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3.8.3. Liquidité immédiate :

A partir da obra Conquista Espiritual do padre Antonio Ruiz de Montoya, pode-se encontrar elementos para a descrição da suposta passagem de São Tomé pelo Peru. Montoya aparentemente não esteve no Peru para colher as informações de seu relato. Ele se baseou nos escritos do padre Alonso Ramos Gavilán, agostiniano que escreveu a obra Historia Del Célebre Santuario de Nuestra Señora de Copacabana y sus Milagros e invención de la Cruz de Carabuco de 1621 (MONTOYA, 1985, p. 91). Depois de Montoya

outros autores voltam a tratar do assunto, a maioria em concordância com Montoya, entre eles Nicolas de Techo em sua Historia de la Provincia del Paraguay de la Compañía de Jesús (1897), publicada pela primeira vez em 1673, e Pedro Lozano em sua História de La Conquista del Paraguay Rio de la Plata y Tucuman (1873), escrita no século XVIII.

Fato interessante sobre esse tema é que a obra de Montoya parece ter alcançado ampla repercussão sendo que, tendo ou não sido referenciada, parece ter inspirado a maioria dos outros escritores que citaram essa questão, tendo em vista que não há praticamente nenhum ponto de discordância entre os relatos (LOZANO, 1873; TECHO, 1897;

VASCONCELOS, 1977).

O que ninguém notou, e Montoya parece ter omitido propositalmente, é que Gavilán, embora tenha certeza de que um apóstolo passou pela América, não afirma em nenhum momento que esse apóstolo era São Tomé. Além disso, ele afirma, que o suposto apóstolo teria sido martirizado no lago de Titicaca, no Peru, o que provoca uma contradição com a idéia de fuga para a Índia, devido à especificidade do tema voltarei a esse assunto no último capítulo (GAVILÁN, 1621, p. 30-32).

O fato de que Montoya talvez tenha transformado o mito peruano, que já era visto como um apóstolo, em São Tomé, é interessante por demonstrar que os mitos estão em constante processo de reelaboração, ora muito lenta, ora mais rápida. Essa reelaboração

39 permite que eles se ajustem para dar respostas às questões que seu interlocutor elabora, sem perder sua lógica e coerência. O fato é que se o mito peruano ainda não era São Tomé, após Montoya ele se tornou, pois o jesuíta precisava demonstrar que a missão de Tomé se estendeu por toda a América.

Em aspectos gerais a passagem de Tomé pelo Peru teria sido muito similar àquela que já se narrou a respeito do Brasil e do Paraguai. Seu principal objetivo era pregar a fé no deus único e repreender os vícios, levava consigo uma cruz que afastava os demônios. Segundo a narração, o santo sempre estava acompanhado por alguns índios, mas nunca de forma tranqüila, pois como o de costume encontrava resistência dos demônios que incitavam os índios contra ele. O santo vivia sob constantes ataques e perseguições dos quais se defendia com muito mais dureza do que supostamente o fazia no Brasil (MONTOYA, 1985, p. 91-93).

Um ponto a se destacar da versão peruana do mito é a cruz de Carabuco. Embora no Brasil não se tenha registrado a associação de São Tomé com a cruz (HOLANDA, 1996, p. 122), no Peru ela aparece de forma exuberante. Aparece também no

relato de Montoya sobre o Paraguai, como sendo o sinal designado pelo apóstolo para que os índios reconhecem os seus sucessores. É possível que a cruz do mito no Paraguai tenha sido uma apropriação do mito peruano (MONTOYA, 1985, p. 99).

Nesse ponto tem-se novamente uma aproximação do mito ocidental com o oriental. Argumenta Montoya que no Oriente o santo teria deixado como sinal de sua pregação uma grande cruz de pedra, com sinais do sangue de seu martírio. Nem nisto o santo teria feito o Ocidente diferente do Oriente, tendo deixado em Carabuco, no Peru, uma grande cruz. Segundo Montoya, a cruz peruana era de madeira isso o levou a crer que ela não foi fabricada no Peru, pois lá não haveria madeira de qualidade semelhante àquela do incorruptível lenho, visto que no Peru sofrer-se-ia com a falta até mesmo da mais ordinária madeira para lenha (MONTOYA, 1985, p. 98-99).

Diante de tal constatação ele concluiu que a cruz foi feita em outro lugar e, apesar de suas dimensões, transportada até Carabuco. Mesmo no Paraguai, o autor afirma não ter conhecido madeira tão incorruptível daí ele conclui que a cruz foi fabricada no Brasil, com madeira de Jacarandá, que seria tão resistente quanto a da cruz de Carabuco. Para quem visse impossibilidade em sua teoria, Montoya argumentou:

À objeção pode responder-se que, quem no Oriente, na cidade de Meliapur, trouxe (carregou) um madeiro de imensa grandeza, que enorme número de

homens e elefantes não podia mover rumo à construção de uma igreja ou templo material, bem poderia trazer consigo esse madeiro precioso para edifício espiritual de sua pregação. E aquele que o passou de uma índia à outra sem galeões, também lhe podia tornar leve sua cruz até ao peso de uma palha (MONTOYA, 1985, p. 99).

Erguida no povoado de Carabuco a presença da Cruz teria emudecido os ídolos. Vendo os índios que eles não respondiam mais, atiram a cruz na água do lago de Titicaca, mas no dia seguinte, mesmo sendo tão dura e inicialmente tendo afundado como pedra, a cruz teria amanhecido boiando. Tentaram então queimá-la, mas o fogo não teria sido capaz de destruí-la. Diante disso os índios enterraram-na à margem do lago, de modo que ela permanecia a maior parte do tempo soterrada e ao mesmo tempo submersa. Mesmo assim, mais de mil e quinhentos anos depois a cruz ainda teria se conservado incorrupta (MONTOYA, 91-92, 100-101).

O fato teria vindo ao conhecimento de Gavilán a quem Montoya recorre novamente, depois de uma confusão entre grupos indígenas. Nela, uns teriam começado a acusar os outros de terem más inclinações e de serem feiticeiros e que seus antepassados tinham tentado apedrejar o santo que pregava a fé no deus único. Teriam acusado-os ainda de ter ateado fogo à cruz do santo e escondido-a muito bem. Da suposta discussão teria tomado conhecimento o cura Padre Sarmiento, que teria descoberto o local exato onde a cruz estaria enterrada, e então a teria recuperado (MONTOYA, 1985, p. 101).

A cruz teria produzido então muitos milagres principalmente contra raios e incêndios. As relíquias da cruz de Carabuco também seriam poderosas na concessão de milagres. Segundo Nicolas de Techo, fragmentos dela foram enviados em relicários de ouro pelo padre Diego de Torres Bolo ao Papa Clemente VIII e a vários cardeais, que os teriam recebido com grande estima (TECHO, 1897).

Percebe-se que a possibilidade de uma prova material da passagem milagrosa do santo chamava muita atenção dos religiosos. Como se verá a seguir na mediada em que o mito se espalhava ele era constantemente recriado e recebia novos aspectos que poderiam torná-lo cada vez mais próximo daquilo que os cronista esperavam de um vigoroso apóstolo.