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Em um outro momento falamos sobre o desejo que o homem teve de tentar entender fenômenos os quais ele não dominava e nesse desejo de querer compreender as transformações pelas quais o ambiente em que estava inserido sofria, o homem primitivo começou a contar os acontecimentos vivenciados por ele. Podemos dizer que o homem narrava esses acontecimentos, ou seja, o contar era exatamente narrar as experiências vividas por ele num determinado espaço, num determinado tempo.

É interessante frisar que a narração foi usada numa época em que o seu estudo não era uma preocupação, mas sim o seu uso e está presente inclusive nas formas iniciais de registro da história quando observamos as primeiras pinturas rupestres. Já ali, em um outro sistema semiótico, a narração se fazia presente. Mas, o que é narração? Será que é apenas o relato de acontecimentos reais ou fictícios desenvolvidos em um tempo real ou imaginário? Como uma narração é estruturada? Quando falamos em narração, estamos falando também em narrativa ou temos, nesse caso, termos distintos?

Segundo Bronckart (1999: 219), “o conceito de seqüência narrativa já foi estudado por muitos pesquisadores”. Para ele esse estudo começou com a Poética de Aristóteles, que comenta e descreve as características principais desse gênero textual/discursivo; posteriormente, no início do século, estudiosos como os formalistas russos Tomachevsky e

Propp desenvolveram um trabalho sobre a narração. No entanto, vale ressaltar que o estudo sobre a narração estendeu-se ao campo da psicologia cognitiva com Fayol (1985), à sociolingüística americana com Labov (1967) e à escola francesa de narratologia com Brémond (1973), Genett (1969) e Greimas (1966).

Podemos, todavia, até pensar que o narrar é uma ação simples, mas o interesse de linhas teóricas de pesquisa pela narração nos mostra que não estamos tratando de um tema simples, mas sim de um assunto que merece atenção de todos os que pretendem realizar atividades lingüísticas que incluam textos em diferentes gêneros. Primeiro, acreditamos ser importante entender a diferença que há entre os dois termos “narração” e “narrativa”. De acordo com Platão e Fiorin (1997:227-229), a narrativa “é uma mudança de estado operada pela ação de uma personagem” e que a narração “é um tipo de narrativa, pois a narrativa pode aparecer”. É possível compreendermos melhor essa distinção ao observarmos como cada uma se forma; ao analisarmos as características básicas de cada uma.

Ao despertar o nosso interesse de investigar os elementos que estão presentes na Narrativa, observamos que ela está dividida em dois tipos básicos: a Narrativa de Aquisição e a Narrativa de Perda. Nessa há a presença de personagens que perdem algo anteriormente conquistado como, por exemplo, um emprego, um amigo, um amor; naquela as personagens se apaixonam, enriquecem, enfim, adquirem algo. Mas, além dessa divisão, a Narrativa apresenta, segundo Platão e Fiorin (1997), quatro mudanças de situação e essas quatro mudanças tanto podem aparecer na narrativa de aquisição quanto na de perda. São elas: a) a personagem pode passar a desejar ou querer realizar algo: aqui dá-se uma transformação quando se passa do desejo de não querer ao desejo de querer algo; b) a personagem apresenta a competência necessária para realizar algo: nesse caso ela passa do estado de não poder realizar para o de poder; c) essa mudança é considerada pelos autores como a principal da narrativa: aqui há a realização do que se desejava pôr em prática; d) é constatada que a

transformação principal aconteceu e que pode atribuir a essa transformação um castigo ou um prêmio.

Ao verificarmos os tipos de mudança que uma narrativa pode apresentar, vemos que em um texto dissertativo, por exemplo, pode haver narratividade, que no dizer de Platão e Fiorin (1997), é a transformação de situações. E é por isso que a narração é um tipo de narrativa, pois nela há o desenvolvimento de ações (reais ou imaginárias) que são realizadas por personagens situados em um ambiente em que será desenvolvida a trama.

Em sua essência a Narração apresenta quatro características que para os autores são consideradas básicas. Na primeira, a Narração é vista como um conjunto de ações encadeadas que apresentam, ao longo da trama, mudanças de situação. Esse conjunto de ações faz referência a algumas personagens que estão localizadas num tempo e num espaço precisos. Na segunda característica, Platão e Fiorin dizem que as personagens, as situações, os tempos e os espaços estão bem determinados e falam que a Narração trabalha com termos concretos; no entanto, é importante salientar que nem sempre o tempo e o espaço estão bem determinados, nos CF, por exemplo, não podemos falar em tempo e espaço bem determinados. Na terceira característica, observa-se que há uma “progressão temporal” nas ações relatadas durante o desenvolvimento do enredo; ações que podem ter uma relação de concomitância, anterioridade ou posterioridade com o tempo real em que elas estão sendo relatadas. Na última característica faz-se um registro dos tempos verbais predominantes na Narração. Platão e Fiorin registram que o pretérito com o seu subsistema (pretérito perfeito, pretérito imperfeito, pretérito mais-que–perfeito e futuro do pretérito) é o tempo verbal da narração, visto que esses tempos mantêm uma relação de concomitância com o momento da fala do narrador, marcada pelo presente. E esse momento da fala pode manter, na Narrativa, relação com o tempo passado ou com o futuro.

Essas relações temporais apresentadas na Narração são de interesse do lingüista, pois através do seu estudo podemos entender o processo de desenvolvimento da temporalidade no texto narrativo. Mas, antes de aprofundarmos nosso estudo na questão da temporalidade, acreditamos ser relevante voltarmos a nossa atenção ao ato de narrar.

O Ato de Narrar nasceu dos primórdios quando o homem tentava explicar os fenômenos da natureza que o deixavam inquieto e desejoso de dominar aquilo que não conseguia entender. De acordo com Cavalcanti (2002:63), “o homem é por natureza e essência sujeito da narrativa”. No entanto, como se dá a estruturação desse tipo textual? Basicamente a Narração apresenta quatro etapas. Na primeira etapa há a situação inicial em que alguns personagens são apresentados e situados no tempo e no espaço; valendo ressaltar que em nem todas as narrações o tempo e o espaço estão devidamente marcados. Essa situação inicial geralmente é apresentada num ambiente de equilíbrio em que as personagens encontram-se em paz consigo mesmas e com as demais. Mas, esse equilíbrio será quebrado na segunda etapa sendo reestabelecido na resolução final. É importante salientar que há narrativas em que na situação inicial é apresentada um estado de desequilíbrio, infelicidade de determinadas personagens. Na segunda etapa temos, segundo Platão e Fiorin, a complicação. Aqui, as ações são iniciadas com a apresentação dos conflitos, problemas que uma ou mais personagens estão envolvidas. Após o desenvolvimento das ações que trabalham com esses conflitos e ou problemas chegamos ao clímax, que é o momento em que as personagens lutam para superar seus problemas, lutam para alcançar seus objetivos. Essa luta nos leva à resolução final ou ao desfecho que é o momento em que o equilíbrio inicial é reestabelecido.

Nas etapas mencionadas acima surgem as personagens que irão participar direta ou indiretamente de cada situação exposta na seqüência narrativa. Podemos falar basicamente em quatro tipos de personagens: o protagonista, que é a personagem principal; o antogonista, aquele que tentará prejudicar o protagonista impedindo-o de realizar seus objetivos; e os

adjuvantes ou coadjuvantes, considerados personagens secundários, atuam ao lado do protagonista com a finalidade de ajudá-lo a concretizar seus objetivos.

Obviamente não poderíamos deixar de falar no narrador, peça fundamental no desenvolvimento do texto narrativo. É ele quem vai dar ao leitor informações sobre as personagens nas ações desenvolvidas no texto narrativo. Ele é o mediador entre os fatos narrados e o leitor; mediador que pode assumir o papel de uma personagem presenciando e mostrando os fatos em primeira pessoa ou que pode expor esses fatos sem envolver-se diretamente na trama usando a terceira pessoa. Mas, além disso, pode comentar o enredo da história tentando “comunicar-se” com o leitor ou pelo menos tentando “chamar a atenção do leitor” para uma determinada ação. O fato é que o narrador acaba de fato estabelecendo uma comunicação com o leitor.

Para finalizar nossa discussão sobre o ato de narrar, devemos chamar atenção para os tipos de discursos que são usados na Narrativa. Há os discursos direto, indireto e indireto livre. Esses discursos, muito bem analisados e teorizados por Mikhail Bakhtin, caracterizam a fala das personagens e podem aparecer todos em uma mesma narrativa ou apenas um ou dois. O Discurso Direto é a reprodução fiel da fala da personagem. De acordo com Platão e Fiorin esse discurso permite que o autor do texto mostre ao leitor o que realmente aconteceu no momento em que as personagens interagem. O narrador não conta o que aconteceu, mas abre espaço para que a personagem externe o que se foi dito no momento exato em que a produção da fala foi realizada. Já no Discurso Indireto o narrador conta o que a personagem produziu oralmente num determinado tempo e espaço. Por fim, temos o Discurso Indireto Livre, que é a fusão do direto e do indireto; nesse caso, a fala das personagens se confundem com a do narrador.

Diante do que foi exposto, faz-nos necessário registrar que todos os elementos que constituem a narrativa são de uma relevância inigualável, no entanto, não se entenderá ou não

haverá coerência narrativa se, no interior do texto, houver inadequação no uso dos tempos e aspectos verbais e das expressões temporais. Sabemos que a seqüência narrativa segue uma ordem cronológica e é essa progressão temporal que irá marcar as mudanças de situação; que irá situar o leitor nas etapas pelas quais as personagens passarão no texto, que irá indiciar as relações causais entre os fatos narrados.

Tendo caracterizado e realizado a distinção entre os termos narração e narrativa, vamos nos deter no estudo das seqüências narrativas apresentando sua caracterização baseados no trabalho de Bronckart nas passagens em que ele fala dessa seqüência citando as pesquisas desenvolvidas pelo lingüista francês Jean-Michel Adam, no âmbito da Lingüística Textual.

4.2 A Seqüência Narrativa segundo Adam

De acordo com Bronckart (1999:217), “os tipos de discurso e a organização seqüencial ou linear caracterizam a infra-estrutura geral dos textos”. Para ele, os tipos de discurso são elementos relevantes nessa infra-estrutura.

Bronckart revela que há na memória dos interlocutores macroestruturas que podem desenvolver-se em uma organização linear, apresentada de maneiras distintas, que vêm sendo chamadas de superestruturas textuais. Para alguns, na visão de Bronckart, essas superestruturas podem ser consideradas peças fundamentais no desenvolvimento da textualidade. Todavia, Adam (apud BRONCKART 1999), desenvolveu uma teoria sobre a organização textual considerando a visão que ele tem a respeito de seqüência. Segundo Bronckart, Adam diz que “as seqüências são unidades estruturais relativamente autônomas, que integram e organizam macroproposições, que, por sua vez, combinam diversas proposições, podendo a organização linear do texto ser concebida como o produto da

combinação e da articulação de diferentes tipos de seqüências”(1999:218). Diante dessa afirmação podemos concluir que há seqüências distintas e que cada uma dessas seqüências apresenta uma organização linear própria identificada pelas proposições e macroproposições que as formam.

Não estando, todavia, preocupados em desenvolver um estudo sobre as seqüências textuais que há em uma narrativa, vamos deter nossa atenção no estudo das chamadas seqüências narrativas baseados na visão de Bronckart sobre o trabalho desenvolvido por Adam. Para Adam (apud BRONCKART 1999:218), as seqüências textuais formam protótipos, que são “modelos abstratos de que os produtores e receptores de texto disporiam, definíveis, ao mesmo tempo, pela natureza das macroproposições que comportam e pelas modalidades de articulação dessas proposições em uma estrutura autônoma”. Esses protótipos se realizam nos tipos de texto onde podem ou não as macroproposições serem realizadas.

Enquanto Platão e Fiorin (1997) falam de “ato de narrar”, Adam fala em seqüência narrativa considerando que esta só se realiza quando no interior do texto desenvolve-se uma intriga. Ou seja, a seqüência narrativa não será considerada assim se nela apenas houver ações organizadas respeitando uma progressão temporal, mas sim se no processo de desenvolvimento das ações se desenvolve um processo de intriga. Adam (apud BRONCKART 1999:220) diz que esse processo tem como fim “selecionar e organizar os acontecimentos de modo a formar um todo, uma história ou ação completa com início, meio e fim”. Aqui, chegamos ao protótipo mínimo proposto de seqüência narrativa :

SITUAÇÃO INICIAL TRANSFORMAÇÃO SITUAÇÃO FINAL

No entanto, Bronckart nos fala que com Labov e Waletzky (apud BRONCKART, 1999) surgiram um protótipo-padrão apresentando cinco fases consideradas todas relevantes:

a) fase da Situação Inicial, em que o “estado de coisa” se apresenta. E esse estado pode se apresentar num ambiente de equilíbrio que será quebrado quando se introduz um estado de perturbação;

b) fase de Complicação, onde a perturbação é introduzida;

c) fase de Ações, que indica os sucessos oriundos dessa perturbação;

d) fase de Resolução, em que as ações novas surgem diminuindo o grau de tensão provocado na fase de complicação;

e) fase de Situação Final, em que se restaura o equilíbrio que se perdeu ao ser-lhe apresentada a complicação.

Mas, além dessas cinco fases, Adam acrescenta mais duas que reflete a visão do narrador diante dos fatos narrados:

f) fase de Avaliação, aqui faz-se um comentário sobre o desenvolvimento da história sem haver regra no que diz respeito à posição desse comentário na narração;

g) fase de Moral, aqui o autor preocupa-se em explanar a “significação global” trabalhada no texto. Essa significação pode aparecer no início ou no final da seqüência.

É importante registrarmos que o estado de equilíbrio, ao ser desenvolvido, leva-nos a uma tensão, provocada por algum problema causado por uma ou mais personagens, que desaparecerá quando essas personagens superem o problema, reencontrando, assim, a harmonia apresentada na situação inicial. Esse protótipo de seqüência narrativa é considerado um todo regido por ações que produzem uma causalidade, isto é, “a ordem cronológica dos acontecimentos se sobrepõe uma ordem interpretativa, que fornece causas e/ou razões aos diversos encadeamentos constitutivos da história”. E é por isso que, segundo Adam (apud

BRONCKART:1999), a função da narrativa é a de “reconfigurar as ações humanas” e é possível haver essa reconfiguração devido ao seu caráter interpretativo.

Vale ressaltar, retomando o protótipo-padrão apresentado por Adam, que em algumas seqüências narrativas as fases desse protótipo podem todas se fazer presentes, como apenas uma ou duas.