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1 Pratiques et dispositifs: quelques exemples

6. Les langues testées

1.4 Les qualités des tests langagiers

1.4.1 L’utilité d’un test

O senhor José Ribeiro de Souza Neto, 43 anos, foi presidente da Associação dos Mini e Pequenos Produtores da Comunidade Quilombola Malhadinha Rural por dez anos, deixando a gestão da entidade em fevereiro de 2018. Ele possui segundo grau incompleto, é lavrador, pastor da Igreja Assembleia de Deus, em Malhadinha, e aposentado por invalidez. Além disso, o pastor Zé – como é conhecido na comunidade – integrou a diretoria da Coeqto.

Considerando Foucault (1995), Goffman (1963) e Honneth (2003), a resistência contra a sujeição praticada pelo pastor Zé derivou dos sofrimentos causados por um misto dos estigmas das abominações do corpo e das culpas de caráter individual. E seus modos de luta por reconhecimento foram a fé em Deus e a atuação política nos movimentos sociais quilombolas. Mesmo tendo crescido em uma comunidade na qual praticamente todos os seus integrantes possuem algum grau de parentesco, pode-se entender que Zé viveu as experiências de desrespeito principalmente na esfera da solidariedade, conforme apontado em suas falas:

Aqui era bem atrasado, aqui não tinha nada. De 2004 pra trás, aqui era a terra do nunca! Nem carro vinha aqui fácil. Aqui era terra de ninguém! O povo tinha que subir a serra […] Ninguém podia vir aqui na Malhadinha porque era bem difícil. Então, quando surgiu a oportunidade do movimento quilombola, de criar uma associação - que nós já tínhamos uma -, mas antes era uma associação que estava desativada porque não tinha força nenhuma de luta [...] Quando a prefeita atual, em seu primeiro mandato, disse que nós tínhamos essa chance de melhorar a comunidade, mas que precisávamos da associação [...] Então, eu já fazia parte da igreja. E logo no início, até o ano de 1997, eu era uma pessoa bem “esquecida”. Sabe aquele Zé Ninguém?! Ninguém dava nada por mim, eu era o palhaço da comunidade! Me viam como “mongolóide”, como um “moco véi”. E a minha vida era tacar pedra na cabeça de gente, furar gente […] babava tudo […] Eu chorava […] Então, quando Deus fez essa mudança, essa transformação, eu senti que precisava passar isso. A minha luta como pessoa tinha que ir mais além! Levar isso como se fosse uma transformação não só pra mim, mas pra comunidade também! Então, eu creio que Deus fez algo certo, de que quando surgiu a participação na associação, que ninguém queria porque falavam

80 que era “bucha”[…] Eu falei: “Rapaz, é o seguinte, me dá isso bem aí! Se eu não der conta, eu […] Porque eu não posso dizer de algo que eu não tentei. Eu tenho que experimentar o trem!”

Bom, de tanto me zoarem, de tanta zoeira, eu sentia como se eu fosse realmente Mefibosete, filho de Jônatas. Com a morte do rei Saul, Mefibosete era criança e o que ele fez? A ama de leite pegou ele, fugindo da matança da família real, e ele caiu em uma grota e quebrou as pernas. E o que acontece? Ele foi para a “terra dos esquecidos”71. Então eu sentia como se fosse eu!

Quando Deus me apanhou desse quadro e me transformou em outra pessoa e meu quadro, misteriosamente, mudou [...] Eu era a mesma pessoa (de agora), no entanto eu era desacreditado. Eu entendo isso! Um mistério! Eu sou a mesma pessoa (de antes), mas uma pessoa que trouxe algo positivo pra vida. Me enxergando com outros olhos. E esses outros olhos, com os quais eu me enxerguei, abriram a mente. Eu deixei de estudar […] tinha feito só até a segunda série do primarinho, né. Eu tinha falta por causa de dor de cabeça por causa do problema psicológico e não conseguia estudar. E isso passou, também! Eu não tenho dor de cabeça mais. Hoje, graças a essa empolgação, eu já fiz o ensino fundamental completo e estou terminando o ensino médio. E a comunidade me abraçou! Sou enxergado de outra forma! Tanto é que tudo que tem hoje na comunidade tem um dedo não só meu quanto de outras lideranças fortes aí. E hoje sou enxergado com outros olhos porque o fio de luta que entrou na minha pessoa, que transformou a comunidade […] A associação, quando eu assumi, estava desativada, desacreditada e tinha R$ 7 mil de dívida. Hoje não deve nem um centavo, tem credibilidade na praça e é uma associação forte! E isso com um gás, de que eu recebi a oportunidade e: “opa, é por aqui! É a vez de eu mostrar que não é como o povo pensava”. E essa embalagem escura de café que pode estar rasgada, pode ser útil em alguma coisa (Ele aponta para uma embalagem que estava jogada na varanda dos fundos da casa dele, onde ocorreu a entrevista). E hoje a comunidade está no pé que está. Precisa mudar alguma coisa? Precisa! Mas a comunidade já teve muitos avanços.

Assim, conforme observado anteriormente em Goffman (1963), os estigmas são colocados sobre aqueles que se querem evitar, sobre os que são vistos como não completamente humanos (ou sobre os que se quer desumanizar), discriminando-os a ponto de reduzir suas chances de vida. O estigma impõe a vergonha e o desespero ao estigmatizado. E uma identidade virtual, preconcebida e genérica é projetada sobre ele e sobre sua identidade real. “Essa discrepância estraga a sua identidade social; ela tem como efeito afastar o indivíduo da sociedade e de si mesmo de tal modo que ele acaba por ser uma pessoa desacreditada frente a um mundo não receptivo” (GOFFMAN, 1963, p. 20). Tal como ocorreu com o senhor Zé, que entende que é, hoje, “a mesma pessoa” que era antes. Mas que, no passado, era “desacreditado” pela comunidade.

Com isso, nas circunstâncias de estigmatização vividas pelo pastor Zé, é possível dizer que ele estava submetido a uma tecnologia “negativa de poder”, que atuava pela expulsão, a

71 Ele faz referência à cidade de Lo-Debar (citada na Bíblia), na qual Mefibosete (neto do rei Saul) era ignorado de sua existência e vivia na miséria, após ter-se tornado deficiente das duas pernas, durante a fuga dele com sua ama, devido à morte do rei e seus filhos.

81 marginalização, a rejeição, o desconhecimento (FOUCAULT, 2001, p. 72-77). Ou, como relatado por Zé, pela contrastante simultaneidade entre o “esquecimento” e a “zoeira”; pela conversão de sua existência na de um “ninguém” e de um “palhaço”. E de tão profundos os efeitos dos estigmas lançados sobre ele, que acabou se tornando vulnerável à visão que a comunidade tinha dele, sentindo-se inferior aos padrões impostos pela sociedade. Reagindo com a fúria de quem tacava “pedra na cabeça de gente” e a angústia de quem “chorava”. Desse modo, o senhor Zé teve sua individualidade “sujeitada” (FOUCAULT, 1995), uma vez que a identidade dele foi usada para oprimi-lo.

É possível entender que esses desrespeitos (HONNETH, 2003, p. 209-211) praticados contra ele atingiram, principalmente, a esfera de reconhecimento da solidariedade, na qual deveriam ocorrer interações sociais de estima simétrica entre os sujeitos que deveriam olhar não apenas com tolerância para as capacidades e propriedades individuais uns dos outros, mas como elas sendo algo significativo para as relações comuns. Posto que essa simetria significa:

[...] que todo sujeito recebe a chance, sem graduações coletivas, de experienciar a si mesmo, em suas próprias realizações e capacidades, como valioso para a sociedade. É por isso também que só as relações sociais que tínhamos em vista com o conceito de "solidariedade" podem abrir o horizonte em que a concorrência individual por estima social assume uma forma isenta de dar, isto é, não turvada por experiências de desrespeito. (HONNETH, 2003, p. 211)

Porém as relações que ocorriam eram de exclusão e ofensa para com as características individuais do senhor Zé. Assim como a negação, por parte da comunidade, de que ele vivenciasse suas capacidades e se sentisse, dessa forma, importante para o grupo social. E tais desrespeitos à esfera da solidariedade atingem negativamente o “sentimento do próprio valor” e a “autoestima” do indivíduo (HONNETH, 2003, p. 210). Decorrendo que, com isso, o pastor Zé foi simbolicamente banido para a “terra do esquecimento”.

No entanto, como explicado anteriormente a partir de Honneth (2003), o sofrimento gerado pelo desrespeito força o indivíduo a entrar numa tensão afetiva que só pode desaparecer quando essa pessoa reencontra a possibilidade da ação ativa. E a primeira forma de luta pelo reconhecimento que o senhor Zé encontrou foi sua fé e o trabalho voluntário na igreja. Ali naquela vivência de grupo – com as interações face a face -, ele reencontrou um ambiente no qual teve suas carências, sua capacidade de julgamento e suas habilidades consideradas importantes (HONNETH, 2013, p. 65-67). Tanto que, desde os trinta anos, conquistou o reconhecimento da comunidade da igreja para ser pastor.

82 Afinal, segundo Honneth (2013, p. 67), a autoestima precisa que - ao longo da vida - as habilidades próprias do sujeito sejam vistas como valiosas para os demais. Pois, do contrário, ela será fraca e ineficaz. E com isso, o pastor Zé, era na igreja a mesma pessoa de antes da igreja, como já afirmado. No entanto a partir de sua fé em Deus, ele converteu-se de uma pessoa “desacreditada” a alguém que traz “algo positivo pra vida”. Com a autoestima renovada, ele se enxergou “com outros olhos”, que “lhe abriram a mente”.

E através dessa resistência contra a submissão de sua subjetividade, o pastor Zé iniciou uma luta por reconhecimento que o levou a transformar sua ação ativa em política. Ele passou a sentir necessidade de que sua batalha pessoal fosse “mais além”, propiciando transformações também para a comunidade Malhadinha. Assim, quando ninguém mais queria pegar a presidência da associação quilombola, “o fio de luta” que integrou a vida dele o fez trabalhar pela coletividade, quitando a dívida da entidade e recuperando a força dessa ferramenta política. Era a vez do pastor Zé “mostrar que não é como o povo pensava” sobre ele.

Desse modo, o desrespeito na esfera do “reconhecimento do direito” (HONNETH, 2003) que atingia (e ainda atinge) tanto o senhor Zé quanto os demais integrantes da comunidade Malhadinha passou a ser enfrentado com a participação ativa desse líder quilombola. Tal comunidade rural, como ele destacou, era bem “atrasada”, tinha difícil acesso, “era a terra do nunca”. Além de que a pauta quilombola também se somou ao enfrentamento das pessoas da comunidade contra as sujeições que elas já viviam. E, atualmente, “tudo que tem hoje na comunidade tem um dedo não só” dele, mas “de outras lideranças fortes”, que andam ao lado do pastor Zé, articulando-se nos movimentos sociais quilombolas. Assim, dentro da concepção de poder definida anteriormente a partir de lideranças quilombolas tocantinenses, o senhor Zé passou a desempenhar um poder positivo (bom), uma vez que fez a escolha de atuar na luta da comunidade por direitos e contra a opressão.