SECTION I : LES OBSTACLES D’ORDRE JURIDIQUE A L’EXERCICE DES ACTIONS INTERROGATOIRES
B- LES OBSTACLES A LA REPONSE A L’INTERPELLATION
Sintetizaremos, a seguir, as principais expressões do imaginário empresarial que surgem do material analisado e que mais explicitamente contribuem a reproduzir e a reforçar a idéia das mulheres como uma força de trabalho secundária. Há várias evidências, por exemplo, de que muitos dos empresários e gerentes entrevistados ou pesquisados consideram, a priori e sem ter evidências concretas nesse sentido, que as mulheres não têm a responsabilidade de sustentar economicamente as suas famílias, mas sim a de
cuidar das tarefas domésticas. Em torno desta concepção, articulam uma série
de argumentos relacionados ao comportamento e às expectativas das mulheres no trabalho e frente a ele, e tomam decisões concretas que determinam em grande medida as suas possibilidades de acesso ao emprego e as condições nas quais este se exerce.
2.3.3.1. Homens provedores, salário feminino secundário, trajetórias
ocupacionais instáveis
Para alguns dos empresários entrevistados, a explicação para o fato de as remunerações recebidas pelas mulheres serem inferiores deve-se basicamente ao
fato de que elas estão dispostas a ganhar menos que os homens. Por sua vez, isso
seria demonstrado pelo fato de que, habitualmente, elas não se preocupam em negociar os salários e se conformam mais rapidamente com as primeiras ofertas que lhes são apresentadas. Argumentam que essa atitude estaria relacionada à
trabalho não é uma obrigação, como o seria para os homens; devido a isso, elas estariam dispostas a ganhar menos, se isso significa a possibilidade de estar mais tempo com a família.
Essa opinião expressa justamente a idéia de que o trabalho das mulheres é secundário, adicional ou complementar ao trabalho principal, que, por definição, seria uma responsabilidade masculina. As referências às mulheres separadas confirmam essa idéia. Elas, sim, s]ao vistas como provedoras de suas famílias. De fato, as mulheres separadas, as únicas que são reconhecidas como provedoras, são descritas pelos/as entrevistados/as “como homens” e exemplos quase emblemáticos de responsabilidade no trabalho, particularmente as que têm filhos pequenos, que como principal sustento familiar são capazes de fazer tudo pelos filhos. A elas se refere uma das entrevistadas nos seguintes termos:
“A mulher separada é muito mais responsável do que a mulher que tem marido em casa ou filhos maiores. Se esta é demitida do trabalho, ou se ausenta um dia, não acontece nada. Ao contrário, uma mulher separada que tem sua casa, se ela falta e é descontada por isso, a sua renda vai diminuir.”
Se a função de provedora familiar não é considerada como parte dos papéis atribuíveis às mulheres, como o seria o cuidado dos filhos, dos idosos e as demais responsabilidades domésticas e familiares, se assume(sem necessidade de comprovar o que se diz) que as suas trajetórias ocupacionais são instáveis, fortemente sujeitas e subordinadas aos ciclos da vida familiar.
2.2.3.2. Limitações de tempo: a “indevida” interferência da vida doméstica no trabalho das mulheres
A outra idéia que aparece diretamente associada à imagem da mulher como força de trabalho secundária, e que é reiterada pelo discurso empresarial, é a sua suposta dificuldade de dedicação à empresa, que se expressaria, entre
outras coisas, nas suas limitações para fazer horas-extras, viajar e trabalhar em horários noturnos.41
Essas imagens de imposibilidade contrastam com a realidade de algumas ocupações nas quais normalmente, e há muito tempo, trabalha-se durante a noite, e que são desempenhadas majoritariamente (quando não exclusivamente) por mulheres, como por exemplo, as enfermeiras e as telefonistas, que, em uma das empresas entrevistada trabalham em turnos diurnos e noturnos, 365 dias por ano.
Outra dificuldade que, segundo os empresários entrevistados, teriam as mulheres é a de viajar. Na sua opinião, essas limitações afetam negativamente as possibilidades das mulheres para receber formação ou aperfeiçoamento no estrangeiro, e, a médio e longo prazo, fariam com elas deixassem de aspirar os cargos mais qualificados e mais altos na hierarquia das empresas.
Da mesma forma que a realidade do trabalho das enfermeiras e telefonistas contradiz as supostas limitações das mulheres para trabalhar durante a noite, o caso das aeromoças, por exemplo, uma ocupação que também se caracteriza por importante presença feminina, questiona a idéia de que elas não poderiam estar presentes em ocupações que impliquem viajar.42
2.3.3.3. A eterna inadequação
A ênfase que essas “limitações” atribuídas às mulheres no trabalho adquirem em alguns momentos no discurso empresarial contribui para fortalecer uma imagem destas como trabalhadoras “problemáticas”, “pouco
41 Essa foi, por exemplo, a principal razão alegada por um empresário do setor gráfico para explicar porque não
havia nenhuma mulher contratada na área de produção de sua empresa.
42 Reforçando esse argumento, podemos citar um estudo realizado por Korn/Ferry International em 1992 sobre
as mulheres em cargos de direção nas empresas Fortune (1000 no setor industrial e 500 no setor serviços), citado por Sarriés e Vicén (2006), que questiona a imagem de que as mulheres não trabalham horas-extra. Segundo os resultados desse estudo, em 1992, as mulheres entrevistadas trabalharam uma média de 56 horas semanais, exatamente o mesmo número de horas trabalhadas pelos homens. Outra imagem questionada pelo citado estudo refere-se à impossibilidade ou resistência das mulheres para transferir-se de uma localidade a outra por razões de trabalho. Apenas 14,1% das mulheres entrevistadas haviam recusado uma oferta ou oportunidade de transferência. Em estudo similar realizado em 1989, a porcentagem de homens que haviam recusado ofertas similares era de 20%.
é um modelo masculino, ou seja, um trabalhador “que tem quem cuide, por eles, da família e do âmbito doméstico” (Arango e Viveros, 1996). Isso implica uma série de pré-requisitos sociais, que se transformam em verdadeiras “vantagens”, que permitem a estes trabalhadores homens desenvolver uma trajetória ocupacional em melhores condições.
Daí a necessidade de reconhecer que as “limitações” atribuídas às mulheres no trabalho – e uma série de dificuldades reais que elas enfrentam - não estão relacionadas a uma certa “natureza feminina menos apta para o trabalho remunerado”, ou com a sua suposta condição de “força de trabalho secundária”, mas sim com o fato de que, devido à ordem de gênero e à divisão sexual do trabalho que continuam predominando em nossas sociedades, elas continuam arcando de forma unilateral com as responsabilidades domésticas e familiares. Além disso, no contexto de economias e sociedades que não incorporam ao conceito de atividade econômica o trabalho não-remunerado dedicado ao cuidado das pessoas, os custos da reprodução social são assumidos pelas mulheres, na forma de excesso de trabalho (a “dupla jornada”, e/ou a “dupla presença”), remunerações inferiores ou não-recebidas ou trajetórias ocupacionais menos satisfatórias.
2.3.4.
Em síntese
Os resultados dessas duas pesquisas indicam que as imagens de gênero dominantes tendem a projetar sobre a figura da mulher trabalhadora uma outra imagem de mulher, presa fundamentalmente à vida familiar e doméstica, que limitaria a sua adequada inserção e desempenho no trabalho. Essa imagem, independentemente de qualquer comprovação empírica da existência concreta de uma série de problemas a elas associados e que supostamente as justificariam, tais como altas taxas de absenteísmo e de rotatividade voluntária e altos custos indiretos associados à maternidade, condicionam fortemente a disposição de investimento dos empresários na parcela feminina de sua força de
de seu desenvolvimento profissional.
Indicam também que, apesar de ser possível identificar algumas tendências comuns no discurso empresarial sobre as mulheres no trabalho, esse é, muitas vezes, ambíguo e contraditório. É ainda mais difícil é estabelecer uma relação clara entre essas opiniões e quaisquer dos fatores definidos no sistema de hipóteses, como o tamanho da empresa, setor produtivo, porcentagem de mulheres empregadas. Em cada uma dessas categorias de classificação, foram encontradas opiniões bastante diferentes. A conclusão a que se chega é que, mais que obedecer ao setor ou ao tamanho das empresas estudadas, o que explica principalmente a opinião negativa ou positiva, favorável ou desfavorável, dos empresários a respeito das mulheres é uma
definição prévia das características das diferentes ocupações, que tem pouco a
ver com seus elementos técnicos ou organizativos, e muito mais com o caráter masculino ou feminino socialmente atribuído a essas ocupações. Revela-se, assim, a importância justamente das imagens de gênero como critério de classificação das empresas (ou tipos de empresas) e inclusive das ocupações (e tipo de ocupações no interior de cada empresa), como mais ou menos adequadas para homens ou mulheres, definindo verdadeiros territórios masculinos e femininos no mundo do trabalho.
Este passa a ser o critério principal para avaliar – e qualificar –, valorizar ou desvalorizar o desempenho de homens e mulheres no trabalho. Exatamente o mesmo argumento, ou a mesma característica atribuída a uma mulher trabalhadora, aparece às vezes como virtude, às vezes como defeito ou limitação, às vezes como possibilidade, outras vezes como impossibilidade de exercer adequadamente uma função. O que faz, por exemplo, que o trabalho em turnos noturnos seja considerado impróprio para s mulheres na indústria gráfica e próprio nas empresas telefônicas ou do setor de saúde, onde elas se concentram exatamente em ocupações caracterizadas, desde sempre, pelo trabalho noturno e em turnos (operadoras telefônicas e enfermeiras)? A diferença, no fundo, é o fato de que o trabalho de enfermeiras e operadoras telefônicas é considerado próprio para mulheres, e o do operário da indústria
gráfica é considerado impróprio. As explicações para isso não se encontram no terreno das competências técnicas, e sim em razões de ordem cultural e histórica, que continuam reproduzindo-se, apesar das profundas mudanças ocorridas nos últimos anos nas características técnicas dessas ocupações.
Outra conclusão do estudo é a força da imagem de que há habilidades, vantagens e qualidades que são próprias dos homens e outras, diferentes, que são
próprias de mulheres. Isso talvez não fosse um problema se essas diferenças não
se convertessem em desigualdades. Ou seja, se, junto a essa sinalização das diferenças, quase sempre identificadas por comparação ou oposição, não se produzisse uma forte hierarquização das supostas virtudes e defeitos atribuídos a homens e mulheres, incidindo significativamente nas possibilidades de uns e outras de terem acesso ao emprego, a melhores remunerações e a cargos mais valorizados.