Comecemos então, a pensar sobre a crítica posta por Adorno e Horkheimer (1985) em Dialética do Esclarecimento a partir das reflexões sobre o conceito de Indústria Cultural – o qual traz um complemento: “O esclarecimento como mistificação das massas” – no sentido
32 O Marco Teórico para esta Tese é fruto da Dissertação de Mestrado, defendida em fevereiro de
2005, sob o título: Da Fábrica ao Campo de Futebol, Vender Tecido e Vender Espetáculo: tecendo os fios de um “casamento feliz”, principalmente na relação entre semicultura/alienação e a mídia. Ali nasceu a curiosidade por tal tema, o que foi retroalimentado com os trabalhos em Mídia-Educação desenvolvidos pelo LaboMídia/UFSC.
33 Adorno e Horkheimer (1985) – O conceito de Indústria Cultural está relacionado com o
de estabelecer um elo com a Formação. Por isso, aqui há uma perspectiva em que muitos não apostariam, ou melhor, a partir da qual muitos diriam que estes autores não trazem uma proposta para emancipação e muito menos – observando hoje o processo que se encontram as TIC na sociedade, principalmente, pelo fato da “massa” estar produzindo conhecimento em sua interação cotidiana – que são autores que poderiam ajudar nas reflexões do tempo presente. A tentativa, portanto, não caracteriza uma forma ingênua de pensar o mundo, mas, sobretudo, que a crítica radical feita à Indústria Cultural pelos autores abre canais possíveis de superação pelo simples fato de que os sujeitos, mesmo vivendo num capitalismo tardio34, não são absolutamente passivos, por isto, desmistificar, era (é) preciso.
Na Indústria Cultural (I.C.), ou melhor, no processo de banalização da cultura em que as coisas são muito semelhantes e preparadas para o consumo, ou como dizem Adorno e Horkheimer (1985 p.113), “a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança”, o sujeito é a reificação deste processo, pois aqueles que controlam fazem – com sua persuação e com os meios e técnicas – com que aceitem essa dominação sem resistência.
Bem, esta é uma crítica dura, que é fruto das análises a partir do contexto histórico em que eles viveram. Primeiramente, desde a Alemanha (na década de vinte/trinta) que o sonho de liberdade perpassa a concepção teórica que vai configurar a Teoria Crítica e que já começa na criação da Escola de Frankfurt. Isto, causado pela desilusão dos movimentos revolucionários que culminaram com um totalitarismo, como também com a ascensão do nazismo/fascismo que fizeram uso dos meios de comunicação, como o rádio, em caráter ideológico e opressor. Este aspecto afetava diretamente os membros da Escola, uma vez que um dos principais objetivos era “o desejo de autonomia e de independência do pensamento” (MATOS, 1995, p. 5). Com a “Diáspora” dos membros da Escola – uma vez que todos tinham origem judaica – provocada pela caça aos judeus no período da II Grande Guerra, que fizeram com que conhecessem outras realidades como a Europa e a América, houve a possibilidade de um olhar mais aguçado às mudanças que ocorriam no mundo.
Foi assim que Theodor Adorno e Max Horkheimer, bem como outros frankfurtianos, fugiram da Alemanha nazista e refugiaram-se em vários países (Europa e América do Norte) e perceberam que no final da década de trinta e início de quarenta ocorria uma mudança significativa no tocante aos meios de comunicação de massa e a influência deles sobre as pessoas, principalmente a respeito da banalização da cultura (o que se
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Os teóricos da Escola de Frankfurt utilizaram esta expressão, como sinônimo de sociedade administrada e seu caráter imobilizador [...]. (PIRES, 2002 p. 67). Vide também Matos (1995) sobre a história e o pensamento dos que compunham a Escola.
transmitia e ouvia nas estações de rádio nos Estados Unidos, por exemplo) e a ideologia do consumo que era fortemente estimulada e sedutora pelo fetichismo da mercadoria. Com isto, quando eles residiam nos Estados Unidos, vivenciaram o “boom” da indústria e do comércio e a grande difusão dos meios técnicos, música, o consumo, a venda, entre outros, o que caracteriza o período pós-crise provocado também pela queda da bolsa de Nova Iorque em 1929, ou seja, o “milagre econômico” pós-guerra como expõe Matos (1995). Perceberam que tudo era permitido, inclusive a banalização da arte, da cultura na sociedade capitalista.
Nesse aspecto que estes frankfurtianos vão consolidando um conceito sobre este panorama histórico-cultural, a partir da realidade que viveram, a Indústria Cultura, ou seja, a indústria que produz para as massas. Observamos que a sociedade é preparada para isto, pois, cada produto (material ou não-material), adequa-se aos consumidores como se fosse feito para eles, o que deixa o produto irresistível. Ainda, a “força” – entenda-se no plano do Poder Simbólico35 – que ganha um caráter de sedução, aqui explicitada, passa por todos os ramos da sociedade e com os meios de comunicação e as novas TIC aumentam o potencial para o encontro entre produto e consumidores. Neste aspecto, a produção, seja ela nos mais diversos veículos, vídeos, imagens, entre outros, ganha destaque nacional e internacional, quando o processo banal e quantitativo paira sobre o resultado e que logo, logo, vira moeda troca aos interesses da lógica capitalista, do lucro. Isto só reforça a tese de que a educação deve preocupar-se com o uso e a produção neste campo, pois os efeitos da I.C. ainda são determinantes no comportamento das pessoas, principalmente jovens e adultos.
As mudanças socioeconômicas ocorridas no século passado e na atualidade, principalmente na industrialização, e hoje associadas às TIC e às Mídias, marcam o estado atual em que se configura a I.C., na qual está o sentido ideológico do mundo capitalista. Como se todo sistema tivesse um sentido de ser igual.
O trabalhador, neste enredo, situa-se como objeto manipulável seja na produção, seja no consumo. Isto estava e está posto, o que torna difícil pensar em sujeitos autônomos e emancipados. No entanto, compreendemos que é justamente por este caminho, compreendendo-a, que encontraremos sua antítese, ou melhor: a inspiração para preocuparmos com o processo de Formação.
Este fenômeno – Indústria Cultural – observado pelos frankfurtianos em meados do século XX e que, de certa forma, refletia o resultado ou consequência do momento histórico que se configurou na própria sociedade moderna industrial e que perpassava o cientificismo, ou melhor, a racionalidade técnica, o consumo em massa, a banalização da arte,
implicava no apogeu da ideologia dominante, da alienação e aqui, neste trabalho, relaciona-se precisamente à Semiformação.
A indústria cultural não sublima, mas reprime. Expondo repetidamente o objeto do desejo, o busto no suéter e o torso nu do herói esportivo, ela apenas excita o prazer preliminar não sublimado que o hábito da renúncia há muito mutilou e reduziu ao masoquismo. [...] é pornográfica e puritana. Assim, ela reduz o amor ao romance, e, uma vez reduzido, muita coisa é permitida, até mesmo a libertinagem como uma especialidade vendável em pequenas doses e com a marca comercial [...].
(ADORNO e HORKHEIMER, 1985, p. 131)
Poderíamos fazer um exercício das produções televisivas nos últimos anos, principalmente o Big Brother36 que tal cenário ficaria atualizado, bem como a crítica dos autores supracitados ficaria em constante atualização temporal. No entanto, o entendimento aqui é que, com o olhar aguçado para as arapucas da I.C, possamos encontrar saídas para este poder (simbólico) que chamamos de opressão. Obviamente, estes autores não negaram a possibilidade para a emancipação na sociedade dominada pela mercadoria e, nesse sentido, a astúcia seria uma grande aliada, como vemos nas belas passagens da Odisséia (Homero) em que Ulisses sempre encontra saídas nas mais difíceis situações.
É na I.C. que se percebe a regressão do esclarecimento, pois há uma ideologia em que o principal fundamento é o consumo: nem mesmo de posse de uma autonomia (?) mantemos uma oposição a esse ditame; nem mesmo com as obras de arte presenciamos uma resistência, pois ela vai sendo sucumbida pela lógica do comércio, da mercadoria; o valor crítico, cada vez mais, aproxima-se do valor (enquanto dinheiro), o que bloqueia o pensamento esclarecedor; vemos cada vez menos um pensamento encorajador que fuja dessa lógica em que é determinado pela lei de mercado (demanda e oferta) e parece-nos que tudo está dominado para lograr êxito no mercado, nem mesmo os pequenos artistas da cultura popular escapam, tem sempre alguém o corrompendo com a promessa de riqueza; os resistentes na música, na arte, no cinema, no teatro convivem o tempo todo com a sedução – fetiche – da mercadoria, o que, além de “matar” a fruição artística, materializada no belo, no estético, na crítica, transformam e são transformados em “coisas” (reificação alienada).
Neste aspecto, encontramos um sistema midiático corrompido, principalmente a Televisão. Nela, os negócios são de interesses rentáveis e a lógica é a do dinheiro. Apesar de estarmos hoje vivendo um período em que as TIC potencializam estabelecer uma nova leitura desta dominação e também caminhar para outra esfera em que os sujeitos produzem
conhecimento, ainda o que prevalece é a dominação que consiste na eficácia e na técnica de produção e difusão. Portanto, longe de um processo democrático, o que presenciamos é um modelo de dominação – mistificação das massas – em que, em certa medida, é concebido sob a anuência das pessoas. “Isso nos autoriza a sugerir que a técnica mais refinada não necessariamente leva a um aumento das possibilidades humanas, mas, talvez leve, tendencialmente, a uma escravização do corpo por meio da incorporação dos processos reificadores da tecnificação” (BASSANI e VAZ, 2008, s/p).
A I.C traz em sua “calda” uma série de implicações (aligeiramento da arte; a repetição; decadência da educação; a regressão; torna as coisas muito parecidas) e tem no sistema capitalista a sua base. Com a perspectiva de tudo se transformar em mercadoria, o processo de banalização (cultura, a arte, política, entretenimento entre outros) vai se materializando. Este é um fato importante, pois vai caracterizar a ideologia que emana da I.C e isto tem implicações também no que acontece hoje nas TIC e Mídia, pois, apesar de estarmos produzindo cultura/conhecimento, o que diferencia dos tempos da mídia como via de mão única, ainda estamos imersos na ideologia na qual o importante tem a cara de novo e o novo, nasce velho.
Neste cenário, vivenciamos uma superprodução de produtos (TIC) a exemplo do celular, na verdade os Iphone´s, Ipad´s, que sintetizam a esfera do consumo neste campo e, ao mesmo tempo, mantém no ápice da pirâmide econômica os donos dessas tecnologias que passam a influenciar/dominar nossos comportamentos.
É por estas críticas e análises que advém da Teoria Crítica e dos frankfurtianos, que se faz necessário pensar e repensar o presente. Talvez somente com uma crítica dura e séria sobre a avalanche de produtos tecnológicos que chegam ao mercado na mesma velocidade que vão embora e com um olhar aguçado para a mídia e seus produtos que podemos pensar em estratégias pedagógicas no âmbito escolar.
Não existe um termômetro que indique o grau no qual estamos esclarecidos, até porque, como dizem Adorno e Horkheimer (1985, p. 37), “O esclarecimento é totalitário como qualquer outro sistema”, mas, obviamente, a utopia em nossa perspectiva é justamente a possibilidade de alcançarmos o esclarecimento.