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LES QUATRE MODALITES D'ANALYSE DE L'ARTICULATION ENTRE TIC ET TRAVAIL

ETUDIER L'ARTICULATION ENTRE TRAVAIL ET TIC : QUELLES PERSPECTIVES EN SOCIOLOGIE DU TRAVAIL ?

LES QUATRE MODALITES D'ANALYSE DE L'ARTICULATION ENTRE TIC ET TRAVAIL

Originalmente, o conceito ritual estava estritamente associado às práticas religiosas. A origem etimológica é testemunho disso. Ritual vem do latim ritualis que significa “refe- rente aos costumes religiosos” (Hermann, 1982, p. 422). Mais tarde, a Antropologia, a Sociologia e a Etnologia estudaram os rituais enquanto fenómenos de outras culturas, e onde, muitas vezes, era visível esta associação entre ritual e práticas religiosas. Assim, o antropólogo Víctor Turner definiu os rituais como um comportamento formal prescrito que se refere a crenças de um ser ou poder místico (Turner, 1967, cit. por Viere, 2001). A socio- logia considera os rituais como um determinado padrão de comportamento individual e

colectivo, que se manifesta de forma estandardizada e evocativa (Digel & Kwiatkowski, 1987). Vários sociólogos ou etnólogos consideram um dos aspectos centrais dos rituais a sua ligação com algo transcendental (Welter-Enderlin & Hildenbrand, 2002). Outros falam dos rituais de passagem como reguladores da estrutura social (Turner, 1967, Gennep, 1986, cit por Welter-Enderlin & Hildenbrand, 2002) que se realizam em três fases: fase de sepa- ração, fase de reestruturação e fase de integração. Bell (1997, cit. por Welter-Enderlin & Hildenbrand, 2002) considera que os rituais dão ao actor a sensação de que as suas acções não necessitam de ser justificadas e propõe seis diferentes rituais (rituais de passagem, rituais sazonais, da troca e comunhão, do luto, rituais políticos e rituais de jejum e festejos) que podem ser examinados relativamente a: formalismo, tradicionalismo, invariância, regras, simbolismo e performance. O sociólogo Niklas Luhmann, grande referência da abordagem sistémica na Alemanha, considera que os rituais transpõem uma insegurança externa em padrões estáveis internos, que funcionam como cópias de toda a comunicação reflexiva, que não permitem quaisquer alternativas (Luhmann, 1987). Do ponto de vista etnológico, Vogelsanger (2002) encara os rituais como uma criação ou construção da cultu- ra, devido à necessidade de o ser humano transcender a sua existência física e devido à sua capacidade de interpretar o mundo e de lhe fornecer um sentido. A autora analisatambém os componentes dicotómicos do caos e da ordem, ligados aos rituais. As definições sobre os rituais, nas enciclopédias, aproximam-se, muitas vezes, da uma perspectiva antropológica, etnológica ou sociológica, que ainda é predominante em relação a esta matéria. Por exem- plo, a Wikipedia (portuguesa) define o ritual como “uma acção simbólica formalizada e predeterminada praticada normalmente num ambiente particular de forma regular e periodicamente. As acções que compreende um ritual incluem, na sua generalidade, reci- tações, cânticos, grupos de processos, danças repetitivas, manipulação de objectos sagra- dos, etc. Normalmente, os rituais têm por objectivo invocações espirituais ou respostas a emoções pessoais. Também podem acontecer rituais de grupo, onde pessoas se unem num propósito para uma acção conjunta com o mesmo objectivo”.

Curiosamente, o conceito do ritual não se aplicou exclusivamente à nossa espécie. Huxley foi o primeiro autor que utilizou e definiu o conceito de ritualização para descrever comportamentos intra-espécie do mundo animal (Hess, 2002). Vários autores famosos da etologia, como Lorenz (1963) e Eibl-Eibesfeldt (1967) caracterizaram a ritualização em diferentes espécies animais. Existem macacos cujo relacionamento entre os machos se torna difícil devido à competitividade. Então, para que os machos se possam relacionar de forma

pacífica, "emprestam" crias às fêmeas que são inspeccionadas em conjunto. Estes rituais têm, segundo o autor, a função de facilitar a vida comunitária e de poder lidar com eventos de transição imprevisíveis. Hess (2002) menciona também rituais entre o homem e o ani- mal, como Lorenz já tinha feito no seu famoso exemplo dos gansos. O autor descreve por- menorizadamente rituais de cumprimentos e despedida entre ele próprio e gorilas que tem observado na Africa Central. Quem convive com cães, pode facilmente reconhecer este tipo de rituais entre o homem e os animais. Estes relatos do mundo animal tornam compreensí- vel o ponto de vista de Ciompi (2002, p.68), ao afirmar que os rituais constituem “a base primordial da comunicação afectiva – cognitiva e representam uma forma arcaica da lin- guagem”. O autor aproxima-se dos pressupostos defendidos por Konrad Lorenz, conside- rando que os rituais têm como função a canalização de emoções potencialmente prejudi- ciais (como a agressão) para tornar possível uma convivência grupal. Deste modo, podemos entender os rituais como um estruturador do espaço social intra-espécie.

O advento do estudo dos rituais familiares (isto é, a passagem dos rituais para os rituais familiares) iniciou-se a partir da segunda metade do século XX. Os primeiros estu- dos qualitativos e sistemáticos realizados por Bossard e Boll (1950, cit. por Wolin, Bennett & Jacobs, 1988) colocaram, pela primeira vez, os rituais familiares como objecto de estudo para a Psicologia e, em particular, para a Psicologia da Família. Estes autores examinaram 186 famílias, não patológicas, com base em textos (diários, autobiografias, cartas) e entre- vistas. Para identificar os rituais, utilizaram critérios como: actividades repetidas, observá- veis, sociais ou partilhadas, onde se observa uma interacção e expressas com uma carga emocional. Verificaram uma relação importante entre essas actividades repetitivas e parti- lhadas pelos membros da família de carácter simbólico e o que denominaram de nível de integração familiar. Concluíram que os rituais familiares são muito poderosos para a orga- nização da vida familiar, fornecendo estabilidade ao funcionamento familiar em épocas de transição ou stress.

Bossard e Boll (1950, cit. por Crespo, 2007) analisaram também as mudanças nos rituais familiares para a segunda metade do século XX, chegando às seguintes conclusões: a) os rituais familiares são cada vez menos religiosos e mais seculares, b) passam a ser rea- lizados mais por pequenos grupos e menos pela comunidade, o que os torna geografica- mente mais instáveis, c) dirigem-se mais em função das crianças e d) à medida que as famí-

lias criam a sua esfera privada, são cada vez mais idiossincráticos. Apesar destas tendên- cias, os autores consideraram os rituais como um importante transmissor de valores, atitu- des e metas familiares, ou seja, o cerne da cultura familiar. A partir destes estudos, começa- ram a surgir, lentamente, trabalhos inicialmente mais teóricos, sobre os rituais familiares.

Quando ouvimos falar em rituais familiares, surgem-nos logo recordações como as festas de aniversário, onde havia o bolo de anos decorado de forma especial, o “parabéns a você”, o soprar das velas e as prendas. Os rituais familiares rodeiam-nos, e oferecem uma oportunidade para atribuir um significado à vida familiar e comunitária. Eles evocam sím- bolos e acções simbólicas, como o bolo de aniversário ou a troca dos anéis no casamento. Esta familiaridade dos rituais fornece-nos o suporte necessário para fazer a transição para uma futura etapa desconhecida, como, por exemplo, no casamento. Os rituais familiares concedem-nos um tempo e um espaço protegido para parar e reflectir sobre os eventos de transformação, e envolvem-nos com a sua curiosa mistura de componentes familiares e componentes desconhecidos. Por exemplo, a criança sabe que irá receber uma prenda de anos, mas não sabe exactamente o quê.

Os rituais são tão velhos como a humanidade, afirma Grimes (1982, cit. por Crespo, 2007). Imber-Black (2002b, p. 445) refere-se aos seres humanos como fazedores de rituais (“ritual makers”) e considera que “todas as famílias e culturas criam, estabelecem, alterem e mantêm rituais ao longo do tempo” (Imber-Black, 2002b, p. 445). Desta forma, podemos afirmar que rituais familiares constituem uma parte central da nossa vida. Uma simples refeição, em que toda a família está sentada à volta da mesa, pode assumir um significado extremamente importante21.

Podemos dizer que os rituais familiares constituem também as “lentes” pelas quais podemos ver e vivenciar as ligações emocionais com os nossos familiares, amigos, colegas e com a comunidade em geral, tendo como pano de fundo a nossa origem cultural. Eles

21 Há alguns anos, um amigo meu decidiu fazer um jejum de três dias, tomando apenas alguns líquidos e

vitaminas. O mais difícil para ele não foi a fome, mas o facto de não poder partilhar, durante esses três dias, as refeições com a sua família. Ele confessou que se sentiu, neste período, excluído, isolado e só.

providenciam um enquadramento para as nossas expectativas individuais e colectivas. Os rituais dão-nos o espaço necessário para explorar o significado das nossas vidas e para reconstruir as nossas relações intra-familiares, extra-familiares e comunitárias.

Os rituais familiares combinam fazer e pensar. Eles fornecem a ponte entre, por um lado, o pensamento cultural e significações culturais complexas e, por outro, a acção social e os fenómenos imediatos. Muitos autores concordam com esta dualidade nos rituais fami- liares, por um lado, uma componente comportamental para a realização dos rituais familia- res e, por outro lado, uma componente simbólica para fortalecer a identidade, coesão e o sentido grupal (Fiese et al. 2002).

De igual modo, os rituais familiares ligam-nos ao passado, definem a nossa vida presente e apontam caminhos para o futuro, quando passamos de cerimónia em cerimónia, quando evocamos tradições dos nossos antepassados, e quando herdamos objectos e símbo- los dos nossos ascendentes. Desta forma, os rituais familiares são importantes alimentado- res e reguladores da nossa cultura (Fiese et al., 2002), que permitem a transmissão dos nos- sos valores, hábitos e formas de estar, de geração em geração. Neste sentido, os rituais familiares podem dar, pelo menos, uma sensação de resposta a questões primordiais da filo- sofia, como seja: “Donde provimos? Quem somos? Para onde vamos”.

A definição dos rituais, do ponto de vista da antropologia social, enfatiza o poder dos símbolos, a necessidade de uma acção, aspectos fisiológicos e a coordenação de uma ordem e espontaneidade que, no seu conjunto, criam um enquadramento de algo especial que se encontra além de uma vivência imediata. Por outro lado, a antropologia cultural debruça-se sobre o significado dos rituais e a forma como as pessoas constroem mapas da sua "realidade" para poderem lidar com fenómenos como: o nascimento e a morte, o dia e a noite, mudanças sazonais, guerra e paz, separação e ligação, etc.. Desta forma, segundo Imber-Black, Roberts e Whiting (1988), os rituais contêm um significado cultural, transmi- tido através de experiências de sucessivas gerações, mas também permitem criar novos paradigmas e novas metáforas.

Uma definição exacta dos rituais familiares pode tornar-se difícil, devido a uma variedade inter-familiar ou inter-cultural dos rituais e devido ao seu carácter simbólico. No entanto, Janine Roberts (1988, p.8) baseando-se tanto na antropologia como na terapia familiar, define rituais familiares como “actos simbólicos co-desenvolvidos, que incluem

não só, os aspectos cerimoniais da apresentação do ritual, mas também todo o seu proces- so de preparação. Podem incluir formulações verbais ou não, mas contêm tanto partes abertas como fechadas, que são interligadas através de uma metáfora condutora. A repeti- ção pode fazer parte do ritual através do conteúdo, forma ou ocasião”. Explicitemos melhor esta definição. As partes fechadas são os aspectos predeterminados ou normativos. Por exemplo, festejamos o Natal, em Portugal, na noite do dia 24 de Dezembro. É hábito que se troquem prendas depois da meia-noite, que exista uma árvore de Natal, etc.. As par- tes abertas são os aspectos que os participantes podem influenciar, não são preestabeleci- dos. Por exemplo, como se vai decorar a árvore de Natal, o que se vai oferecer, quem pre- para a consoada, etc.. As partes fechadas e abertas são interligadas através de uma metáfora condutora. Nesta definição, as partes abertas fornecem suficiente fluidez, de forma que os participantes possam investir no ritual, o seu próprio envolvimento e a sua significação idiossincrática. As partes fechadas fornecem uma estrutura suficiente, que proporciona segurança em relação a componentes emocionais intensas, à passagem da informação cultu- ral, e dão uma forma às acções desenvolvidas. Em relação aos rituais, como actos simbóli- cos, recorremos a Victor Turner (1967, cit. por Viere, 2001), que considera o símbolo como unidade mais pequena do ritual, com as seguintes características: 1) potencialidade para suportar significados múltiplos (por exemplo, uma rede pode significar armadilha ou segu- rança) e contribuir, deste modo, para as partes abertas do ritual, 2) capacidade de interligar diversos fenómenos díspares, cuja complexidade não poderia ser expressa numa forma ver- bal, 3) habilidade dos símbolos em trabalhar simultaneamente com os pólos da significação sensorial e cognitivo. Roberts (1988) conclui que os rituais tanto podem manter como criar a estrutura social para o indivíduo, para as famílias e para as comunidades sociais, assim como podem contribuir para manter e criar uma visão geral do mundo.

Rappaport (1971, cit. por Imber-Black, Roberts & Whiting, 1988 e Viere, 2001), que escreveu sobre a cibernética e rituais, menciona seis aspectos dos rituais: 1) A repeti- ção: não só na acção, mas também no conteúdo e forma. Por exemplo, todos os anos feste- jamos o Natal na mesma data. 2) A acção: não só dizer ou pensar algo, mas também fazer algo. Por exemplo, no Natal faz-se uma comida característica e trocam-se prendas. 3) O comportamento especial ou estilização, que difere do comportamento usual. Por exemplo, no Natal, onde a família está reunida e desembrulha as prendas. 4) A ordem: com princípio e fim. É o caso das famílias que no dia 24 de Dezembro, à noite, festejam o Natal com uma das famílias de origem dos cônjuges e, no dia 25 Dezembro, com a outra família de origem.

5) O estilo evocativo, que pretende apresentar algo. São exemplos, a árvore de Natal, as velas ou luzes e o presépio. 6) A dimensão colectiva, com um significado social. Por exem- plo, a reunião da família nuclear ou alargada para celebrar um evento.

Existe, porém, uma certa confusão em relação aos conceitos rotinas e rituais fami- liares. Por vezes, estes conceitos utilizam-se como quase sinónimos (Wolin & Bennett, 1984), outras vezes pretende-se diferenciá-los (Viere, 2001; Howe, 2002). Fiese et al. (2002) distinguem claramente as rotinas dos rituais familiares, afirmando que os rituais familiares contêm um significado simbólico para os participantes, que vai para além da execução de uma tarefa rotineira momentânea. Para Fiese et al. (2002, p.382), os rituais são algo que revela “quem somos enquanto grupo” (who we are as a group). Embora as rotinas sejam consideradas importantes na estruturação da vida familiar, falta-lhes a dimensão sim- bólica e anticipatória de todo o processo de ritualização (Viere, 2001). Rotinas são activi- dades que os membros da família “têm de fazer”, enquanto perante os rituais existe uma vontade mais ou menos explicita que se “quer fazer”. Fiese et al. (2002) consideram que as rotinas envolvem uma comunicação instrumental, um comprometimento momentâneo, que não vai para além da actividade e um comportamento repetitivo directamente observável. Os rituais, no entanto, envolvem uma comunicação simbólica, um compromisso afectivo e uma vontade e um investimento para a continuação intergeracional, “é assim que a nossa família irá continuar a ser” (Fiese et al., 2002, p. 282). Segundo os autores, quando as roti- nas são interrompidas instala-se uma confusão, mas quando os rituais são interrompidos, existe uma ameaça à coesão do grupo. No entanto, Viere (2001) defende que qualquer roti- na tem o potencial de tornar-se num ritual, se excede o mero objectivo funcional e se come- çar a adquirir uma intensidade psicológica através da atribuição de um significado simbóli- co. Vejamos o seguinte exemplo. Um jantar pode ser considerado apenas uma tarefa, por- que “temos de comer”, onde os membros da família comem rapidamente, muitas vezes, com um tabuleiro nos joelhos, em cantos distintos. Mas um jantar pode ser considerado, igualmente, um evento especial, parecido com uma reunião familiar, onde se contam as últimas novidades e onde existe uma partilha de acontecimentos entre os membros da famí- lia. Inversamente, um ritual pode também tornar-se numa rotina, quando se perdeu o seu significado. Por exemplo, a rápida entrega de um envelope com dinheiro para “festejar” o aniversário de alguém. Devemos, também, ter em conta que os rituais preenchem várias

funções, como afecto, coesão e identidade familiar, que contribuem decisivamente para o bem-estar psicológico de todo o sistema familiar, algo que é dificilmente atingido com as rotinas familiares. Assim, podemos afirmar que não existe uma clara ou objectiva distinção entre rotinas e rituais familiares, a diferença consiste mais no grau do significado simbólico e no investimento afectivo atribuído, pelos membros da família, às diversas actividades familiares.

Em síntese, podemos dizer que os rituais familiares podem ser definidos como com- portamentos ou actividades, que ocorrem episodicamente; envolvem a maioria ou todos os membros da família; têm um significado simbólico para os membros familiares e são valo- rizados pelos participantes, de tal modo que gostariam de os realizar futuramente.