“Quem segura o porta-estandarte tem arte, tem arte”.151
Toda irmandade religiosa é constituída de uma bandeira, que a confere um lasser-faire, espécie de passaporte, de trânsito, para trafegar por vias públicas sem serem importunadas. A figura de uma bandeira simboliza a solidariedade de todo o grupo que participa de uma determinada manifestação. Bandeiras remontam a Festa do Divino Espírito Santo que acontece em terras brasileiras desde o século XVI. Há, contudo, na Idade Média, a presença do estandarte, símbolo maior de um ofício que os cavaleiros levavam à frente de seus batalhões nas antigas Cruzadas.
No ínicio da colonização brasileira, os bandeirantes costumavam conduzir em seu séqüito uma bandeira que funcionava como um marco daquela empreitada e para delimitar o espaço conquistado, daí serem designados de bandeirantes. Fato semelhante foi visto em julho de 1969 quando o primeiro homem pisou em solo lunar. Naquele dia, Neil Armstrong conduzido pelo Apollo XI fincou a bandeira norte-americana para demarcar um espaço e legitimar sua conquista.
É comum, nas festas populares, a presença de estandartes, legitimando seus santos padroeiros. Esse procedimento também é constatado nas irmandades religiosas. Conforme Câmara Cascudo152, a tradição provém da bandeira das
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MAUTNER, Jorge. Maracatu Atômico. 2000.
corporações, significando, com sua presença simbólica, a solidariedade de todo grupo. Ter a bandeira era a oficialização da associação profissional. Dizia-se então “ofício embandeirado”, reconhecido pelo rei. As bandeiras dos oragos proclamam a autenticidade das homenagens aos seus méritos tradicionais.
FIGURA 11: Bandeira da lavagem de São Roque empunhada por Adelson Ribeiro, agosto 2002
Assim, como acontece em festas religiosas, na Lavagem das Mulheres da Rua do Fogo, duas bandeiras são empunhadas durante o percurso, simbolizando seu ofício de fé, no glorioso São Roque. Neste contexto, a função de porta bandeira, é tradicionalmente exercida por mulheres, atualmente sob a responsabilidade de Idalina Soares da Hora.
Segundo Idalina, sua tia Hermínia recebeu as duas bandeiras das mãos de Aquilina e Maria de Sinfrônio, que eram os porta-bandeiras na década de 20. Entretanto, Bernadete Pereira Oliveira explica que anteriormente os porta-bandeiras eram ela e Hermínia, que receberam a bandeira de Aquilina e Heroídes.
Quando Hermínia morreu Bernadete determinou que Idalina deveria fazer-lhe companhia na responsabilidade com as bandeiras. Bernadete lembra que naquele tempo, quando era porta-bandeira, havia somente uma bandeira, a de Nossa Senhora da Conceição, e que ela e Idalina dividiam o poder do seu comando enquanto brincavam na Lavagem: “era a bandeira da padroeira da cidade mais louvando São Roque”. Conforme Bernadete, posteriormente foi confeccionada a bandeira de São Roque, ocasionando o cortejo com duas bandeiras e duas porta-bandeiras, o que
ainda não as impede de trocá-las durante o trajeto da lavagem. Percebe-se também na origem das brincadeiras a simbólica união de Nossa Senhora e São Roque.
FIGURA 12: Idalina Soares da Hora., porta-bandeira. FIGURA 13: Jucira Oliveira, porta-bandeira, Agosto de 2000 Agosto de 2002.
FIGURA 14: Maria Rita Pereira de Oliveira, Agosto 2002
A metáfora do “ofício embandeirado” acha-se presente na Lavagem das Prostitutas jacuipenses quando a bandeira de São Roque sai pelas ruas da cidade, acompanhada pela multidão que dança efusivamente nesse palco livre, brincando, cantando e assumindo sua função social, ao cumprir e oficializar, mesmo provisoriamente, aquela manifestação festiva. Atualmente, ao lado da bandeira de São Roque, podemos observar outra bandeira de uma baiana, mas que Idalina Soares da Hora a designa como Senhora Santana. Segundo ela, “as duas pessoas que seguram a bandeira como hoje nesse caso eu e Jucira genra de Bernadete devem trajar por tradição roupa branca e roupa azul que são as cores de São Roque”.
Sobre a bandeira cujo comando Hermína passou Idalina, esta confere ao precioso objeto um valor inestimável, inclusive protegendo-a em sua própia casa durante o restante do ano:
“Esta festa a gente num pretende dexá ela cair, que todos nós somos humanas e vamos adorar que nós não temos outro lugar para se divertir nós só temos essa festa pra nos divertir que a festa de São Roque e Senhora Santana eu não posso esquecer dela eu saio com a bandeira dela e adoro amo São Roque e adoro Nossa Senhora Santana que é a padroeira de Riachão”.
Jucira, a segunda porta-bandeira da Lavagem, é nora de Bernadete de quem herdou o direito de proteger a bandeira depois que a sogra perdeu tragicamente um dos filhos, o qual também participava dos festejos, o que provocou-lhe o afastamento da Lavagem: “eu estou organizando essa festa e tenho o maior orgulho porque eu faço sempre promessa para Senhor São Roque me ajudar e me sinto bem e já alcancei muita graças graças a Deus”.153
Maria Rita Pereira de Oliveira, filha de Bernadete, uma das antigas dançarinas da Lavagem, explica orgulhosa que sai tradicionalmente na Lavagem, substituindo a mãe, como sua sucessora natural, entretanto possui sua própria devoção. Incisiva, ela não quer ter a responsabilidade com a bandeira, pelo fato de esta oportunizar uma disputa acirrada entre as mulheres da Rua do Fogo:
“Eu mim sinto feliz de saí na lavage e a devoção é isso eu não queria responsabilidade com a bandeira eu só descanso Idalina e Jucira quando elas cansam elas passa a bandeira pra mim dona Idalina sai com a de São Roque, Jucira com a de Nossa Senhora da Conceição mais pra eu mermo ter responsabilidade eu não quero porque elas num deixa elas quere ficar sabe aí eu não faço questão aí eu deixo mais eu mim arrumo igualmente a elas eu seguro a bandeira, responsabilidade mermo eu deixo elas ter que elas faz briga uma quer outra quer então eu deixo lá, eu não gosto de ficar disputando, mais quando eu estou dançado pela rua eu mim sinto feliz eu gosto.”.154
153 Jucira. Depoimento retirado do vídeo Glorioso São Roque do Jacuípe. 1999. 154
Maria Rita Pereira de Oliveira. Nasceu em 05. 11. 1970, em Riachão do Jacuípe. Filha de Abidias Nascimento e Bernadete Pereira de Oliveira. Depoimento em 15. 08. 2001.