Chapitre 2 : CADRE THEORIQUE
3. Jardin Thérapeutique
3.3. Le jardin : un espace social communicationnel
Figura 4 – Escola Municipal/Paripe – Salvador, Bahia. Fonte: Arquivo pessoal.
No início do ano ou no começo do segundo semestre letivo, algumas escolas da rede municipal ostentam uma faixa convidando alunos (as) para serem “alguém com mais oportunidades”, através da Educação, no caso a EJA, oferecida por essa rede, sob o nome de SEJA (Segmento da Educação de Jovens e Adultos). Há uma escola perto da minha casa e, certo dia, ao visualizar a referida faixa, entrei no estabelecimento para conhecer seus professores, ou melhor, eu estava querendo conversar com alguém porque, às vezes, sinto a necessidade de falar sobre Educação, trocar ideias, saber de outras inquietações. Apresentei-me, falei do meu momento de pesquisa, das dores e dos prazeres que me envolviam naquele contexto.
Conversa vai, conversa vem, as professoras queixavam-se da ausência de uma formação universitária em suas graduações, no sentido de que precisavam de mais informações para lidar com os alunos adultos. Uma delas dizia que nunca trabalhara com alfabetizandos, ensinando-lhes as primeiras letras, sempre gostou de dar aulas aos “mais sabidinhos”, em suas palavras. Contou do seu desespero, quando recebeu em sua sala um jovem de 18 anos que não sabia ler nem escrever e vinha à escola confiante que conseguiria aprender essas habilidades, pois estava com um emprego em vista e só dependia da carteira de motorista. A professora entrou em pânico, pois não sabia o que fazer diante de tamanha responsabilidade. Passou noites com o sono “atrapalhado”, só em imaginar como seria o dia seguinte se o tal aluno aparecesse. Não fora preparada para dar aulas nesse contexto, mas, com o passar dos dias, o aluno “sumiu”, e ela deu graças a Deus por isso.
Segundo Tfouni (2004, p.14) a alfabetização pode ser compreendida como “[...] um processo de aquisição individual de habilidades requeridas para a leitura e escrita”, ou pode ser “[...] um processo de representação de objetos diversos, de naturezas diferentes”. Cabe à escolarização assegurar ao sujeito os objetivos visados pela educação formal no que se refere à aprendizagem da leitura e da escrita, entretanto, o contínuo processo de mudança pelo qual passa a sociedade caracteriza a alfabetização como um processo sem fim.
Os níveis ou os graus de alfabetização variam de uma pessoa para outra de acordo com o desempenho dos indivíduos diante dos diversificados tipos de textos, dos mais simples aos mais complexos. De acordo com Soares (2000, p.36):
Há, assim uma diferença entre saber ler e escrever, ser alfabetizado, e viver na condição ou estado de quem sabe ler e escrever, ser letrado (atribuindo a essa palavra o sentido que tem literate em inglês). Ou seja, a pessoa que aprende a ler e a escrever __ que se torna alfabetizada –e que passa a fazer uso da leitura e da escrita, a envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita – que se torna letrada __ é diferente de uma pessoa que não sabe ler e escrever __ é analfabeta – ou sabendo ler e escrever não faz uso da leitura e da escrita __ é alfabetizada mas não é letrada, não vive no estado ou condição de quem sabe ler e escrever e pratica a leitura e a escrita.
Ainda segundo a autora, alguns estudos têm demonstrado que os adultos, ao se tornarem letrados, apresentam mudanças em seu comportamento linguístico, concluindo que o convívio com a língua escrita interfere na oralidade, nas estruturas linguísticas do falante. Isso prova que, ao aprender a ler e a escrever, o indivíduo muda a sua condição social, cultural, cognitiva, linguística, etc. O que se pode concluir diante dessa afirmação é que a ausência da escrita condena o sujeito a uma exclusão daquelas condições que ele adquire no pós-letramento. É uma conclusão perigosa, etnocêntrica e racista, quando se sabe quem são, em nossa sociedade, aqueles que estão à margem da educação formal.
Segundo a perspectiva etnocêntrica, somente com a aquisição da escrita as pessoas conseguem desenvolver raciocínio lógico- dedutivo, a capacidade para fazer inferências, para a solução de problemas etc. Afirma ainda que o pensamento dos alfabetizados é “racional”, e por um deslizamento preconceituoso coloca também que os indivíduos não-alfabetizados são incapazes de raciocinar logicamente, de fazer inferências, de efetuar descentrações cognitivas etc., bem como que seu pensamento é “emocional”, “sem contradições”, pré-operatório, etc. (TFOUNI, 2004, p. 24).
A autora apresenta contra-argumentos em direção à afirmação de que não se pode pensar em pessoas iletradas como uma oposição a não-alfabetizados. Do ponto de vista sócio-histórico, não existe iletramento nas sociedades industriais modernas. Há um letramento em trânsito, lado a lado, com um conhecimento que independe de alfabetização e escolaridade (TFOUNI, 2004; 2006) Esse
conhecimento ratifica a necessidade de se considerar alfabetização e letramento como processos entrecruzados, no entanto estanques em relação à natureza e abrangência.
De acordo com Tfouni (2004, p.38), o letramento pode ser visto como um processo mais amplo do que a alfabetização, porém estritamente ligado à atividade voltada para a existência e influência do texto escrito. Portanto, só podemos considerar culturas ou indivíduos ágrafos ou iletrados, somente “[...] os pertencentes a uma sociedade que não possui, nem sofre, a influência, mesmo que indireta, de um sistema de escrita”.
Em relação ao jovem que precisava aprender a ler para ter acesso à sua licença de motorista, percebemos que há muitas pessoas nessa condição, ou seja, estão prontas para exercerem uma profissão, mas a nossa imaginação escolarizada nos condiciona a pensar que só se pode comprovar uma competência através da submissão aos rituais da escola. Entretanto, torna-se discutível a concepção de EJA como uma educação, pensada no sentido de mediar um conhecimento que capacite o aluno “para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mercado de trabalho”. Qual mercado de trabalho?
Ao se anexar desemprego e baixa escolaridade à questão racial, é pertinente a leitura das páginas do Jornal A Tarde de 19 de setembro de 2009. Gomes (2009) nos traz uma pesquisa sobre a situação da Educação na Bahia. A análise dos dados nos aponta como uma das piores do País. Os textos exploram os gráficos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), apoiados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) para estampar em nossas retinas os lugares que ocupamos na escala da vergonha e do descaso, quando se trata de comparar a Educação pública na Bahia com outros Estados e Regiões.
Tomando o Distrito Federal como referência de população com maior escolaridade (8,6), o nosso tempo médio de estudo é de 5,6 %, o que nos destina o 23º lugar, naquele quesito. Soma-se, a esses dados, a diferença entre a renda média da população baiana e os demais brasileiros. Enquanto, na Bahia, ocupamos o 24º lugar com a renda de R$ 700,00, a renda média no Distrito Federal e de R$ 2.117,00; Em relação ao nível de desigualdade social, o índice de Gini (mede o grau da renda entre os indivíduos em uma economia) situa a Bahia entre os Estados mais desiguais.
Quando se trata de gênero, uma das reportagens nos diz que 57,8 % do total de 1,1 milhão de mulheres baianas, da Região Metropolitana de Salvador, ganham até um salário mínimo, seja vendendo acarajé e lavando roupa, como assegura uma entrevistada, que percebe um total de R$ 300,00 naquelas atividades e, junto com o marido, sustenta a família composta de quatro pessoas, ao incluir os dois filhos adolescentes. Os homens, em igual situação de faixa salarial, compõem um total 727 mil, ou seja, 41,1 %.
Diante desse contexto, qual a finalidade da Educação de Jovens e Adultos? Se a realidade da escola desmente todas as suas promessas de uma “escola para todos” e se o modo como a escola ensina não ajuda o aluno a aprender a aprender? Várias questões têm-me incomodado e uma delas, em especial, é o papel que ocupo nesse sistema de ensino, outra é a maneira como a própria escola lida com a EJA. Falta uma maior atenção no sentido de saber mais quem são esses jovens e adultos e quem são seus(suas) professores(as), uma questão que me leva a repetir a necessidade de mais pesquisas (SANTOS, 2007; ARROYO, 2007), e menos distanciamentos.