a incorporação de novos espaços e mais pessoas ao processo, a definição de um currículo

alinhado à diversidade e relacionado com a vida cotidiana, e o estímulo à colaboração, respeitando direitos e saberes individuais.

 Organização de informações: planejar estratégias para suas pesquisas. Localizar, analisar, avaliar e sintetizar e utilizar as informações obtidas em uma variedade de fontes e meios de comunicação de forma ética e eficiente.

 Uso efetivo da tecnologia: entender conceitos de tecnologia, sistemas e operações. Selecionar e utilizar aplicativos de uma maneira eficaz e produtiva.

A necessidade do desenvolvimento destas habilidades vai ao encontro do pensamento de Rojo (2013, p.7), no qual as escolas são desafiadas a repensar essas novas formas de aprendizagem, a rever métodos e práticas, dar novos sentidos aos tempos e espaços, que prepare a população para um funcionamento da sociedade cada vez mais digital e também para buscar no ciberespaço um lugar para se encontrar, de maneira crítica, com diferenças e identidades múltiplas.

De acordo com Blinkstein (2012), a escola que queremos é aquela onde as crianças encontrem sua paixão intelectual desde cedo, que tenham professores que saibam alimentar isso de forma produtiva, tenham ferramentas apropriadas para expressar esse talento. Escolas onde as crianças aprendam a aprender, aprendam a ensinar outras pessoas, onde se crie o espírito cívico e democrático como uma coisa endêmica.

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