3. METHODOLOGIE
3.2 C ONTEXTE INSTITUTIONNEL ET POPULATION
Também de 1919 é o artigo de Freud intitulado Uma criança é espancada – uma
contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais48, onde analisa o masoquismo. Freud afirma ser surpreendente a freqüência com que aparecem, em sua clínica, pessoas (histéricas ou obsessivas) que afirmam ter a fantasia que envolve uma outra criança sendo espancada. Este texto teria sido baseado no estudo aprofundado de seis casos, sendo quatro femininos e dois masculinos. A fantasia de espancamento de uma criança causaria sentimentos de prazer, levando a sua repetição na infância e, algumas vezes, também na vida adulta. No clímax da fantasia, o indivíduo buscaria a satisfação masturbatória, de forma voluntária ou obsessiva (Freud, 1976g, pp. 225/229).
Essa fantasias seriam nutridas muito cedo, sempre antes da idade escolar, e no máximo até o sexto ano de vida da criança. A vergonha e a culpa relacionadas a elas seriam muito grandes. Vale ressaltar que os indivíduos que relataram essa fantasia peculiar em análise, dificilmente haviam sido espancados na infância. O sexo da criança criadora das fantasias primitivas, não mantém uma relação constante com o daquela que está sendo espancada – a qual recebe a agressão no traseiro nu. No caso das meninas, o agressor é sempre seu pai. A fantasia é definida pela frase: "O meu pai está batendo na criança que eu odeio!" Em uma segunda fase, o pai continua sendo o agressor, mas a criança espancada é a mesma que produz a fantasia. Há um alto grau de prazer ligado à fantasia. Na terceira fase da fantasia, não é mais o pai o agressor, sendo substituído por um professor, ou por algum outro adulto que o represente. Há agora várias crianças sendo espancadas e, na fantasia das meninas, são meninos que apanham (normalmente, na dos meninos também). A fantasia liga-se a uma grande excitação sexual, proporcionando um meio para a satisfação onanista (Freud, 1976g, pp. 227-233).
O amor da menina está fixado no pai que, possivelmente, fez "tudo o que podia" para conquistar sua afeição. Há uma "premonição" dos objetivos sexuais finais, e um desejo de ter um filho com o pai. A primeira fase da fantasia corresponderia ao desejo da menina de que o pai demonstrasse seu amor por ela batendo em uma criança rival (normalmente um irmão ou irmã mais jovem). A fantasia da segunda fase, seria uma expressão do sentimento de culpa desencadeado pela primeira. Dessa forma, a culpa transformaria o sadismo em masoquismo. Na terceira fantasia, as várias crianças representam a menina que a cria, e o fato de serem meninos demonstra seu abandono do papel feminino, após a rejeição sofrida por parte do pai No caso desta fantasia ocorrer com meninos, o espancador é primeiramente o pai, sendo depois substituído pela mãe. Isso significa que o primeiro objeto de amor do menino que tem essa fantasia seria o pai (Freud, 1976g, pp. 233-239/246-247).
[...] a fantasia da segunda fase [...] é uma expressão direta do sentimento de culpa da menina, ao qual o seu amor pelo pai sucumbiu agora. A fantasia, portanto, tornou-se masoquista. [...] um sentimento de culpa é invariavelmente o fator que converte o sadismo em masoquismo. Certamente, porém, não é este o conteúdo total do masoquismo. O sentimento de culpa não pode ter conquistado o campo sozinho; uma parcela deve ser atribuída ao impulso de amor. Devemo-nos lembrar de que estamos lidando com crianças cujo componente sádico conseguiu [...] desenvolver-se prematura e isoladamente. [...]. Se a organização genital, que mal conseguiu firmar-se, defronta-se com repressão, a conseqüência não é apenas a de que toda representação psíquica do amor incestuoso se torna inconsciente, ou permanece inconsciente, mas existe também outro resultado: um rebaixamento regressivo da própria organização genital para um nível mais baixo. "O meu pai me ama" queria expressar um sentido genital; devido à regressão, converte-se em "O meu pai está me batendo (estou sendo espancado pelo meu pai)". Esse "ser espancado" é agora uma convergência do sentimento de culpa e do amor sexual. Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação, e dessa última fonte deriva a excitação libidinal que se liga à fantasia à partir de então, e que encontra escoamento em atos masturbatórios. Aqui temos, pela primeira vez, a essência do masoquismo (Freud, 1976g, pp. 236- 237).
Para Freud (1976g), a bissexualidade, inerente aos seres humanos, manifesta-se nessa fantasia. Afirma ainda que a masturbação da puberdade não costuma ocasionar sentimentos de culpa, a não ser que se ligue à masturbação infantil, que é necessariamente acompanhada de fantasias incestuosas. A culpa não estaria relacionada ao ato masturbatório, mas ao desejo por um dos pais. O que é recalcado na sexualidade infantil, e que se transforma em sintomas neuróticos, portanto no complexo nuclear das neuroses, é o complexo de Édipo (247-253).
André (1996) considera este texto de Freud como uma contribuição para o entendimento da sexualidade feminina:
Uma vez que "uma criança é espancada" é uma fantasia propriamente feminina, seja qual for o sexo anatômico do sujeito, Freud foi levado, como que "de passagem", a formular observações gerais sobre a feminilidade, cuja importância está em elas se situarem em completo desequilíbrio em relação à [sua] teoria prevalente. Por certo não é irrelevante que, nesse texto, o ponto de partida tenha sido clínico [...] e a sexualidade feminina tenha sido abordada de maneira incidental, e não de frente. [...] [As] considerações freudianas sobre a feminilidade da "criança espancada" constituem menos fragmentos de hipóteses posteriormente abandonadas do que testemunhos de uma teorização contraditória, que jamais conseguiria se impor (p. 40).
Para esse autor (André, 1996), vale ressaltar o fato de Freud, após mais de vinte anos de abandono da "teoria da sedução", afirmar que o pai da menina "fez tudo o que podia" para conquistá-la. Não se trata, evidentemente, de um pai perverso, que irá satisfazer suas pulsões sexuais com crianças, mas de um pai "típico", sedutor porque desejoso do amor da criança. André considera que o amor que o pai desperta na menina, juntamente com uma "premonição" dos objetivos sexuais e um desejo de ter um filho seu, demonstrariam uma existência da vagina no inconsciente infantil. Contudo, Freud irá negar essa existência em seus textos posteriores – como, de resto, já vinha fazendo anteriormente (pp. 42-43).