• Aucun résultat trouvé

Esse lugar de destaque conferido à educação das novas gerações a fim de formá-las de acordo com a lógica de adaptação à realidade vigente ganha um respaldo importante na obra de Piaget. Segundo este autor (1998), o adulto é constantemente transformado pelas condições que o meio lhe impõe de fora, tendo a educação um papel fundamental neste processo. Afirma ainda que a educação é causa do fato de que apenas uma pequena parcela da sociedade - a elite - se desenvolva até o fim no que se refere à adaptação à realidade internacional. Alguns exemplos dessa importância conferida por Piaget à educação podem ser vistos em suas obras:

Mas por que paramos no meio do caminho? Por que, no plano internacional, continuamos ser <<primitivos>> ou crianças? Na verdade, essa cooperação, essa atitude intelectual e moral de liberdade, de livre pesquisa, existe nas

13

nossas sociedades apenas em certos terrenos como a ciência ou em alguns empreendimentos morais, apenas uma pequena elite dedicada a uma atividade restrita. Esse espírito de cooperação ainda não penetrou, portanto toda a sociedade. Por quê? Por causa da educação (...) (PIAGET, 1998, p. 110, grifos nossos).

As relações existentes entre o humanismo do Renascimento e a constituição do ensino secundário, entre a revolução francesa e a constituição do ensino primário, levam a pensar que o presente esforço de organização internacional ou bem fracassará ate sinalizar o começo de um retorno à barbárie, ou então virá a se realizar por meio da escola (PIAGET, 1998, p. 84, grifos nossos).

Assim, para Piaget, uma mudança na organização da estrutura social se dará por meio da escola. De fato, a escola não está aquém da realidade social. De acordo com Luiz Carlos de Freitas (1995, p.99) “a escola não é uma ilha na sociedade. Não está totalmente determinada

por ela, mas não está totalmente livre dela (...)”. O domínio da cultura proporcionado pela

escola constitui, na sociedade de classes, um ponto fundamental para a participação política das massas. Se os membros das camadas populares não dominam os conteúdos culturais, eles não podem fazer valer os seus interesses, porque ficam desarmados contra os dominadores, que se servem exatamente desses conteúdos culturais para legitimar e consolidar a sua dominação (SAVIANI, 2007).

Dentro da perspectiva sócio-histórica, a escola existe justamente para permitir que a criança tenha acesso ao saber elaborado e sistematizado pelas gerações anteriores. O homem não se torna ser humano fora das relações sócio-históricas. Para que cada indivíduo tenha a possibilidade de “ser humano” é necessário que ele tenha a oportunidade de ser educado, de aprender, de produzir, reproduzir e transformar (TAFFAREL, 2009). Para que o desenvolvimento sociocultural do indivíduo ocorra é fundamental que este indivíduo se aproprie dos produtos materiais e intelectuais da cultura da humanidade. No entanto, essa apropriação pela criança se dá pela mediatização do adulto que já adquiriu essa mesma cultura e esse processo mediatizado exige, portanto, a interação entre adulto e criança (DUARTE, 2006). Assim, podemos chegar a duas conclusões importantes, dentro da perspectiva epistemológica que nos orienta:

• A escola existe justamente para possibilitar que a criança tenha acesso ao saber elaborado e sistematizado pelas gerações anteriores – “[...] o trabalho educativo é o

ato de produzir direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens” (SAVIANI,

• Obviamente que a escola não está isolada dos problemas sociais e políticos que atingem o conjunto da humanidade, muito pelo contrário, a força ideológica dominante em uma sociedade em determinado período histórico e que se manifesta através da educação, da arte, das religiões etc., é a força da classe que domina os meios de produção naquele mesmo período histórico (MARX; ENGELS, 2007); entretanto, nossa concepção sobre o papel da educação escolar não nos leva a acreditar que as transformações sociais se darão por meio da escola (DUARTE, 2006), pois tais mudanças só serão possíveis pela organização dos trabalhadores em suas entidades e em seus organismos construídos historicamente nos embates da luta de classes.

A visão de que é pela educação que se resolverá os problemas da humanidade é, na verdade, propagandeada pelo imperialismo através de seus organismos multilaterais, afirmando que a educação tem um papel privilegiado na formação de indivíduos capazes de se adaptarem às “mudanças da globalização” (CARDONI, 1999). Acreditamos não ser mera coincidência o fato de Piaget concordar com essa posição: “Formar um espírito de

reciprocidade supõe, portanto, uma educação que (...) acostume as crianças a colaborar entre si (...) para que se tornem capazes de cooperação nos sucessivos estágios de suas condutas sociais posteriores, nacionais e internacionais ” (PIAGET, 1998, p. 246). Mais do

que isso, ajudando a fortalecer a lógica de formar indivíduos passivos perante a realidade (adaptando-se a ela) – lógica essa que o imperialismo necessita para sobreviver – é Piaget (1998) quem explica que, para se adaptar a tais mudanças impostas pelo sistema, seria necessária a formação de “cidadãos” que aceitassem as “diferenças sociais” e que estivessem preocupados com a cooperação e a solidariedade internacional.

A primeira qualidade de um cidadão do mundo é saber, permanecendo fiel aos pontos de vista de sua cidade ou de seu país, situá-lo no conjunto dos outros pontos de vista possíveis, e isso supõe uma liberdade intelectual e moral que só os métodos que colocam a atividade pessoal acima da repetição e da submissão permitem alcançar (PIAGET, 1998, p.245).

(A cooperação internacional) (...) é uma nova atitude intelectual e afetiva que temos que criar. Mais uma vez verifica-se nesse ponto o paralelismo entre a lógica e a moral: ali onde intervêm nossas paixões e nosso egocentrismo, compreender o outro e respeitar o outro fazem apenas um, a objetividade implicando o mesmo desprendimento que o próprio altruísmo (PIAGET, 1998, p. 88).

Ressaltamos, sem pestanejar, que nossa crítica a este ponto específico da obra piagetiana não quer dizer que sejamos contrários à idéia do respeito mútuo entre os

trabalhadores a nível internacional, muito pelo contrário. Combatemos pela unidade da classe trabalhadora, internacionalmente, de forma incondicional. Nossa crítica, por outro lado, se baseia na defesa de Piaget de uma cooperação internacional, no respeito a diferenças que têm como objetivo adaptar os indivíduo à realidade, ou seja, é apenas uma face das muitas tentativas atuais de paralisar a classe trabalhadora de combater pela transformação da realidade através da conciliação de classes onde se junta tudo: empresários, trabalhadores, governos, ONG, instituições bancárias etc., na tentativa de “construir um mundo melhor”, conciliando interesses que são inconciliáveis entre patrões e empregados (TRANZILO, 2008).

Um bom exemplo de que essa orientação preside na teoria piagetiana é a “sugestão” feita por Piaget em 1951 num plano de ação trienal para o programa básico da UNESCO14, onde o pesquisador suíço sugeriu a participação de organizações não-governamentais internacionais na tarefa de reorganizar a educação pré-escolar: “III.1. Encarregar uma

organização internacional não-governamental e especializada em recolher uma documentação, não sobre todos os métodos e todas as realizações do ensino pré-escolar, mas sobre as realizações mais representativas e mais recentes (...)” (PIAGET, 1998, p.252).

As chamadas organizações não-governamentais (ONG) ou organizações sociais sem fins lucrativos são definidas como organizações religiosas, de caridade, científicas ou educativas cujas receitas são livres de impostos e as doações que recebem lhes dá direito a deduções fiscais. Elas podem receber fundos de doação, mas, de acordo com a lei, não podem realizar qualquer atividade política direta, ou seja, manifestações reivindicativas dirigidas ao governo. O grande fator que difere, portanto, as ONG dos sindicatos, partidos e demais organizações da classe trabalhadora é justamente essa falta de independência financeira que, obviamente, bloqueia sua ação política. As ONG recebem financiamento de fundações que, por sua vez, são financiadas por grande empresas ou por capitalistas individuais. Quando estes setores da classe dominante financiam as fundações ficam exonerados de impostos sobre suas riquezas e o dinheiro que a classe trabalhadora deixa de receber (através do investimento do Estado) com a perda destes impostos é absolutamente maior do que a filantropia repassada pelas organizações “sem fins lucrativos”. Assim, as ONG não só se abstém da luta pela emancipação da classe trabalhadora, já que são financiadas pelos grandes capitalistas, como também ajudam a enriquecê-los ainda mais, além de perpetuarem a idéia da “integração

14

As organizadoras da edição utilizada de “Sobre a Pedagogia (textos inéditos)” onde se encontra publicado o referido plano de ação referem desconhecimento sobre a aceitação ou não da UNESCO desta proposta formulada por Piaget.

mundial, da colaboração internacional” como falsas saídas ao apodrecimento do regime da propriedade privada dos meios de produção (BLANC, 2007).

Dessa forma, a perspectiva piagetiana de educar para a colaboração e a solidariedade internacional, integrando todos os agentes, da hoje chamada “sociedade civil organizada”, com fins de adaptação internacional em nada contribui para a transformação dos problemas sociais que ele afirma os atormentar, muito pelo contrário. Os partidários de que tais problemas continuem a existir, já que são partidários de que a base material do sistema que leva à existência de tal realidade deve permanecer, agradecem a Piaget e aos seus seguidores construtivistas a perpetuação de suas idéias dentro do contexto educacional.

Contudo, Piaget é bastante criterioso na definição do que ele chama de “educação internacional” (1998) e afirma que são necessárias algumas condições para que uma educação nesses termos se realize por completo. As principais dessas condições seriam a libertação do egocentrismo e uma completa reformulação do ensino, onde as crianças possam se libertar da coerção social e construir o seu pensamento de forma “livre”. Liberdade essa, porém, que consideramos absolutamente questionável dentro do modelo de sociedade atual, onde o trabalhador é “livre” para vender sua força de trabalho ou morrer de fome. Da mesma forma, a defesa de que as crianças construam seu pensamento de forma “livre” dentro da escola é, para nós, uma forma alienada de conceber a educação como neutra diante das contradições da luta de classes que é a base de toda a sociedade.

3.1.5 Piaget defende: para adaptar à realidade social é preciso livrar-se do egocentrismo