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De l’indépendance à nos jours

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O dia 15 de agosto, de fato, é uma data de grande significância para as mulheres do meretrício. É nesse dia que, paramentadas com longas saias improvisadas e blusas coloridas, colares diversificados, brincos, turbantes e uma

168 Maria Madalena de Almeida, conhecida como Helena de Herbrujo, nasceu em 18.09. 1949, em

Riachão do Jacuípe. Filha de Augusto Irmão de Almeida e Maria dos Prazeres das Neves. Depoimento em 28.09.2002.

maquiagem carregada (com destaque para os sinais gráficos de interrogação na face,) elas se exibem vaidosas e festivas, em louvor a São Roque.

Nas antigas lavagens, em torno de 1940, as mulheres trajavam xales trespassados no peito, saias compridas e chapéus enfeitados com flores. As roupas eram quase todas coloridas, sendo que os integrantes da ala da frente trajavam-se de branco, “que era a ala em homenagem a Obaluaê, o padroeiro da festa, na tradição de Salvador”,169

como revela a jacuipense Delfina Barbosa dos Santos, uma ardorosa participante da lavagem. Delfina conta que, já na década de 1960, elas se vestiam ainda como baianas, porém, também utilizavam tecidos em coloridos chitões. As saias compridas de seda eram preferencialmente nas cores, amarelo, azul, lilás e rosa. Também as crianças saíam brincando fantasiadas de baiana, contudo seus figurinos eram confeccionados em papel crepom nas diversas cores existentes. Para a construção dos colares, as mulheres utilizavam sementes e flores de algodão que no período que antecedia o dia da lavagem eram trazidas das caatingas. Como nesse tempo ainda não se conhecia colar de conta, então, para confeccioná-los o costume era tomar como base os colares dos índios da região.

A maquiagem com que as mulheres adornam o rosto, carregada nos tons e nos sinais gráficos para chamar a atenção da população para aquela estética, muitos participantes não lhe sabem a origem. Pintam-se dessa forma porque vêem esse comportamento nas outras e repetem. Contudo, Idalina Soares da Hora acredita que “a idéia de se pintarem dessa maneira vem dos índios, eram eles que faziam os desenhos que nós imita”.

Adelson Ribeiro dos Santos confirma essa hipótese acrescentando preciosas informações desse imaginário no qual revela a influência cultural dos índios e negros que habitaram a região de Riachão do Jacuípe:

“É dos caboclos, dos índios, dos negros que vem da África dos matos das matas porque eles só vem das matas trais a cutura das matas a nação que mais se pinta é caboclo os outros não, mais omulu se pinta, ele veve pintado quando vem do quarto raspado arrumadinho todo arrumadinho ele trais a pintura dele e a gente

169

Delfina Barbosa dos Santos. Nasceu em 15. 12. 1942, em Riachão do Jacuípe. Filha de João Silvino e Ernestina Barbosa. Depoimento em 15. 08. 2000.

não vê mas quem é do candomblé vê e aprecia ele tá pintado ali dentro tá me entendendo”.

Hoje, as mulheres ainda se vestem com aquelas saias rodadas que eram usadas no passado, porém sem o glamour de um tempo em que os mais velhos lembram com saudade. Tempo em que as mulheres brilhavam nos rodopios quando dançavam com seus trajes confeccionada com saias bem rodadas sentindo-se bonitas e faceiras. As roupas ainda são muitas vezes improvisadas embora todos se entusiasmem em produzir seus figurinos para a festa do glorioso São Roque, o que define a cada ano, novos e alegres figurinos.

Há, porém, os que capricham no rigor e se vestem a caráter respeitando a tradição, como Adelson Ribeiro, que a cada ano idealiza e concebe o seu visual de baiana preferencialmente na cor vermelha, que na religião do candomblé é a cor que corresponde a Iansã orixá dono de sua cabeça. Geralmente as saias são rodadas e armadas com arame, porém vê-se entre as adolescentes sensuais saias de renda sem arame e sem forro, e nesse caso com short por baixo.

As crianças acompanham as pessoas mais velhas no tipo de figurino, que de um modo geral são confeccionados predominantemente nas cores: branco, azul, vermelho, verde, rosa, lilás e amarelo.

FIGURA 19: Integrantes da Lavagem da Rua do Fogo, agosto 2000.

Geralmente os recursos para as roupas das mulheres da Rua do Fogo provêem de doações do comércio local e de fiéis de São Roque, complementados, desde a sua origem, por alguns anos a administração municipal tem contribuído com tecidos para a confecção dos figurinos.

No entanto, como ocorre muitas vezes no poder público, quando a verba chega ao destinatário já passou pelos atravessadores e esses redirecionam a quantia destinada como denuncia a porta-bandeira Idalina Soares: “não vamos aceitar mosqueteiro velho pra fazer nossa saia como outo dia que o prefeito autorizou trazer fazenda pra fazer as saias e uma sabidinha entregou para nois foi um pano de mosqueteiro velho isso não tá certo todo mundo via que aquilo era mosqueteiro!”

FIGURA 20: Sisalana Fiúza caracterizado de São Roque

FIGURA 21: Adelson Ribeiro, Sisalana Fiúza, Idalina Soares e Jucira Oliveira, agosto 2002.

A cultura popular é dinâmica, inova-se, transforma-se e adiciona elementos da contemporaneidade. A cada ano os integrantes inventam e agregam novos

elementos ao ritual em louvor a São Roque, alterando a cena teatral para contar uma “mentira” que está sendo inventada e legitimada. E é de fundamental importância a compreensão dessa mentira que está sendo criada, dessa mitificação que constrói a oralidade popular, visto que estando em permanente transformação, amplia-se e possibilita ações que valorizam a produção e a transmissão do conhecimento. As “mentiras”, os sonhos e as lendas, devem aparecer como uma realidade, porque se referem a uma história subjetiva e são reveladoras, porque expressam sensações e uma nova ética. Cada participante do grupo, enquanto mediador ritualístico configura-se pelos valores e sentidos e são atores na construção e transmissão dos mesmos.

Observei esse fato em agosto de 2002, ao retornar a campo durante os festejos roquianos ocasião em que constatei uma alteração no ritual da Rua do Fogo: a introdução no cortejo de uma personagem trajada de São Roque. O figurino tipicamente sertanejo, idealizado e executado por Idalina Soares da Hora foi improvisado a partir de uma cortina de cor roxa. O “São Roque” trazia um chapéu de couro, um cajado rústico e uma caneca azul de plástico amarrada por uma corda de sisal ao seu corpo. Imbuído de seu papel naquela cena, aquele ator social expressava um olhar forte que contrastava com uma presença física suave, plenamente integrada com aquela manifestação. Também à porta da igreja, no momento em que os integrantes do cortejo cantavam contritos o Hino a Senhor do Bonfim, foi revelada mais uma novidade oriunda da inventiva de Idalina: O “São Roque” permaneceu ajoelhado, tendo a seu redor os outros participantes numa encenação teatral que fazia lembrar o universo do candomblé.

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