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Normalisation en rotation

3.2 Normalisation des objets 3D

3.2.2 Normalisation en rotation

No tempo em que a maçã foi inventada antes da pólvora, da roda e do jornal a mulher passou a ser culpada pelos deslizes do pecado original guardiã de todas as virtudes santas e megeras, pecadoras e donzelas filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood [...]. Joyce Moreno

Como mencionamos nas seções anteriores, a mídia e seus veículos movimentam-se na dinâmica e na lógica da sociedade capitalista, respondendo prioritariamente a interesses das classes dominantes. Nesse sentido, são instrumentos por excelência de reprodução da racionalidade burguesa, cujo horizonte atravessa todas as dimensões da vida social (SANTOS, 2010).

No Brasil, os meios de comunicação são concentrados e monopolizados por um pequeno número de pessoas. Deste modo, as concepções, valores e interesses desse grupo são disseminados para o conjunto da sociedade, apresentando-se como necessários e inerentes à dinâmica da vida social.

A televisão tem se mostrado veículo de comunicação com grande participação na vida das pessoas. É responsável pelo entretenimento e lazer de parte significativa da população. Instrumento mediante o qual a população se “informa” dos acontecimentos do país. Assim, com um grande poder de alcance, o veículo participa da disseminação de valores que orientam a vida cotidiana dos indivíduos. Reproduz estilos de vida a serem consumidos, sonhos almejados, cria e recria necessidades de consumo cada vez mais supérfluas. Interfere na vida das mulheres, reproduzindo estereótipos que, ancorados no senso comum materializam- se na mercantilização e na exploração dos corpos e da subjetividade destas, seja na publicidade, na moda, nos programas de entretenimento.

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Paráfrase do livro “Os fios (in) visíveis da produção capitalista”: Maria Augusta Tavares, São Paulo: Editora Cortez, 2004.

A participação da televisão e, sobretudo, dos telejornais na conformação de estereótipos de gênero destaca-se como aspecto central de nossas reflexões para apreendermos o fenômeno estudado em sua complexidade. Refletir e analisar os fios (in) visíveis do sistema patriarcal contidos nas falas, expressões e imagens veiculadas nas matérias catalogadas para buscar apreender seus condicionantes coloca-se como desafio central para nossa pesquisa. Como veremos na sequência deste texto, embora o caráter sensacionalista e espetacular no tratamento aos episódios sobressaia, sutis aportes ideológicos e concepções moralistas que compõem e sustentam a opressão das mulheres estão presentes no noticiário, principalmente, no caso do desaparecimento de Eliza Samúdio.

4.3.1 Reprodução de desigualdades e estereótipos de gênero na/pela televisão

Nas últimas décadas, a forma estereotipada como as mulheres são tratadas pelos veículos de comunicação tem constituído objeto de debate no Movimento Feminista. Corpos coisificados na publicidade de cervejas, a exploração da sexualidade no marketing televisivo, a criação de um “tipo de ideal” de mulher pela indústria da moda e da estética, o tratamento dado a violência contra a mulher no noticiário televisivo são modalidades de exploração e de disseminação de estereótipos de mulheres questionadas em diversos eventos promovidos por segmentos do movimento de mulheres, a exemplo o Seminário Mulher e Mídia, o qual irá realizar sua 8ª edição e o Seminário sobre Controle Social da Imagem da Mulher na Mídia81.

Majoritariamente, as reflexões direcionam-se para a questão da disseminação de estereótipos e mercantilização dos corpos das mulheres na publicidade. Contudo, são pouco comuns análises interpretativas e pesquisas sobre a cobertura dos casos de violência contra a mulher no âmbito do jornalismo (ou

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O 8º Seminário Mulher e Mídia será realizado nos dias 29, 30/11 e 1º de dezembro de 2011 no Rio de Janeiro. O tema do evento é Mídia, sexismo e racismo: uma pauta ainda em questão. Será realizado pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Secretaria de Política de Promoção a Igualdade Racial (SEPPIR), Fundação Ford e ONU Mulheres.

O Seminário O controle Social na Mídia, ocorreu em 2008. Não encontramos registros das próximas edições.

telejornalismo) (AZEVÊDO, 2010).

Já ponderamos nos itens anteriores, que violência contra mulher finca raízes no sistema patriarcal e, nas desigualdades produzidas pelo processo de (re)produção do capital, nas quais prevalecem o domínio do masculino e a exploração das mulheres. No contexto da sociedade brasileira, as expressões do patriarcado são veiculadas nos noticiário ao exibir crimes praticados contra mulheres, mas também são reproduzidas nas narrativas e discursos jornalísticos. São ainda disseminadas nas novelas, na publicidade, no entretenimento.

Conforme Scoot (1999), as identidades de gênero são constituídas a partir de elaborações sociais sobre os sexos. Dessa forma, são fundamentadas historicamente, com particularidades dos tempos históricos. Com o surgimento da sociedade de classes (em sua fase burguesa) e patriarcal, tais relações são perpassadas por relações de poder assimétricas e hierarquizadas, em que o masculino se sobrepõe ao feminino numa relação de domínio-submissão-opressão. De acordo com Toledo (2008), as relações econômicas produziram uma superestrutura ideológica que sustenta a opressão e as relações de poder antagônicas entre homens e mulheres. As crenças, os valores, os costumes, a cultura contribuem para moldar e definir papeis diferenciados para cada categoria de gênero.

O processo de subordinação, ao qual as mulheres estão submetidas, vem se desenvolvendo ao longo de séculos. No Brasil colônia, por exemplo, a mulher branca e rica desempenhava funções relacionadas à procriação e a supervisão das atividades desenvolvidas pelas escravas e escravos no ambiente doméstico, consideradas funções inerentes a sua condição e natureza (SILVA, 1992).

As mulheres negras, além de trabalhadoras escravas nos campos e casas de senhores, serviam de reprodutoras de mão-de-obra escrava. Constituíam mercadoria para os seus senhores, tinham “seus corpos violados pelos homens livres e brancos” (idem, p. 64). Passado mais de um século da abolição da escravatura, a condição da mulher negra no Brasil ainda apresenta marcas do período servil. A televisão tem contribuído para a reprodução dos estereótipos da mulher negra, assim como de brancas, ruivas. Porém podemos observar particularidades. Enquanto as mulheres brancas geralmente assumem posição

“superior” (são donas de casa, casadas, empreendedoras), as negras, por sua vez, permanecem na subalternidade do trabalho doméstico, sendo raras as vezes que não desempenham esse papel. Contudo, independentemente da classe ou raça/etnia a qual pertença à mulher, se exerce sobre ela uma opressão específica, assumindo feições distintas a partir de sua inserção social.

No âmbito dos processos macroestruturais que conformam a totalidade da vida social, a televisão reproduz em seus diversos programas o sistema de valores ideo-políticos patriarcais e capitalistas. Prevalece a coisificação e a mercantilização do corpo feminino, com a apropriação e a exploração da sexualidade e sensualidade, observadas nos variados gêneros televisivos.

Partícipe da vida social, as TVs comerciais exploram preconceitos construídos historicamente na sociedade brasileira, sobre mulheres, homossexuais, negros e pobres. Nos programas de entretenimento como o Pânico na TV (Rede TV), Legendários (Record) e Zorra Total (Globo), não faltam piadas que desqualificam as mulheres (loira burra), caricaturam homossexuais (boiolas, viado, bicha louca). Nesses programas são perceptíveis a apropriação dos corpos femininos, marcados pela erotização e, dirigidos aos olhares masculinos.

As novelas estabelecem um perfil de mulher a ser desejado. Afirmam e reafirmam um “padrão” único de mulher: alta, branca, magra... Um modelo inalcançável e impositivo de beleza, haja vista a diversidade e a pluralidade que compõem o país. E isto tem uma lógica. Não por acaso, o Brasil é o terceiro país em números de cirurgias plásticas. As mulheres brasileiras correspondem a 82%82 da demanda desses procedimentos estéticos. Neste sentido, a televisão colabora para movimentar o mercado da beleza, em tempos de mercantilização exacerbada das dimensões da vida humana, de individualismo e alienação e supervalorização de padrão determinado de beleza física em um contexto de crise de valores. Ademais, reforça a subalternidade e opressões entendidas como natural, e a maternidade e o casamento como única fonte possível de realização pessoal.

Por um lado, a mídia se apropria da sensualidade e sexualidade das mulheres atendendo aos interesses do mercado, por outro, a reprime e discrimina. Nos casos

82 “Uma pesquisa inédita feita pelo Ibope em todo o país estima que, no ano passado, foram realizadas mais de 640 mil cirurgias plásticas no Brasil, 82%, em mulheres”. (“Brasil é o segundo país em número de cirurgias plásticas” - G1.com. 30.04.2010)

investigados, identificamos que o livre exercício da sexualidade permanece sendo é alvo de julgamentos morais. O tratamento dado ao caso de Eliza é revelador. Dentre as nove matérias analisadas, oito utilizavam a expressão “ex-amante” para identificar à jovem. A repetição da expressão foi definindo o lugar da jovem no relacionamento com Bruno. Para o senso comum, ela era a “outra”, a “destruidora de lares”, formulações conservadoras e moralistas que compõem o imaginário social, legitimadas nas falas cotidianas83.

Como salienta Silva (1992), alguns comportamentos da mulher são considerados provocações, utilizados muitas vezes como justificativas dos atos violentos: não fazer tarefas domésticas; não dispensar a atenção e cuidados considerados desejáveis aos filhos; contrapor-se a atitudes do marido/companheiro/namorado; negar-se a manter relações sexuais; mostrar-se disposta a romper com o relacionamento; ter condutas consideradas “erradas” como o livre exercício da sexualidade. Estas dimensões são destacadas e excetuadas de seus contextos objetivos e subjetivos.

As construções relativas às práticas sexuais estão inscritas nas relações patriarcais e de gênero que, por sua vez, demarcam lugares, influência atitudes e práticas sociais determinadas. Dessa forma, nas sociedades patriarcais, foram sendo construídas e, mantidas uma divisão em relação ao exercício da sexualidade entre o masculino e feminino, uma vez que aos homens foi atribuído o direito de separar afeto/amor e sexo. E, inversamente, para mulher destinado o papel da reprodução e da negação do prazer (FEITOSA, 2011).

O controle sobre o corpo é instrumento histórico de dominação sobre as mulheres. De acordo com Camurça (2007, p. 05),

Este controle é expresso na negação de sua liberdade sexual, na limitação a sua autodeterminação reprodutiva, na criminalização da prática do aborto (causa de milhares de mortes de mulheres, todos os anos), na expropriação mercantil do corpo e imagem das mulheres pela indústria da propaganda, da beleza, da moda e do sexo.

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Durante o processo investigativo nos deparamos com as mais variadas analises e comentários sobre o caso, destacamos os que mais nos chamaram a atenção: “queria dar o golpe da barriga” “era uma Maria chuteira” “tudo por causa de uma ordinária, se ela gosta de dinheiro que vá trabalhar golpista chamada Eliza”, “foi dar o golpe da barriga... tai, se [...]! Espero que fique como exemplo as milhares de mulheres que tentar fazer o mesmo” (comentários sobre as reportagens postadas no site do youtube.com.br).

Para Silva (1992, p. 73), de forma implícita ou explicita, o desejo e o prazer feminino são capturados. A autora destaca que: “Efetuam-se verdadeiros rituais de castração do exercício da sexualidade feminina na dimensão do prazer”, reafirmado- se o padrão “[...] de mulher-esposa-mãe colocado como num invólucro de santidade a atender os interesses da preservação da ordem vigente”. A autora chama a atenção para tais práticas, haja vista, que as mesmas contribuem para a reprodução de concepções ideológicas em que a maternidade é um instinto inerente à natureza feminina. Quando a mulher assume a sexualidade de forma livre, provoca as mais diversas reações da sociedade. São-lhe atribuídos estereótipos, como “puta”, “vagabunda”, “safada”. Eliza sofreu as conseqüências de transgredir as “regras”, julgada e condenada nas diversas instâncias sociais.

Como relatamos no item 4.1, o envolvimento da jovem com o jogador é publicizado, quando ela o denuncia por agressão, aproximadamente um ano antes do seu desaparecimento. O fato é noticiado pelo TJ5 (15.10.09) que trata de divulgar nota à imprensa na qual “Bruno nega as acusações e diz que não é a primeira vez que Eliza tenta prejudicá-lo”.

A jovem não foi entrevistada pelo telejornal, não teve espaço para se defender e refutar as acusações do goleiro. A palavra foi dada apenas ao jogador que, por sua vez tratou de desqualificá-la. Na mesma reportagem, são exibidas imagens posteriormente veiculadas por diversos telejornais da emissora.

Figura 09 - Imagem exibida duas vezes na reportagem exibida no TJ5

Fonte:www.youtube.com

Figura 10 - Imagem exibida duas vezes na reportagem do TJ5 e três vezes no TJ3 Fonte: www.youtube.com

Nas imagens veiculadas de Bruno pelo telejornal, o jogador está no centro de treinamento do time no qual jogava, onde segundo a reportagem, estaria treinando (em outras matérias o jogador também aparece em treinos e jogos). O jornal expressa sua parcialidade no caso, expõe a vitima e explora as qualidades do agressor, afinal, “é um excelente goleiro” afirma apresentador.

O TJ5 deixa dúvidas quanto à veracidade da denúncia apresentada por Eliza, “[...] a delegacia então, da mulher, vai estar apurando este caso. Vai investigar, vai ouvir testemunhas e saber na realidade o que está acontecendo”. Isto deveria ter acontecido, no entanto, a investigação não foi realizada, ou melhor, tendo sido concluída somente após o desaparecimento de Eliza. Agora, ou seja, tarde demais, Inês é morta!

O “envolvimento com jogadores de futebol84” também foi explorado pela

mídia (impressa e televisiva). Dentre os noticiários televisivos, O TJ3 anuncia a relação entre Eliza e jogadores de futebol. Os trechos da notícia abaixo exploram estas relações:

[...] Eliza começou a se envolver com jogadores de futebol, alguns conhecidos internacionalmente, como o craque português Cristiano Ronaldo (narração, TJ3, 07.09.2010) 85.

Nesta entrevista ela falou como chegava até eles [narração]. - Tem jogador que pega e liga dos EUA... Pega seu telefone, sabe que você

84 “Caso Bruno: Eliza se orgulhava de ter beijado até Cristiano Ronaldo” - Extra Online. Publicado em 30.06.2010

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Entrevista com Eliza veiculada Jornal Extra Online, exibida pelo TJ3.

Figura 11. Bruno saindo de treino exibida no TJ5 Fonte: www.youtube.com

já saiu com vários [depoimento de Eliza].

Sobre o contexto no qual conhecera Bruno, Eliza afirmar ter sido em uma festa,

[...] aí minha amiga chegou e me falou que ele queria ficar comigo aí eu falei: Ah deixa acontecer.

O enunciado da matéria não corresponde às afirmações de Eliza. Na versão da jovem, eles (os jogadores) a procuravam e não o oposto. Porém, a ênfase dada ao enunciado conduz a outra interpretação das informações contidas na matéria. Embora a notícia esteja denunciando o crime do qual foi vítima, prevalecem posturas machistas a respeito desta. Assim, o telejornal expressa os valores e concepções patriarcais que se espraiam por toda a sociedade, reforçando-os e legitimando-os.

Em matéria publicada pela revista Veja86, mais uma vez, Bruno tenta promover uma imagem negativa de Eliza, alegando que a conheceu em uma “orgia”. No entanto, não há constrangimentos por parte de Bruno em assumir que esse tipo de evento, é comum em seu meio (entre jogadores de futebol). Trecho da reportagem:

“Foi uma orgia só. Tinha homem, mulher, amigas dela, outros jogadores, uma p... Essas festas são comuns no nosso meio. Depois que ela disse que estava grávida, fui saber que todo o time do São Paulo a conhecia, que ela já tinha feito filme pornô... Fiquei até preocupado com a minha saúde, tanto que logo depois fiz exame de HIV, mas estava tudo tranqüilo” (VEJA, julho 2010, p. 80).

O advogado de Bruno procura transformar a vítima em acusada, apontando alguns “desvios” de caráter de Eliza: “Essa moça” afirma advogado, “é atriz pornô87”.

Qualquer camelô de Belo Horizonte sabe que essa menina fazia filme pornô. Que crédito tem o depoimento de uma pessoa dessas? O comportamento dessa Eliza foge a qualquer padrão médio de ética e moral da sociedade, disse Quaresma (O ESTADÃO online, 26.08.2010)

Para os padrões sociais conservadores, a conduta de Eliza era “imoral”, como afirma o advogado, contudo, os jogadores que a procuravam não receberam o

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Segundo a Pesquisa Hábitos de Informação da População Brasileira, 2010, a Veja (editora Abril) é a revista mais lidas no país (50,4%).

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mesmo julgamento. No terreno da cultura machista, os homens vivem sua sexualidade livremente, enquanto as mulheres são castradas, alijadas de desfrutar o prazer sexual. Nesse sentido, embora, o movimento do tempo histórico aliado às lutas das mulheres tenha possibilitado mudanças efetivas no campo da sexualidade das mulheres, prevalece o controle, o conservadorismo e o preconceito. Até mesmo nos espaços onde procuram proteção.

Como inúmeras mulheres nesse país que procuram as DEAMs para denunciar a situação de violência a qual estão submetidas, Eliza também procurou proteção do Estado. Nove meses antes de “desaparecer”, denunciou Bruno por seqüestro, cárcere privado e tentativa de aborto forçado. Contudo, não encontrou proteção. Apesar da delegada ter solicitado as medidas protetivas, a juíza da Vara de Família de Jacarepaguá/RJ negou à vítima o direito de proteção, justificando que ela não poderia se beneficiar das medidas nem (sic) “[...] tentar punir o agressor sob pena de banalizar a finalidade da Lei Maria da Penha”.

Para a Juíza, “ter ficado” com o jogador não significava um relacionamento afetivo. Em reportagem exibida pelos telejornais, TJ4 e TJ7, a Juíza se justifica,

- No mesmo dia em que recebi a denuncia eu verifiquei que não era da minha competência, porque a lei Maria da penha exige que a mulher tenha uma relação intima de afeto duradoura. A declaração dela na delegacia foi que ela “apenas ficou com ele”. Então, o que eu fiz foi aplicar a lei e encaminhar para o juiz competente que era a vara criminal. (depoimento da Juíza, TJ4 13.07.2010; G1)

A autoridade jurídica, no entanto, não anexou aos fatos que a jovem estava grávida de cinco meses do jogador, que mantinha contato (mesmo que telefônico) com acusado, com quem vinha “negociando” o reconhecimento da paternidade de seu filho. O TJ7 não aprofundou a questão, ao contrário, reafirmou a posição da juíza; segundo o apresentador do telejornal o “[...] presidente do tribunal de justiça

do rio, Luis Zveiter apoiou a decisão da Juíza Ana Paula de Freitas. Ressaltando que ela agiu de acordo com a lei88”. Na reportagem89 não foram ouvidos outros

88Conforme estabelece a Lei Maria da Penha se “configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial” (art 5º). No texto, a violência doméstica/familiar não exige que o agressor venha a morar junto da agredida ou que exista uma “relação estável” (BRASIL, Lei 11.430/2006).

sujeitos.

A denúncia foi investigada e julgada meses após o desaparecimento de Eliza. E, mesmo considerando Bruno culpado pelo seqüestro e agressão a jovem, o juiz enfatizou a conduta moral da vítima. Como expressa parte da sentença, publicada pelo site UOL em 07.12.2010.

[...] Seria hipocrisia fingir que os autos não revelam que a vítima

também tinha comportamento desajustado. Há registro nos autos

de que a vítima procurava envolvimento com muitos jogadores de futebol. Neste ponto, não se define bem quem é vítima de quem. Se os jogadores de futebol, embriagados pelo dinheiro e pela fama, são vítimas de mulheres que os procuram com toda a sorte de interesses. Se as mulheres que procuram os jogadores de futebol, embriagadas pelo dinheiro e pela fama são vítimas deles. Nessa relação, ninguém é muito inocente. Todos têm culpa (trecho da sentença do Juiz). (grifos nossos)

A sentença sugere que a vítima também compartilhe da punição já que “todos têm culpa”. Mais uma vez a vítima se torna ré. Eliza então teria provocado sua própria morte? Ora, se a defesa da honra já não é mais justificativa para os crimes contra mulheres, permanece presente a culpabilização da mulher pela violência sofrida. Trata-se, deste modo, da influência das desigualdades de gênero e de classe que buscam assegurar a superioridade masculina e, desconsiderar a luta histórica das mulheres por igualdade e emancipação.

Podemos apreender que a violência contra a mulher se constitui um fenômeno expressivo na nossa sociedade, constituindo, não raras vezes, pautas em telejornais e outros programas televisivos. Todavia, além de prevalecer o tratamento espetaculoso e novelesco dos crimes, não raras vezes as análises e interpretações realizadas expressam valores e concepções machistas e preconceituosas. Desta forma, apesar de, “visibilizar” o fenômeno não possibilita a apreensão de seus determinantes.

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Mas essa não foi à única matéria sobre caso. Lembremos que O Fantástico produziu reportagem, ver item 4.2.