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II. CADRE THEORIQUE

1. La démarche d’observation

A elucidação das hipóteses ocorre não de forma direta e objetiva, mas por meio da discussão sobre a produção do espaço da Reserva do Paiva, na escala da RMR. Desta feita, a contradição ‘construção – destruição’ permeia a implantação desse complexo imobiliário. Apresentar as hipóteses não como proposições simples e diretas, mas por meio de uma discussão mais aprofundada, é um percurso usual nas ciências sociais, conforme apontam Laville & Dionne (1999).

Uma inquietação inicial sobre o CIRS Reserva do Paiva diz respeito às transformações espaciais que atualmente ocorrem na RMR, particularmente nas suas áreas nobres. Práticas tradicionais, as quais em certo sentido revelam a identidade do bairro, são diluídas na esteira das transformações econômicas e sociais da cidade. Assim, os discursos construídos em torno da Reserva do Paiva apregoam a suposta insustentabilidade urbana de outros fragmentos do espaço metropolitano e, diante disto, seria o seu contraponto e alternativa. É importante estabelecer esta conexão porque a todo tempo os promotores imobiliários procuram vender esse complexo imobiliário como se fosse uma espécie de contraponto da realidade atual de Boa Viagem e de outros bairros de alta renda do Recife e sua área metropolitana.

Com alta densidade, muitos bairros ou áreas nobres do Recife e de outras metrópoles brasileiras desempenham tanto a função residencial, quanto comercial e de serviços especializados. Exemplo disto é que Boa Viagem abriga inúmeras lojas de grife, restaurantes famosos, serviços de beleza e estética, agências de turismo, casas de câmbio, shopping centers, hipermercados, etc., muitos deles segmentados para as camadas de alto poder aquisitivo. Essa centralidade é ao mesmo tempo funcional, mas é também geradora de externalidades negativas decorrentes de problemas como: elevado adensamento, congestionamentos frequentes, poluição sonora e visual, dentre outros problemas.

Além disso, no processo de diversificação das práticas espaciais nessas áreas nobres, a vida pública, portanto, o espaço vivido, fica cada vez mais restrito a espaços privados e fechados, como shopping centers, restaurantes e bares, festas em casas de recepções, logo, quase sempre ligada a alguma prática social relacionada com o consumo. Um ponto central é que os promotores imobiliários continuam, por um lado, a ofertar e anunciar certas vantagens para se viver nessas áreas de alta renda4, mas,

4 Afinal de contas, nelas ainda é forte o processo de verticalização, com o lançamento de novos

por outro, também oferecem ‘novos produtos’, imbuídos de representações simbólicas que traduzem espaços imaginados que seriam uma alternativa para a fuga dos problemas cada vez mais comuns nesses fragmentos da cidade já bastante densos e com usos diversificados. Isso, claro, tem como alvo os estratos de alta renda.

É justamente neste quadro de análise que o CIRS Reserva do Paiva está circunscrito, ou seja, é vendido como um suposto contraponto da vida na metrópole, mesmo que inevitavelmente dela faça parte. Um dos argumentos levantados pelos promotores imobiliários é de que a vida pública nessas novas configurações socioespaciais poderia se realizar plenamente em espaços abertos, tranquilos e seguros. Trata-se tão somente de espaços de representação, nos termos discutidos por Lefebvre (2007).

Diante dessa realidade, o CIRS em estudo, na condição de ‘superproduto’ imobiliário, é um espaço de representação habilmente planejado e desenvolvido segundo essas representações do espaço (códigos e simbolismos) que evocam, de forma simultânea, negatividades das áreas de alta renda com ocupação consolidada e as supostas positividades desse novo espaço em produção. Deste modo, procura se consolidar na esteira das próprias contradições da vida no Recife, particularmente as relacionadas com as transformações mencionadas acima.

Mas, ao contrário do que é anunciado, não significam a superação dessas contradições, uma vez que eles até as aumentam e expõem as clivagens de classe no espaço urbano. Contudo, enquanto negócio e sob a perspectiva das representações, o marketing trabalha com um espaço imaginado (LEFEBVRE, 2007) que anuncia o novo, num movimento deliberado de envelhecimento das estruturas existentes para, dessa forma, justificar, a oferta no mercado de novos produtos e ‘estilos de vida’.

Sendo assim, entende-se de que a implantação da Reserva do Paiva é parte de um movimento dialético em que, de um lado, estão os bairros ricos, bastante verticalizados e detentores de centralidade urbana, porém saturados diante das externalidades negativas que tais fenômenos apresentam, e, de outro, a ‘solução’ estaria na fuga para um espaço concebido que é anunciado como uma ‘nova cidade’, senão um ‘novo ideal de cidade’ materializado por este empreendimento. Trata-se, isto sim, de uma representação do espaço erigida sob a lógica do capital nos termos

vaga na garagem, espaço com isolamento acústico para realização de festas, elevadores exclusivos, dentre outros. Os promotores imobiliários alegam que esses novos itens integram um padrão de exigência bastante segmentado no mercado. Dessa forma, não se quer negar aqui a dinâmica imobiliária nessas áreas nobres, sobretudo de Boa Viagem, que continua a ter o metro quadrado mais caro da metrópole recifense, à beira mar.

abordados por Lefebvre (2007, p. 38), segundo o qual, “Representations of space: conceptualized space, the space of scientists, planners, urbanists, technocratic subdividers and social engineers [...]”5.

Dessa forma, a construção discursiva que apregoa as qualidades superiores do CIRS Reserva do Paiva embute representações do espaço que envolvem simbolismos e códigos relacionados com a ‘morte’ de Boa Viagem (e dos outros bairros similares), que é com muita frequência o bairro mais confrontado negativamente com a Reserva do Paiva pelos promotores imobiliários, mas contraditoriamente é também o que neste momento possui o metro quadrado mais caro do Recife.

Tal esforço em fazer esse confronto ocorre pelo fato de Boa Viagem apresentar similaridades quanto às características geográficas do sítio, mas ao mesmo tempo, com sua intensa verticalização, a carência de infraestrutura e a alta densidade de ocupação, que geram externalidades negativas, é também o bairro que exibe evidentes disparidades com o que se anuncia para o Paiva. Por esta linha de raciocínio, o capital se reproduz segundo uma lógica de morte.

Ante tal representação simbólica, é preciso ‘matar’ os bairros ricos para ‘fazer nascer o novo’, o qual seria possuidor de atributos ou qualificativos bem superiores ao restante da cidade. Ou seja, a lógica do capital é uma lógica de morte e, com base nisto, ‘matando’ ou confrontando a realidade de seus espaços nobres, justificar-se-ia o ‘nascimento’ de um novo espaço e um ‘novo bairro’. Nesse movimento dialético a metrópole se transforma em ‘necrópole’ (SANTOS, 1997b), na medida em que seu espaço é produzido e reproduzido continuamente a partir de ‘assassinatos sucessivos’. Em termos relativos, para o mercado, é preciso ‘matar’ ou envelhecer o que já existe para fazer nascer o novo.

Isso implica dizer que a confrontação da cidade ou alguns de seus fragmentos seria a chave para o sucesso do empreendimento imobiliário. É exatamente confrontando Boa Viagem, por exemplo, que o CIRS Reserva do Paiva se afirmaria e se justificaria mercadologicamente. No processo de produção espacial e de produção/reprodução do valor, o marketing tem papel crucial nessa significação e ressignificação dos espaços metropolitanos. Trata-se de um processo de destruição criativa conforme propõe David Harvey, em que vigora uma sociedade “do descarte”, para quem “Ela significa mais do que jogar fora bens produzidos [...]; significa também

5 “Representações do espaço: espaço concebido, o espaço dos cientistas, planejadores,

urbanistas, tecnocratas e engenheiros sociais [...]”. (Tradução livre do autor. Observação válida para todas as traduções que se seguem).

ser capaz de atirar fora valores, estilos de vida, relacionamentos estáveis, apego a coisas, edifícios, lugares, pessoas e modos adquiridos de agir e ser” (HARVEY, 1992, p. 258). Este fenômeno é parte intrínseca da produção do espaço urbano no período atual.

Não que os problemas apontados pelos promotores imobiliários em relação aos espaços consolidados da metrópole inexistam. Sob vários aspectos, morar na cidade do Recife como em tantas outras metrópoles brasileiras está cada vez mais difícil, dado o alto grau dos problemas básicos. Mas isto, por si só, não assegura que um fragmento concebido e vendido como um paraíso, isto é, sem esses problemas, funcionaria totalmente desconectado da realidade que o cerca. É mesmo ilógico achar que isto funcionaria.

O capital necessita criar novos espaços para sua reprodução e para isto ‘envelhece’ outros, induzindo à destruição e à criação contínuas de novos desejos e necessidades. Tal quadro analítico mostra com bastante evidência que a realidade não constitui um dado estático, mas está em permanente dinamismo e é alvo contínuo da atuação do capital, tanto de forma concreta, quanto imaginada.

Diante desse quadro de análise, o projeto urbanístico da Reserva do Paiva revela todo o teor das representações espaciais condizentes com o prisma do espaço concebido (para usar um termo lefebvriano) típico da visão do planejamento ‘mercadófilo’ (SOUZA, 2002; 2003). Trata-se de um espaço que é tecnicamente organizado conforme as potencialidades de uso e de reprodução do capital e evoca a intencionalidade dos promotores em estabelecer relação direta entre o espaço imaginado, tendo por base as representações simbólicas que eles mesmos traçaram e o espaço concebido de acordo com o ordenamento e o aparato técnico e urbanístico em uso6.

Diante da condição de metrópole periférica assumida pelo Recife, no contexto da divisão social e espacial do trabalho, essas coalizões dependem dos ventos soprados pelo Estado através de suas políticas públicas que criam um ambiente favorável para o crescimento econômico. Diferentemente de uma metrópole consolidada como São Paulo, que conta com ativa participação do capital financeiro representado pelos fundos de pensão (FIX, 2007), aqui, a iniciativa privada local não

6 O espaço vivido não é aqui analisado, pois seu uso como espaço de moradia ainda é

insignificante, já que se encontra em fase inicial de construção, por outro lado, é possível confrontar o espaço imaginado e o concebido a partir das ações atualmente empreendidas no complexo Reserva do Paiva.

tem força suficiente para alavancar grandes empreendimentos econômicos em contextos de baixo investimento público e, menos ainda, na contracorrente das políticas públicas.

Desse modo, na esteira de políticas que alavancaram o PRODETUR-NE, nos anos 1990 e 2000; o Projeto Capital, em 1999; e o CIPS, desde os fins da década de 1970, mas, sobretudo, em sua fase de maior consolidação a partir de 2008, é que justamente ocorre a expansão do setor imobiliário com maior força. Com isso, a autonomização e independentização da Reserva do Paiva não se referem exatamente à total independência frente ao poder público, mas à fragmentação da gestão pública, que delega à iniciativa privada algumas de suas atribuições que outrora eram exclusivas do Estado. De forma contraditória, isso só afirma o papel proeminente do agente estatal, mesmo quando aparentemente ele parece se retirar de cena.

Outro elemento importante na construção da problemática é que, neste CIRS, aproveitando os recursos naturais do seu espaço, mas, sobretudo, lançando mão de estratégias inovadoras de governança, há um olhar diferenciado para o campo socioambiental. Esse olhar não mais se limita a fazer apologia ao verde ou a um suposto contato com a natureza ‘intocada’. Sem dúvida, as amenidades naturais continuam a ser um importante atrativo para a moradia de alto padrão e justamente por isso são habilmente elaboradas nos apelos do marketing do complexo imobiliário.

Essas construções discursivas evocam espaços imaginários que são muito fortes no presente, mas não representam algo totalmente novo, inclusive no contexto do Recife7. Vender a ideia de um ambiente preservado é sempre um apelo forte e

interessante para o mercado imobiliário, mesmo que isso não se confirme plenamente na realidade e não seja algo autenticamente novo. Porém o que se apresenta como novo, ao menos no contexto local, são as ações e iniciativas adotadas pelos agentes capitalistas produtores do espaço, sob o comando dos desenvolvedores, as quais se traduzem na incorporação de elementos da chamada modernização ecológica (COSTA, 2006; ESCOBAR, 1996; HARVEY, 1996b), do empresariamento urbano (HARVEY, 1996a; CARVALHO, 2013) e da gestão condominial (REIS, 2006) e todas as articulações que ela envolve.

Mediado pelo marketing, o campo ambiental se torna cada vez mais um recurso explorado pelo setor imobiliário, que assim busca tratá-lo na perspectiva da

7 No início da segunda metade do século passado, a expansão da cidade em torno de Boa

Viagem também teria ocorrido com base nessa ideia de contato com a natureza, em particular com a praia e suas virtualidades.

sustentabilidade. Como produto do marketing, a sustentabilidade é muitas vezes um jogo de cena que teima muito mais em confundir do que mostrar a realidade de forma ‘nua e crua’. Tal preocupação com a sustentabilidade, ainda que muitas vezes esteja restrita à construção discursiva, é cada vez mais um componente obrigatório do marketing dos grandes empreendimentos imobiliários. No tocante à Reserva do Paiva, tal preocupação abrange o contexto social, sobretudo em relação à articulação com os bairros vizinhos do complexo imobiliário.

Na RMR, a produção imobiliária, como tantas outras atividades econômicas privadas, está muito atrelada às políticas públicas. Desse modo, essa dependência frente ao Estado faz com que o tempo por aqui se comporte ‘em saltos’, isto é, ‘em ondas’. Se como afirma Santos (1997a) são os eventos que criam o tempo, sob a ótica econômica, o tempo nessa área metropolitana teria como eventos-chave os projetos e ações relacionados às políticas públicas, que canalizam grandes somas de recursos para a iniciativa privada operar seus projetos e assim produzir espaço.

É, portanto, nesta atual onda de dinamismo de expansão do CIPS que a Reserva do Paiva se afirma e se torna viável como CIRS, ainda mais quando a possibilidade de se voltar para o cliente europeu na perspectiva do imobiliário turístico foi redimensionada a partir da crise em 2008.

Diante do exposto acima, neste percurso de explicitação da problemática, a pergunta central apresenta relação direta com o objetivo geral citado anteriormente e é sintetizada na seguinte interrogação: Como a produção do espaço do CIRS Reserva

do Paiva, associada às estratégias de governança e pautada no exclusivismo socioespacial, traduzem a inclusividade exclusiva? É com base nesta questão que

toda a pesquisa está balizada. Por fim, para fins de situar a paisagem geográfica do recorte territorial da pesquisa, a seguir é feita uma breve caracterização da mesma.

2.3 A localização geográfica estratégica e breve caracterização do meio