O estudo da personalidade é tradicionalmente dominado por teorias bastante abrangentes que procuram explicar muitas facetas do comportamento.
O conceito de personalidade, segundo Allport (1973),refere-se à consistência do comportamento das pessoas ao longo do tempo e situações, ao mesmo tempo em que explica sua singularidade. (Sisto et al,2004)
Após anos de pesquisas, Eysenck propôs uma teoria hierárquica da personalida- de, a partir da qual construiu vários questionários aplicáveis em pessoas sem histórico de transtornos psiquiátricos, uma vez que os itens tratam de aspectos comportamentais e não constitucionais da personalidade, ou seja, variáveis da personalidade que surgem dos intercâmbios do indivíduo com seu meio. (Sisto,2004)
Nos seus estudos, Eysenck detectou 5 factores fundamentais, que são extrover- são, psicoticismo, neuroticismo, mentira e condutas anti-sociais. Destes, Sisto identificou nos seus estudos apenas três factores e posteriormente mais um, que não foi observado nas pesquisas originais. (Sisto,2004)
Segundo o mesmo autor, o factor extroversão foi considerado como a dimensão responsável pela impulsividade, e algumas das características apresentadas para os sujeitos com alta pontuação são ser excitados, gostar de estar sempre acompanhados, optimistas e gostar de mudanças, enquanto aqueles com baixa pontuação apresentam as características inversas. O factor neuroticismo relaciona-se com o funcionamento do sistema nervoso autónomo e portanto reacções fisiológicas, tais como ansiedade, ner- vosismo ou emotividade, estão associadas a esse factor. Basicamente, o indivíduo com alta pontuação apresenta baixa estabilidade emocional e as baixas pontuações, por sua vez, denunciam indivíduos pouco impulsivos, que recuperam facilmente o autocontrole.
Apesar de representar uma dimensão da personalidade normal, o factor psicoti- cismo, em pontuações altas, pode indicar sujeitos com tendências anti-sociais e hostis na relação com seus convivas. As pontuações baixas, entretanto, indicam pessoas preocupadas com os outros e afetivamente sensíveis. A interpretação da quarta escala, denominada mentira, é um tanto problemática, mas basicamente versa sobre a opção, intencional ou não, por respostas mais aceitas socialmente sendo que as pontuações baixas demonstram que a pessoa tem certa independência em relação às condutas socialmente aceitas, mostrando- se como realmente é, valendo o contrário para as pon- tuações altas. Na quinta e última escala de Eysenck, condutas anti-sociais, a interpreta-
60 ção inicial sugeria a avaliação da propensão à criminalidade (…) Pocinho e Capelo (2009)
Segundo Sisto (2004),citando Eysenck e Eysenck (1987), contudo, certas ten- dências são percebidas nos processos de modificações e reorganizações da personali- dade que diferenciam um sujeito do outro. Nesse sentido, cada um tem que lidar com seus motivos pessoais e as influências ambientais, que nem sempre são favoráveis, promovendo reajustes em seu comportamento. Sua teoria considera a personalidade como uma hierarquia de traços que seriam tendências duradouras, modos de compor- tar-se em diversidade de situações. Em decorrência, a tendência de uma pessoa a ser impulsiva, agitada, irascível, impetuosa e impaciente poderia ser decorrente da tendên- cia mais básica de ser excitável.
A ansiedade é o sentimento que acompanha um sentido geral de perigo, adver- tindo as pessoas de que há algo a ser temido no futuro. Refere-se a um sentimento de inquietação que pode traduzir-se em manifestações de ordem fisiológica (agitação, movimentos precipitados, hiperactividade) e de ordem cognitiva (atenção e vigilância redobrada a determinados aspectos do meio, pensamentos de possíveis desgraças, etc.).
Essas manifestações podem estar associadas a acontecimentos ou situações de natureza passageira (ansiedade estado) ou constituir uma maneira estável e permanen- te de reagir, provavelmente com base na própria constituição individual (ansiedade tra- ço). Além disso, a sua intensidade pode variar de níveis imperceptíveis até níveis extre- mamente elevados, capazes de perturbar os indivíduos.
Segundo Rosamilha (1971),citado por Oliveira (2002) ao fazer um breve histórico sobre o tema, aborda outros autores: assim, Cannon (1932), ao desenvolver o conceito de homeostase, forneceu um significado biológico para o fenómeno, enquanto que psi- canalistas como Horney (1961) desenvolveram suas teorias, colocando-a como o centro das neuroses. Outros, como Kelman (1959), de certa forma admitiram que a ansiedade é um tipo de atributo normal do ser humano, que pode ser observada quando certo nível de tensão ultrapassa um ponto médio. Já numa abordagem orgânica, como a de Golds- tein (citado por Portnoy, 1959), reconhece-se que ela pode ser produzida por vários eventos, porém, apresenta uma característica comum: há sempre uma discrepância entre as capacidades individuais e as exigências que o organismo tem de enfrentar, tor- nando impossível a auto-realização. (Oliveira,2002)
Em contraponto às teorias de ansiedade, as existenciais mencionam que não existe um estímulo específico que identifique essa sensação. O conceito central da teo-
61 ria existencial é o de que as pessoas tornam-se conscientes de um profundo vazio em suas vidas, e a ansiedade é uma resposta ao imenso vazio da existência (Kaplan & Sadock, 1993), implicando necessariamente a percepção de impotência. Skinner (1938, citado por Rosamilha,1971) também concebe, como Freud, que o medo e a ansiedade constituem formas de defesa do organismo contra a ameaça do perigo. Mas, a diferença é que o medo se instala sempre que há uma ameaça concreta e a ansiedade é um estado emocional motivado por um estímulo ameaçador que está antecipado no futuro. É a ideia de “antecipação”, ou seja, de “respostas antecipadas” a eventos aprendidos como “traumáticos”, confirmando a significação etimológica de “pré-ocupar-se” com alguma coisa. (Oliveira,2002)
Os estudos em que associam a ansiedade com outras variáveis são múltiplos e diversificados.
O estudo realizado por Eysenck e Eysenck (1987),citado por Oliveira, (2002), tra- tou do funcionamento de tarefas diferentes. Revendo mais de 20 estudos, o autor encontrou que a ansiedade teria um efeito mais adverso nas tarefas difíceis ou compli- cadas do que nas simples, pois a sua realização levou mais tempo e conduziu a uma maior incidência de erros (Weiner & Schneider, 1971, citado por Eysenck & Eysenck, 1987). E, em uma análise de Spielberger (1972), foi encontrado que a aprendizagem de tarefas difíceis aumentam o estado de ansiedade,
A literatura indica que a ansiedade pode afectar a qualidade de vida dos estudan- tes, seja na área cognitiva, social, afectiva ou relacionada com a saúde. (Oliveira, 2002)
Apesar de um pouco dispersa e difusa, a literatura tem mostrado sistematica- mente uma certa relação entre traços de personalidade e aceitação social. (Sisto,2004)
No capítulo seguinte, II-Parte-Contribuição Empírica, fazemos um breve estudo do tema, com o qual pretendemos contribuir, de algum modo, para um melhor conheci- mento e enriquecimento da temática abordada.