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pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha. (p. 415)

Nhinhinha é uma menina milagreira “com seus nem quatro anos” (p. 412), cujo desejo estrutura-se no plano do sobrenatural ao ter suas vontades atendidas quase que de imediato. Portanto, assim como o discutido a respeito do Menino protagonista das suas estórias supracitadas, a menina dessa narrativa também possui seus desejos pertencentes ao estágio estético, o do prazer e da simplicidade, posto serem pautados pela realização de satisfações

pessoais, como ver um sapo61 ou comer pamonhinha de goiaba.62 Queria sempre muito pouco, “coisas levianas e descuidosas” (p. 413).

Entretanto, embora as duas crianças possam ser categorizadas como estetas devido à imediatidade, é notável a diferença entre elas no tocante à interioridade. Enquanto o Menino ainda sem muito entender da vida adulta e abalado com a morte do peru e com a doença da mãe pertença ao estágio estético, em As margens da alegria, e oscile entre alegria e tristeza entre as duas narrativas, configurando a ironia em Os cimos, Nhinhinha encontra-se já mais próxima do estágio ético, devido à sua interioridade mais intensa do que a do Menino, mesmo na segunda estória, e por estar mais inteirada dos processos da vida adulta, ainda que resista a seguir o que os mais velhos lhe pedem.

Mas seus milagres aconteciam também por outros meios que não somente o do desejo, conforme o narrador conta ao leitor sobre a doença da mãe, momento em que ninguém conseguiu fazer com que “Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu – „Deixa... Deixa...‟ – não a podiam despersuadir. Mas veio, vagarosa, abraçou a mãe e a beijou, quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos” (p. 414). Somente a muito custo é que a menina desejava e, consequentemente, realizava por milagre, atos necessários, tal como a chuva na época da seca intensa, que, mesmo depois de desejada por Nhinhinha, somente chega depois de dias. E era isto o que mais aborrecia o Pai, “que de tudo não se tirasse o sensato proveito” (p. 414), mas porque a menina tinha seus modos de fazer acontecer, segredados. A chuva somente veio refrescar a região porque, depois de duas manhãs de

61 “„Eu queria o sapo vir aqui‟ Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera” (p. 413).

62 “Dias depois, com o mesmo sossego: – „Eu queria uma pamonhinha de goiabada...‟ – sussurrou; e, nem bem meia hora, chegou uma dona, de longe, que trazia os pãezinhos da goiabada enrolada na palha. Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia” (p. 413).

experimentarem pedir para Nhinhinha desejá-la, ela quis ver o arco-íris.

O aborrecimento do progenitor remonta a um afastamento de sua interioridade ao projetar na filha seus desejos, visto ele próprio não poder realizá-los, mas querer que a filha os realize por ele, em milagres. Nesse afastamento, o pai configura mais uma das personagens rosianas a identificar-se com o desespero, nele classificado com o desespero da finitude ou a carência de infinito, uma vez que se volta estritamente para a mundaneidade de modo a preocupar-se com as tarefas de seu dia a dia. A Mãe junta-se a esse tipo de desespero, pois, assim como o Pai, decide guardar segredo a respeito das proezas de Nhinhinha,63 acreditando ser mais prudente evitar escândalos, e também para integrá-la à sociedade como se a protagonista fosse mais um número na multidão, mais um sujeito indiferenciado a seguir as normas sem questionamentos.

A partir do movimento de esconder a filha por medo de seus milagres e de gente maldosa, tentam mantê-la no mesmo padrão de sociedade que seguem e inseri-la no geral, mas sem sucesso. Nhinhinha não se molda aos padrões de sociedade nem se deixa prender cada vez mais ao geral por não arriscar, pelo contrário, busca sua satisfação imediata e de modo que melhor lhe apraz. E seus desejos configuram tal busca, por fugirem aos desejos adultos devido à sua simplicidade. Todavia, o maior de todos os desejos da protagonista é o que melhor representa o movimento oposto ao dos pais por manifestar sua vontade de ter “um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites verdes brilhantes...” (p. 415). Conscientemente ou não, essa sua vontade era a da morte, pois passado algum tempo, “Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares” (p. 414).

Nessa estória, embora a protagonista aparente ser uma criança anormal pelo seu

63 “Decidiram de guardar segredo. Não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos. Ou os padres, o bispo, quisessem tomar conta da menina, levá-la para sério convento. Ninguém, nem os parentes de mais perto, devia saber. Também, o Pai, Tiantônia e a Mãe, nem queriam versar conversas, sentiam um medo extraordinário da coisa. Achavam ilusão” (p. 414).

modo de agir bastante diverso do das outras crianças de sua faixa etária,64 guarda com elas identificação alegórica presente já na forma pela qual é tratada ao longo da narrativa. A menina é apresentada como Nhinhinha, apelido que substitui menininha, ainda em lugar de Maria, seu nome próprio e, portanto, aquele que a individualiza: “E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita” (p. 412). De acordo com o observado por Saraiva (2000, p. 95), vale a ressalva de que mesmo seu nome de batismo configura lugar comum pela simplicidade e quantidade existente por detrás do nome Maria. Desse modo, a protagonista tipifica as crianças no tocante ao desejo e ao imediatismo. Daí também a possibilidade de traçar um paralelo entre o imediatismo de Nhinhinha e o do Menino de As margens da alegria e Os cimos, e categorizar ambos como estetas, apesar das diferenças de interioridade entre eles.

Ao se comparar os protagonistas de Os cimos e A menina de lá, percebe-se, em ambos, tanto uma experiência de perda efetiva quanto a criação de um mundo mais satisfatório do que aquele apresentado pelos adultos. No primeiro caso, o Menino perde seu brinquedo e “recupera-o” ao criar uma estória para seu amigo. Já na segunda narrativa, de certa forma, Nhinhinha encontra nos desejos realizados uma forma de ser aceita, já que os pais têm medo de seus milagres e preferem escondê-la da sociedade. A protagonista, embora inconsciente de seu processo devido à pouca idade, cria, a sua volta, um mundo pautado pelos seus desejos infantis, um mundo criado para além da objetividade e, consequentemente, desconexo com a realidade dos adultos preocupados com os acontecimentos cotidianos. Assim, existe o não- entendimento deles em relação a ela, uma vez que os adultos vivem em um mundo divergente

64 “Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – „Ninguém entende muita coisa que ela fala...‟ – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: „Ele xurugou?‟ – e, vai ver, que e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: – „Tatu não vê a lua...‟ – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente ver perdendo. Só a pura vida” (p. 412).

daquele criado por Nhinhinha.

Apesar de a protagonista não ter quatro anos ainda, possui algum nível de autoconsciência e de consciência a respeito do mundo a sua volta, mesmo que seja identificado por meio do mundo que ela própria cria. Durante a estória, o narrador apresenta indícios sobre Nhinhinha possuir um conhecimento que escapa aos adultos que orbitam a seu redor, por exemplo, quando afirma que a menina “sorria apenas, segredando seu – Deixa... Deixa...” (p. 414). Ou quando a protagonista diz que quer visitar os parentes já falecidos e pouco depois ela própria morre, sendo enterrada conforme sua vontade: “bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos” (p. 415).

Assemelhando-se com o Menino e conforme supracitado, Nhinhinha pertence ao estágio estético por, assim como ele, pautar sua vida pelo prazer imediato e não ter consciência do funcionamento do mundo adulto e, portanto não poder nele adentrar inclusive por ambos serem crianças de faixas etárias próximas. Contudo, distancia-se do esteticismo apresentado pelo protagonista de As margens da alegria para aproximar-se da ironia do de Os cimos, por Nhinhinha configurar-se como ironista, à medida que seu silêncio e o estranhamento dos adultos em relação a seu comportamento denotam um movimento de interioridade da parte dela. Assim, conforme apresentado ao longo de toda a narrativa, a protagonista liberta-se do apego à realidade por meio de seus desejos concretizados e pela criação de um mundo paralelo ao real, determinando sua subjetividade.

Tal determinação também ocorre mediante seu silêncio, pois são várias as referências ao fato de a protagonista ser quieta, pouco falando, sendo que esse pouco que fala quase não é compreendido pelos adultos. Além disso, pela distância existente entre a introspecção de Nhinhinha e a da família, esta não a compreenderia caso lhe fosse possível expor sua interioridade. Por esse motivo, o silêncio da protagonista não configura o desespero demoníaco, mas sua aproximação ao silêncio de Abrãao, tendo em vista sua profunda

interioridade que a destaca como indivíduo acima do geral, embora não tenha cumprido as etapas para adentrar a esfera religiosa e verdadeiramente equiparar-se ao pai da fé.