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3.1 L’argument de la chambre chinoise de J. Searle
As MC envolvem sempre a alteração da aparência física do sujeito materializando-se em adições ao corpo extremamente apelativas, como a tatuagem, escarificação, piercing, cutting, branding, entre outros procedimentos realizados principalmente por razões estética (Myers, 1992).
No documentário “Modify”, Steve Haworth, pai das MC em três dimensões, responsável pela invenção e popularização dos implantes corporais subdermais e transdermais e considerado desde 1999 pelo Guiness World Records como o artista mais avançado em MC, partilha aquelas que considera serem as principais razões para a prática de MC: primeiro por estética, segundo para potenciar o desempenho sexual, terceiro para chocar e em quarto, por espiritualidade (Souza, 2009).
Uma das principais funções relatadas para a MC, é deixar o corpo mais bonito, ter um visual atraente, sedutor, com estilo, revelando sobretudo uma preocupação estética. Na generalidade, para grande parte das pessoas, o corpo está directamente ligado à noção de beleza e alterando-o, sentem-se mais bonitas. Alguns indivíduos através das MC conseguem aceitar melhor o seu corpo e aumentar a sua autoestima, não porque esteja na moda mas por considerarem o corpo modificado realmente belo. A diferença resido no conceito de beleza, se para a maioria da população ocidental ficar mais bonito pressupõe seguir os padrões de beleza em voga, disseminados pelos media; para os sujeitos com MC, o conceito de beleza é diferente, pois muitas vezes ser diferente dos demais é só por si, sinal de beleza (Loeck, 2010).
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E se há ligação de longa data, é a da beleza à arte. O corpo como um meio de arte é também uma forma de maior conexão ao corpo (Muller, 2012). Na bibliografia da área encontram-se várias referências ao corpo como tela, como “avenida” para a auto expressão, aliando assim os conceitos de arte e MC (Adams, 2007).
Ao contrário dos museus, nos quais as peças permanecem imóveis e a maior das vezes intocáveis, na vitrine que é o corpo, as peças de arte acompanham o individuo para todo o lado, para o resto da vida. O corpo assume-se enquanto “suporte da arte” (Pires, 2005) no qual se pode tocar, mexer, brincar e sentir a textura. As MC não são mais que manifestações artísticas num suporte da arte que é o corpo humano (Silva, 2007). Da mesma forma que não decoramos a nossa casa ao acaso e escolhemos peças de arte e decoração que ilustrem os nossos gostos, sentimentos e emoções, o mesmo acontece quando o corpo é escolhido como veículo de arte, sendo a tatuagem, a escarificação e o branding, as bodymods que melhor expressam os conteúdos subjectivos que ilustram (Loeck, 2010).
Há um sentimento de orgulho justificado pelo facto de ser proprietário único de uma obra-prima permanente e itinerante, que pode ser marcada na pele e jamais poderá ser vendida, roubada ou trocada (Ferreira, 2009). Mas a vivência da modernidade tardia, da experiência da globalização e da banalização da aparência, torna o que hoje é único, em algo potencialmente universal no amanhã. Neste sentido, temos as práticas de MC ligadas a estéticas e desejos de experimentação corporal particulares, que poderão seguir uma estética amplamente difundida ou optar pelo seu distanciamento, projectando-se numa construção antiestética, quase antagónica aos arquétipos corporais (Souza, 2009). Por exemplo, a adopção de uma estética divergente por tatuadores e
body piercers serve como facilitador de cumplicidades estéticas e éticas, bem como
cartão de visita da sua actividade profissional (Ferreira, 2008).
Os piercings são frequentemente associados a acessórios de moda e Le Breton (2002) refere inclusive, que para as mulheres a função da tatuagem é por vezes puramente estética como se tratasse de um tipo de joalharia moderna. Porém, um número crescente de indivíduos reconhece e faz referência às suas tatuagens, não como suplementos de moda mas como peças de arte exclusivas (Siebers, 2000; Stirn, 2001). Independentemente da MC em causa seja considerada obra de arte por uns ou mero acessório de moda por outros, vários autores concordam que o embelezamento é a força
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motriz, combinando assim estética, moda e arte, numa mesma dimensão decorativa do corpo (Wohlrab, Stahl & Kappeler, 2007).
Deste modo, faz sentido referir Turner (2001) quando o autor aborda as práticas de MC como algo meramente narcisista, resultado de uma economia de mercado baseada no consumo. Sweetman (1999) fala até de um “supermercado de estilo” quando caracteriza as sociedades contemporâneas, nas quais piercings e tatuagens desprovidos de significado são consumidos como qualquer outro produto de adorno.
Um paradigma eficiente na compreensão da prática de MC na sociedade de consumo contemporânea é a noção de “body project” (Giddens, 1991), de projecto corporal (Shilling, 2003), onde o corpo é um contínuo foco de trabalho no sentido da transformação e do melhoramento. Como se de uma empresa se tratasse, perante o mercado de opções, também para o corpo se efectua o exercício de consumidor nas escolhas que melhor satisfazem o projecto em mente.
Os média são responsáveis por disseminar constantemente imagens, anúncios e programas de celebridades que apresentam MC, mais comumente o piercing ou a tatuagem, o que de certa foram mediatiza as marcas corporais e legitima o desejo de consumo das mesmas por parte de todas as classes sociais (Kosut, 2006). Mas será esta vontade de mimetizar os famosos, apenas um reflexo da moda actual?
Quanto ao consumo de MC ser resultado de um fenómeno aparente de moda, a reflexão deverá ser mais profunda e partir da incompatibilidade entre moda e MC, na medida em que a moda reflecte popularidade, tendências inconstantes e carácter efémero, enquanto as MC pressupõem à partida um carácter permanente ou eterno, ou seja, anti-fashion. Inclusive, o acto impulsivo da compra associado ao consumismo afasta-se das MC na ênfase da sua permanência, que pressupõe ponderação e por vezes, alguma demora na decisão e certeza em adquirir as marcas permanentes no corpo (Teixeira, 2006).