1. Premières définitions opératoires
1.3. Les professions
Neste segundo grupo, categorizadas como “instituições não tradicionais”, apresento mais quatro instituições, também relatadas como possibilidades de enfrentamento da violência urbana pelas vítimas entrevistadas. São instituições de surgimento mais ‘recente’ na história, e não, necessariamente, instrumentos de socialização.
São efêmeras porque formam vínculos pontuais, ou seja, em geral, são utilizadas por um período de tempo relativamente curto, diferente das Instituições Tradicionais, bastante
Igreja Trabalho
Apoio social Família
159 vinculadas ao processo de socialização de cada um. Por oposição a estas, portanto, neste trabalho são chamadas de instituições não tradicionais.
Ativismo social
O ativismo pressupõe um grupo de indivíduos, pois uma mobilização de caráter público e duradouro dificilmente será realizada por uma única pessoa. Ao se estudar as possibilidades de enfrentamento da violência, sobressai a mobilização popular (Amaro et al, 2010) impulsionada por valores que referem a união, a cidadania e o cultivo da paz entre os indivíduos (Souza e Grundy, 2004), como os ativistas sociais. Além disso, acredito que esses indivíduos são também mais críticos, politizados e possuem maior chance de buscar melhorias pessoais e coletivas.
A exemplo das Mães de Acari estudadas por Fábio Araújo (2005), que a partir da vivência de um acontecimento trágico – o desaparecimento dos filhos – transitaram de um tempo do choque para um tempo da política31, é possível perceber, nos últimos anos, que familiares e amigos de vítimas de violência (assassinatos, sequestros, roubos, ameaças, entre outros) têm ocupado a cena pública no debate sobre criminalidade. Muitas vezes são parentes indignados, vivendo uma tragédia recente. Ou mesmo pessoas comuns muito comovidas e atingidas, ainda que indiretamente, pela violência. Em algumas ocasiões, essas pessoas passam a ‘militar’ no campo de respostas à violência, fundando organizações ou associações capazes de mobilizar respostas de parlamentares, governantes, ONG’s e também a mídia. Estes grupos têm contribuído para elaborar “estratégias de sobrevivência de rememoração pública e privada” (Huyssen, 2000) a partir da transformação do luto em uma prática reivindicativa de justiça. A
31 Segundo Araújo (2005), as Mães de Acari transitaram de um tempo do choque para um tempo da política na medida em que a partir do choque elas se constituíram enquanto sujeito político e começaram a aparecer na esfera pública para pressionar o Estado e reivindicar justiça e reparação. Entendo que a forma como enfrentaram a violência – reivindicando e exigindo reparação – ajudou na elaboração do luto de seus filhos.
160 experiência das mães de Acari e do diálogo possível com outras experiências similares (como as Mães da Praça de Maio da Argentina) tem ajudado a fomentar um espaço fúnebre capaz de contribuir para alimentar a memória humana (Araújo, 2005).
Por ativismos sociais compreendo as atividades públicas organizadas dos atores sociais, definidas por Souza (2006a) como:
Relativamente duradouras, diferenciando-se de ações coletivas efêmeras e pouco organizadas ou desorganizadas, como quebra-quebras, saques e outras; e, como ações públicas, em sentido forte, diferenciando-se tanto da criminalidade ordinária e de organizações terroristas, quanto de grupos de pressão e lobbies em sentido restrito (Souza, 2006a, p. 278).
Tanto o ativismo quanto a própria trajetória de vida podem ser considerados meios de ressignificação, proteção e novas formas criativas de lidar com experiências potencialmente traumáticas. O ‘dar de si’, tão característico das pessoas engajadas em ativismos e movimentos sociais pode se configurar como ajudar os outros e ajudar a si mesmo.
Sobre a figura de sentido “O cidadão”, Martuccelli (2016) pontua que o discurso dos valores patrióticos ou do engajamento militante segue tendo forte legitimidade no momento de definir os deveres do indivíduo no plano coletivo. Para algumas pessoas, a pátria, a república ou até mesmo a revolução continuam sendo um horizonte de sentido. O militante foi um modelo político de sujeito cujas lutas sociais não podem ser ignoradas. Porém, o horizonte de sentido também foi sendo deslocado para ações cotidianas e pessoais, e a mobilização tende a diminuir quando o objetivo é alcançado (como nos ativismos de bairro e nos ativismos urbanos). Dessa forma, diferente do passado, na contemporaneidade, o mais importante não é a causa a ser defendida nem o compromisso moral com os outros, mas o reconforto pessoal obtido com a militância.
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Psicoterapia
Remontam do início do século XX as discussões sobre indicações e eficácia dos métodos de tratamento psicológicos. Mas foi a partir da década de 1950 que o alemão (radicado em Londres) Hans Jürgen Eysenck iniciou as discussões sobre a validade dos métodos psicoterapêuticos. Eysenck causou muito burburinho quando fez uma pesquisa com método comparativo experimental (um grupo recebeu tratamento psicológico e outro não) e concluiu por uma correlação inversa entre psicoterapia e recuperação. Ou seja, em sua amostra, pacientes tratados com terapia psicanalítica tiveram melhoras menos visíveis que os tratados com eletroterapia ou com tratamentos ecléticos. Ele chamou por provas científicas de que a psicoterapia seria mais eficaz que uma recuperação espontânea ou com o tratamento de eletroterapia. Recebeu muitas críticas pelos métodos que utilizou, mas seus estudos deram início ao importante debate sobre a eficácia das psicoterapias.
Na década de 1970 já não se duvidava mais de que a “terapia funciona” e o debate passou a ser em torno de questões relativas ao tipo de tratamento, das qualidades do terapeuta, do perfil do paciente, etc. Assim, se buscava responder qual psicoterapia seria mais efetiva. Mais recentemente, as pesquisas continuam e tentam compreender os fatores envolvidos na mudança terapêutica.
Em artigo de revisão bibliográfica, Diniz-Neto e Féres-Carneiro (2005) afirmam que a psicoterapia é uma alternativa eficazmente comprovada para o tratamento de problemas de ordem psicológica. Apontam sobre a notável ausência de diferenças significativas de resultados, na maior parte dos estudos metaestatísticos, entre as diversas escolas de psicoterapia, considerando que não é possível concluir sobre a adequação de uma dada escola psicoterápica. Não existe, assim, nenhum dado que comprove superioridade de abordagens ou escolas de psicoterapia.
162 Brum et al (2012) dizem que os estudos hoje se deparam com diferentes formas de avaliação em psicoterapia, podendo avaliar os resultados, a eficácia ou a eficiência. Há ainda os estudos que avaliam o processo psicoterápico e enfocam especialmente como ocorrem as mudanças. Assim, as pesquisas realizadas nas últimas décadas apontam que a psicoterapia leva a mudanças nos pacientes, independentemente da orientação teórica e da modalidade que assumem.
Cordioli (1998a, 1998b) define as psicoterapias como métodos de tratamento para problemas de ordem emocional, em que um profissional treinado e habilitado, mediante a utilização de instrumentos psicológicos, estabelece uma relação profissional com a pessoa que busca ajuda. O terapeuta utiliza, sobretudo, a comunicação verbal e a relação terapêutica para influenciar o paciente e fazer com que sejam modificados pensamentos, emoções, atitudes ou comportamentos considerados desadaptativos. As psicoterapias variam enormemente com relação às técnicas que utilizam, as teorias nas quais se fundamentam, aos objetivos, frequência e duração das sessões, entre outros aspectos.
Para os objetivos desta pesquisa, a psicoterapia não foi considerada como instituição utilizada para enfrentar a violência urbana quando se limitou às sessões iniciais (por exemplo, casos em que o participante teve acesso ao tratamento psicológico, esteve presente na(s) primeira(s) consulta(s), mas não deu seguimento).
Medicamentos psicotrópicos
A categoria “medicação psicotrópica” poderia ser apresentada em conjunto com a variável “droga”, por serem ambas as substâncias que atuam afetando o Sistema Nervoso Central (SNC). Contudo, para os objetivos desta tese, serão apresentadas como categorias apartadas em função do acompanhamento médico que o uso da medicação psicotrópica recebe,
163 ou pelo menos deve receber; enquanto que a droga ilícita costuma ser utilizada deliberadamente sem esta indicação profilática.
Não vou discutir aqui a eficácia dos psicofármacos. Está claro que estas drogas são fundamentais em muitos casos. Mas é preciso apontar que a medicação das variações de humor, das paixões, das performances e do sofrimento psíquico aumentou de maneira vertiginosa (Birman, 2001a) nas últimas décadas. O autor compara os psicotrópicos com o tráfico de drogas ilegal, pois ambas as indústrias atingiram um crescimento exponencial na contemporaneidade.
A Organização Mundial da Saúde (1990) conceitua esse tipo de medicamento como aquela que produz alterações de comportamento, humor e cognição, possuindo grande propriedade reforçadora, sendo passíveis de autoadministração. Podem levar à dependência e são classificadas em: anestésicos, ansiolíticos e hipnóticos, antipsicóticos, antidepressivos, antiepilépticos, estimulantes psicomotores, alucinógenos e analgésicos.
Quando me refiro ao uso de medicação psicotrópica ou drogas psicotrópicas (popularmente conhecidos como “remédios de tarja preta”), digo especificamente sobre os depressores, estimulantes ou perturbadores do SNC, usados com ou sem indicação/prescrição médica.
Drogas ilícitas
O uso de drogas é milenar e acompanha a história humana. Mas, sobre este uso, cabe uma questão: nos tempos recentes, podemos afirmar que houve uma mudança com relação ao uso de droga (incluindo, obviamente, o álcool)? Diversos autores defendem que sim, entre eles Ribeiro (2009), Birman (2001a, 2001b, 2012, 2014), e Bucher (1986). E esta mudança justifica a classificação das drogas ilícitas entre as instituições não tradicionais, em vez de entre as tradicionais, nesta pesquisa.
164 O homem sempre consumiu substâncias psicoativas e este comportamento, quando com fins religiosos, purgatórios, lúdicos ou terapêuticos, quase nunca foi visto como prática a ser evitada. Na antiguidade as drogas eram utilizadas em rituais e cerimônias para obter prazer e ter experiências transcendentais. Os índios americanos tinham bebidas fermentadas que eram usadas em rituais e festas; os egípcios tinham vinho e cerveja que eram usados para tratar doenças, amenizar a dor e abortar. O ópio era usado pelos gregos com fins medicinais, tranquilizante e para aliviar a dor. Índios do México consideravam cogumelos tóxicos sagrados, utilizando-os para induzir alucinações. Romanos bebiam álcool para confraternizar e estas duas bebidas seguem sendo usadas em cerimônias católicas, judaicas e no candomblé (Bucher, 1986). A utilização de drogas não representava, em geral, uma ameaça ou perigo social. Além de serem desconhecidos seus possíveis efeitos adversos.
Aqui me refiro, porém, ao uso contemporâneo das drogas lícitas e ilícitas, considerado como “problema de saúde pública” (pela prevalência e incidência de seu uso) e um “problema de (in)segurança pública” na sociedade brasileira contemporânea porque nas últimas décadas alguns indicadores apontam que esse consumo tomou dimensões preocupantes, afetando as relações sociais (no trabalho, na família, na vida pública, no trânsito, na saúde, etc.). Em resumo, o que parece ter mudado foi o lugar que a droga ocupa na forma como as pessoas se satisfazem com estas substâncias psicoativas.
O próprio Freud, já em 1930, muitas décadas antes do uso de drogas ser uma “questão social”, apontou as substâncias tóxicas como “medida paliativa” como uma das respostas possíveis para lidar com o mal estar que nos é próprio. Dizia ele:
A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona- nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que diminuem; e
165 substâncias tóxicas, que nos tornam invisíveis a ela. Algo deste tipo é indispensável (Freud, 1930, p.83, grifos meus).
Ainda que tenha utilizado cocaína, até onde se sabe, com fins medicinais, Freud não podia prever a criação, difusão e consumo de drogas sintéticas extremamente perigosas e potencialmente viciantes. Também não podia prever o potencial mortífero do uso dessas substâncias décadas depois de sua morte. Talvez por estas razões tenha chegado a afirmar que este recurso seria o mais ‘interessante’ para evitar o sofrimento e tornar-nos insensíveis à nossa desgraça.
Joel Birman, em diversos trabalhos (2001a, 2001b, 2001c, 2006, 2012, 2013, 2014) aborda a questão das drogas na atualidade, relacionando-a, sobretudo com a noção de desempenho e psiquiatrização das subjetividades. O autor destaca que o imperativo de ‘melhor performance’ ocorre tanto com as drogas lícitas (como os medicamentos psicotrópicos, medicinais e o álcool) como com as ilícitas.
Em seu artigo mais recente, o autor se implica em estudar o trinômio tecido nas relações entre droga ilícita, performance e medicalização (psiquiátrica) da existência. A hipótese de pesquisa dele é a de que o processo de psiquiatrização das subjetividades pretende regular o mal estar para impedir que este se anuncie como agressividade e violência.
Nas últimas décadas ocorreu não apenas um incremento ostensivo do uso de drogas ilegais, mas houve ainda o surgimento e oferta de novas modalidades de drogas (sobretudo as sintéticas). Outro fenômeno associado seria a compulsão à droga (não por ser um fenômeno inédito, mas sim pelo aumento epidemiológico de casos). Compulsão não apenas relacionada com drogas, mas com muitos outros objetos: computador, celular, internet, comida, roupas, entre outros.
Além disso, citando seus próprios manuscritos, Birman vai dizer sobre a transformação significativa no estilo (grifo do autor) de drogas no Ocidente, a partir dos anos 1980. Se em
166 décadas anteriores (anos 1950, 1960 e 1970 do século XX) o comportamento de usar drogas se inscrevia em um projeto existencial, ético e político de transformação do mundo, mais recentemente o estilo de uso inaugurou uma transformação radical na gramática do uso de drogas, pois estas passaram a ser utilizadas sem qualquer inscrição em um projeto utópico de forjar outros mundos possíveis e se reduziram, assim, na sua abrangência existencial. Desde então, o que passou a ficar em pauta para o sujeito seria suportar as agruras do mundo presente, por um lado, e o incrementar a desempenho nas demandas existentes na atualidade. Enfim, constituiu-se uma nova gramática na utilização de drogas, que se opunha nos menores detalhes da gramática existente no Ocidente, desde a primeira metade do século XIX (2007a).
Em 2012, o mesmo autor vai teorizar sobre a relação entre adicções e compulsão, na qual esta última seria, em uma leitura psicanalítica, uma tentativa desesperada de o sujeito elaborar uma experiência da ordem do trauma.
É preciso diferenciar aqui o uso ocasional e recreativo (por exemplo, de jovens que usam drogas em festas) do uso abusivo, chegando ou não à dependência (em que o uso de drogas pode arruinar a vida de pessoas que não conseguem interromper a adicção). É preciso reconhecer ainda que existem diferenças profundas entre as várias modalidades de uso e as formas desse uso. Para a categorização e análise efetuada aqui, o uso ocasional ou recreativo (antes da experiência violenta sofrida) não foi considerado como possibilidade ou tentativa de enfrentamento da violência sofrida.