Norberto de Araújo nasceu em Lisboa a 21 de Março de 1889, na Rua do Mirante, numa casa hoje assinalada com uma lápide e morreu em Novembro de 1952. Foi um enamorado da cidade de Lisboa, aspecto que se encontra presente em toda a sua actividade profissional e artística, como jornalista, escritor e olisipógrafo.
“Pertencente a uma família modesta, depois de completar a instrução primária entrou para o Seminário de São Vicente, na esperança de poder usufruir das facilidades que ali se proporcionavam àqueles que não dispunham de recursos suficientes para alcançar mais ambiciosos destinos.” (Neves, 1989) Tendo perdido o pai muito novo, viu-se forçado a trabalhar para responder às suas necessidades, o que aconteceu aos 14 anos na IN como compositor gráfico. A sua carreira como gráfico foi muito promissora, tendo sido premiado no termo de aprendizagem e escrito um trabalho sobre as técnicas mais aperfeiçoadas da época: Aspectos da Tipografia em
Portugal (1914). Durante este período, publicou ainda mais dois trabalhos: Democratização da Arte (1915) e Da Iluminura à Tricromia (1916). Contudo, o
contacto com Luís Derouet, director da IN, mudou o seu rumo. Este entusiasmou-o a estudar, o que levou Norberto de Araújo a concluir o curso dos liceus e a matricular-
se no Curso Superior de Letras. Luís Derouet foi ainda responsável pela colaboração de Norberto Araújo na redacção do jornal O Mundo, de França Borges, a partir de 1916.
Após uma breve crise neste periódico, transferiu-se para o jornal A Manhã, dirigida por Mayer Garção, onde se estreou com uma série de crónicas quotidianas: as
Miniaturas. Além dos dois jornais em que trabalhou no começo da sua carreira
profissional, passou pelo DL80, onde ocupou a função de redactor principal ao longo de vários anos. Contudo, foi no DN que atingiu a plena maturidade como jornalista e escritor, tanto na reportagem, como na crónica, até aos últimos dias da sua vida.
As técnicas de escrita desenvolvidas ao longo de todo o seu percurso pela imprensa acabariam por ser adaptadas ao seu fascínio pelo teatro, tendo escrito
Negócio da China81, Dentro do Castigo, Diálogo entre Duas Mulheres, O Último
Romântico, O Amor Humilde e Por Bem. Algumas das suas peças foram à cena no
Teatro Nacional, no Éden e no Trindade. Foi também colaborador da Revista
Municipal e teve um papel extremamente valioso no Grupo de Amigos de Lisboa82, “não só na publicidade preparatória da organização, como a seguir na intervenção directa em várias manifestações que assinalaram os primeiros tempos de vida do Grupo”. (Raposo, 1960: 5) Escreveu numerosos artigos para a revista Olisipo83 e desempenhou os cargos de secretário-geral adjunto de 1936 a 1945, e de vice- presidente da Assembleia Geral de 1946 até morrer.
A cidade de Lisboa foi a sua grande inspiradora e mereceu da parte de Norberto de Araújo uma obra de fundo que começou a publicar-se em 1938, tendo recebido o Prémio Júlio Castilho, da CML, pela primeira vez atribuído em 1940:
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Norberto de Araújo obteve um assinalável êxito jornalístico, no DL, ao longo de vários anos numa crónica intitulada: Página de Quinta-Feira.
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Peça do TR de 1920.
82Firmada a agremiação em 1936. (Oliveira, 1989)
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Revista do Grupo de Amigos de Lisboa para a qual Norberto de Araújo escreveu: Os
vestígios vivos das muralhas de Lisboa (1938), Dois palmos de Lisboa em Belém (1941), Arcos (1944), Uma Alfama nova (1945), A fisionomia da cidade (1945), Os passos da Mouraria e a lápide da cerca Fernandina (1947), A cor de Lisboa (1949), Para quem têm servido os Conventos em Portugal (1950), Vieira da Silva (1951), A Rua dos Fanqueiros (1952), Azulejos (1952) e Os arcos de Lisboa e a sua nostalgia (1952).
Peregrinações em Lisboa84. Este trabalho culminou com outros dois de diferente alcance: Legendas de Lisboa85 (1943), série de crónicas de fundo poético, e
Inventário de Lisboa, em que propunha uma descrição completa de todos os
monumentos e edifícios notáveis em 23 capítulos86, que não ficaram completos devido à sua morte.
Também mostrou a sua proximidade à cidade de Lisboa nas MPL. Desde 1932, ano em que desenvolvia a actividade de jornalista no DL, e foi convidado por Leitão de Barros a dar o seu apoio87. A partir de 1932, esteve sempre presente em todas as organizações. Em 1934 e 1935 foi vogal da CEFC e secretário do Júri. Em 1940, com a responsabilidade da organização nas mãos da CEC, foi o realizador das MPL. Em 1947 e 1950 voltou a ser secretário do júri e em 1952, quatro meses antes de morrer, foi uma espécie de “secretário-geral” (Patrício, 1997), presidindo à sua organização.
Para além do papel que desenvolveu como dinamizador e organizador,
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“As Peregrinações são uma longa obra, desdobrada em quinze fascículos, em que o autor, fazendo-se acompanhar por uma personagem imaginária percorre sistematicamente a cidade em todos os sentidos, e, conversando sempre com o seu interlocutor, vai desdobrando a história de cada local ou de cada rua, dos monumentos, dos bairros, dos templos e edifícios que tenham interesse a tradição.” (Raposo, 1960: 6 e 9) Dos quinze fascículos que completam as Peregrinações em Lisboa, à data da sua morte tinham sido publicados nove e estava em prova o décimo. As ilustrações são do Mestre Martins Barata.
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“... trata-se de uma série de pequenos folhetins ou aguarelas em que a Lisboa e o seu típico estão gravados em pinceladas coloridas. É um trabalho de jornalista que fixa impressões e aspectos para os transmitir ao público a quem consegue desvendar aquilo que toda a gente vê, mas que não era capaz de ver e sentir como ele via e sentia na sua palpitação lisboeta.” (Raposo, 1960: 6)
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A ideia da realização do Inventário de Lisboa, é apresentada a 25 de Maio de 1939 no Salão Nobre dos Paços do Concelho, tendo sido o contrato celebrado com a CML a 13 de Abril de 1942. Em 1944 é publicado o primeiro fascículo, tratando de monumentos históricos. O último volume editado ainda em vida de Norberto de Araújo foi o IX fascículo em 1952. Em 1955 foi publicado o X fascículo. Em 1956 saíram os fascículos XI e XII, já com matéria do novo organizador, o Dr. Durval Pires de Lima. Para descrição completa de todos os capítulos do Inventário ver Norberto de Araújo –
Olisipógrafo e Jornalista in Revista Municipal nº55 (Ano XIII – 4º trimestre de 1952). Publicação
Cultural da CML. Dos 23 capítulos inicialmente pensados por Norberto de Araújo, os primeiros doze volumes só contemplam 12 fascículos.
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Não é conhecido o tipo de apoio dado por Norberto de Araújo a Leitão de Barros em 1932, para além das notícias publicadas no DL.
Norberto de Araújo escreveu uma grande quantidade de versos para MP, nomeadamente os versos das GML entre 1935 e 195288, sempre em parceria com Raúl Ferrão que foi o responsável pelas melodias. Nos seus versos, Norberto de Araújo não deixa de cultivar e incentivar as festas do povo da sua terra, da qual disse: “a Nação é de todos, mas a cidade é de Lisboa”89.
Não são conhecidas as relações que manteve com Raúl Ferrão, nem como eram construídas as MP em que participaram os dois autores. Não sabemos se era escrito primeiro o texto e sobre ele a melodia, ou vice-versa, ou ainda, se era um trabalho realizado simultaneamente com a presença dos dois autores. Sabemos no entanto, que os versos de Norberto de Araújo foram repetidamente cantados por todos os que em 1935, 1940, 1947, 1950 e 1952, participaram nos desfiles das MPL. O conhecimento generalizado dos seus versos, pela obrigatoriedade da apresentação da GML, e as suas constantes referências à cidade de Lisboa, que caracterizam os seus textos, terão contribuído para o que hoje é a MP da cidade de Lisboa. De facto, até então, existia a MP, mas não da cidade de Lisboa. Curiosamente, e sem uma explicação aparente, Norberto de Araújo teve uma participação muito discreta nos versos das MP para os bairros, como se pode constatar pelo anexo III.
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Num total de cinco marchas: Lá vai Lisboa (1935); Olha o Manjerico (1940); Marcha do
Centenário (1947); Noite de Santo António (1950) e Alcachofra Brava (1952).
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Frase dita por Norberto de Araújo a 15 de Maio de 1939, no salão nobre dos Paços do Concelho, numa conferência que apresentou sobre o Inventário de Lisboa.